20 de dezembro de 2013

[205] Episódio 2: O silêncio que procede ao esporro


Silêncio.

Adão viveu cento e trinta anos, gerou um filho e deu-lhe o nome de Set, que viveu cento e cinco anos, e depois gerou Enos, que viveu noventa anos, e depois gerou Cainan. Cainan viveu setenta anos, e depois gerou Malaleel. Malaleel viveu sessenta e cinco anos, e depois gerou Jared. Lúcia... Quem gerou Lúcia? Eu não faço ideia de quem gerou Lúcia. Lúcia gerou Márcio e o vendeu. Cléber e Martha compraram Márcio, não geraram porra nenhuma. Quem Márcio gerará? Boa coisa não vai ser, porque Márcio não presta...

Silêncio.

Eu não gostava muito da claridade, e a cortina ficava fechada em tempo integral, eu me sentia bem mais confortável assim. Uma semana após a mudança, ainda havia caixas para todos os lados. Silêncio. Eu não tinha muitos móveis, muito menos guarda-roupa, tudo ficava nas caixas. As únicas coisas que eu trouxera da casa daqueles dois foram minhas roupas, objetos pessoais, as coleções de livros e revistas e meu computador (além do bagulho), entretanto, agora eu já tinha conseguido comprar um fogão, uma geladeira, uma escrivaninha, uma cadeira de escritório – para trabalhar mais confortavelmente – e um colchonete. Este último, novo, os demais, porém, usados. Era o que dava para fazer com as parcas economias que eu tinha, com o tempo, eu conseguiria mobiliar a casa e viver decentemente. Havia também o Félix, esse gato filho da puta e interesseiro, como qualquer outra criatura... Aproximou-se de mim silenciosamente enquanto eu trabalhava na logomarca de uma clínica de fisioterapia. Parei por um instante para fazer-lhe carinho, era só o que bastava para ser feliz, além de um lugar quentinho para morar, e comida farta (eu já disse isso aqui).

Voltei ao meu trabalho. Todas as logomarcas de clínicas de fisioterapia eram uma ilustração ou silhueta de alguém com a mobilidade dificultada, em uma cadeira de rodas, ou muletas. Se eu fizesse qualquer coisa desse tipo eu não estaria fazendo nada de novo. O que eu criaria de novidade, para imagens já tão batidas para logomarcas. A fisioterapia visa restabelecer os movimentos dos pacientes, então, eu precisava passar a ideia de movimento, e não de imobilidade. Fiz os traços de uma pessoa, da altura do abdômen para cima, sem rosto, os braços abertos como em um exercício... Félix pulou em meu colo, estava inquieto, queria mais carinho. No antigo Egito eles ajudaram a combater os ratos que infestavam a região, causando doenças e danificando plantações. Se tornou um ser sagrado, era tratado como membro da família, fazendo jus até aos mesmos ritos fúnebre que os humanos sendo embalsamados e sepultados. E ai de quem matasse um bichano! Era condenado à morte! E por falar nisso, há quem diga que eles podem sentir a morte de alguém se aproximar. Será que eu morreria em breve?

– O que foi, Félix? – perguntei ao alisar seu pelo da cabeça, correndo minha mão pelo pescoço e dorso. – Tenho quanto tempo de vida? – continuei, ele apenas me olhava, enigmático. Assustei-me ao ouvir batidas na porta. – É... acho que ela chegou... – murmurei ao me levantar para atender. O gato saltou de meu colo e me acompanhou.

– Posso entrar? – perguntou Cléber quando abri a porta. Cléber era jornalista, e em viagem a serviço, não estava em casa quando saí de lá. Era magro e careca, os olhos fundos, com olheiras escuras sob estes. Os cabelos que circundavam a cabeça eram grisalhos, mais puxados para o loiro acinzentado. Sempre bem vestido, usava um terno negro, assim como sua gravata, tinha por volta de 1,70m de altura. Encarei-o por alguns segundos e saí de sua frente, indicando o interior da casa com o braço estendido, sem nada dizer. Fechei-a logo após ele entrar e segui-o.

Caminhou pela sala escura, cuidadosamente, entre as caixas até alcançar a janela e depois de breve hesitação puxou as cortinas, deixando a luz do céu entrar.

– Quem te deu o direito de vir em minha casa e... – esbravejei com o dedo em riste.

– Cale a boca! Cale a boca! – gritou me interrompendo, também com o dedo ereto em minha direção. Estava transtornado, as lágrimas inundavam os olhos vermelhos, as veias saltavam de seu pescoço. Olha só no que você se transformou... em um mendigo! O que é isso? Um monte de caixa espalhada, escuridão... e essa barba por fazer?

– Você não pode... – tentei intervir, perturbado.

– Eu posso o que eu quiser! – vociferou batendo no peito. – Ouviu bem? Eu posso o que eu quiser... – murmurou. Félix começou a se trançar em minhas pernas. – Você está se comportando feito um moleque, só um moleque se comporta dessa forma. Ande, junte suas tralhas e vamos voltar para casa, sua mãe está te esperando... – disse caminhando e desviando o olhar.

– Ela não é minha mãe! – esbravejei e tampei os ouvidos. O gato se assustou e correu para um dos cômodos.

– É sua mãe! Ela é tão sua mãe como eu sou seu pai... – afirmou se aproximando. Afastei-me.

– Não seja ridículo, Cléber, vocês me compraram, como qualquer coisa... é isso que eu sou? Uma coisa?

– Você não sabe o que está falando, Márcio...

– É claro que eu sei! Ela não te contou? Eu ouvi minha m... a Martha conversando com aquela... Lúcia. Vocês pagaram por mim! Eu fui comprado! – resmunguei, batendo as mãos espalmadas no peito.

– Márcio, você se comporta feito um menino. Logo você que sempre foi um cara maduro à beça para sua idade, sempre precoce... Toda essa revolta lembra a pirraça de um garotinho. Talvez devêssemos ter contado isso a você nessa época...

– É evidente que sim! Vocês deveriam ter me contado antes. Será que é tão difícil perceber isso? – disse ao caminhar para a janela e fechar as cortinas.

– Erramos! Erramos, meu filho! Todos erram, mas não dá para consertar um erro com outro, entende? Martha achou que se você soubesse ia amar menos a ela. Eu não acreditava nisso, mas ela é minha mulher e a apoiei. – explicou se aproximando. Encarou-me, minhas lágrimas não tardariam.

– Vadia... – sussurrei e ele me esbofeteou, sem dúvidas.

– Limpe essa sua boca para falar da Martha, seu moleque! Respeite sua mãe! – vociferou, ameaçando dar outro tapa e eu não desviei o rosto. Ele se conteve e baixou a voz. – Nós te demos tudo que você precisava... e não estou falando de brinquedos e roupas, de algo material. Te demos amor e carinho, proteção, tudo que uma criança precisa para se desenvolver de forma saudável. Nós te demos tudo...

– Esqueceram-se da verdade... – retruquei. Peguei um cigarro na escrivaninha e acendi. Ele se aproximou e tomou o cigarro de minha mão, amassando e atirando ao chão.

 – Não acenda um negócio desses na minha frente... – censurou-me, eu apenas o olhei de volta. Ele suspirou e voltou a si.

Cléber era um cara bacana, acho que eu sentia mais raiva de Martha. Acredito que toda minha revolta era pelo tamanho da admiração que eu nutria por eles. Não conseguia os ver agora diferentes de traidores, mentirosos, embusteiros...

Depois de um longo silêncio, continuou seu discurso.

– Lúcia foi trabalhar em nossa casa com dezessete anos. Foi indicação de uma tia de Martha, a empregada dela tinha uma irmã que passava por dificuldades, e o emprego para sua sobrinha ia melhorar e muito a qualidade de vida da família. Ela era apenas uma menina...

Completaram-se dois anos de serviços prestados a nós, aliás, muito mais que uma empregada, ela tornou-se uma amiga, a relação entre nós três sempre foi muito cordial. Nessa época, depois de inúmeras tentativas, descobrimos que não podíamos ter filhos. Certo dia, Lúcia chegou em casa transtornada, chorava e falava coisas desconexas. Estava grávida... – explicava-me cuidadosamente. Comecei a chorar, desesperadamente, aos soluços, mas sem dizer uma palavra; cabisbaixo, evitava encará-lo naquela condição. Ele se aproximou.

– Seu namorado, ao saber, disse que o filho era de outro, e não dele. Agrediu-a e sumiu. Ela pretendia abortar, mas nós a impedimos, prometemos que daríamos conforto e segurança a ela, pelo tempo que precisasse. O tempo foi passando, fomos nos afeiçoando à criança que nem havia nascido, quando ela nos surpreendeu, dizendo que iria embora, não teria como criar aquela criança. Voltaria para casa de sua mãe, no interior, talvez fosse melhor para ela e o bebê. Sabíamos que não, a situação de sua família era de extrema pobreza. Foi então que surgiu a proposta... adotaríamos a criança, e em troca, daríamos para ela uma considerável quantia em dinheiro que podia garantir uma situação confortável para sua família. Você nasceu, e ficou sob seus cuidados até um ano e meio, quando decidimos que era hora de ela partir. A separação foi difícil para todo mundo, mas superamos. Vê? Nós nunca te negociamos feito uma mercadoria. As coisas foram acontecendo assim... – concluiu e apoiou a mão em meu ombro, suspirando. Suas lágrimas voltaram e ganharam seu rosto. Cléber fungava. Depois deu um tapinha em meu ombro, nos abraçamos e ficamos assim sabe-se lá por quanto tempo, chorando juntos.

– Eu te amo, meu filho... – disse ele segurando minha a cabeça e me olhando firmemente.

– Eu também te amo... – respondi. Cléber abraçou-me fortemente, depois me soltou, limpou as lágrimas e seguiu para a saída.

– Volte logo para casa, sua mãe chora todos os dias... – rogou, ao girar nos calcanhares, a meio caminho.

– Minha casa agora é aqui... pai... – expliquei. Cléber assentiu com a cabeça, contrariado, virou as costas e saiu.


Escuridão. Silêncio.


Silêncio...


Desta vez, mais forte e pungente.

11 de dezembro de 2013

[502] Reencontro

Recolho-me aos sonhos... Vejo o que os olhos não alcançam... Sinto o que a pele não percebe...

Fico feliz e em paz.


Sonhos são preciosidades: Não pertencem a ninguém além de nós mesmos.



Encontro-me em fase de realizações. Chega de passado! Transformá-lo em presente é o foco. Paolo está bem. Retomei a vida em meu ninho cinza e prossigo...

Recebi um e-mail resposta de uma empresa de Marketing e Comunicação:

“Íris Sinah, fiquei surpreso com seu contato através da empresa onde trabalho. Soube que viu publicada uma reportagem minha sobre a mobilização dos professores em uma revista para a qual trabalho faz anos.
Antes de qualquer aproximação virtual, preciso saber se é você a Íris que tanto preciso reencontrar. Que tal um encontro?
Aguardo, ansioso.
Daniel”

Marcado o encontro! Ansiosa, diante do espelho, vaidosa. Trocadas várias mudas de roupas, foi o vestido vermelho o escolhido. Insegurança normal para quem há mais de vinte anos não vê aquele que um dia foi o homem de sua vida.

Trancadas as janelas e portas, lá fui eu!


Uma cafeteria, 17 horas, dia quente, coração ardendo, mãos trêmulas, boca seca, olhos atentos. Diante de uma xícara de café, aguardava. Como seria? O que eu deveria fazer? Beijá-lo, abraçá-lo? Não sentiria vontade... a princípio, seria forçado.


Uma voz: “Íris Sinah?”. Virei-me e o vi ali, em pé, olhando-me como quem quer descobrir o passado, tirar-lhe o véu, escancará-lo.

- Olá. Sim, sou Íris. Íris Sinah. – Ofereceu-me sua mão e, automaticamente, segurei-a e me levantei.

- Esperou muito tempo? Sabe, né? Às vezes acontecem situações inesperadas bem na hora de sair, vida de jornalista é cheia de surpresas.

Sentamo-nos.

- Imagino.

- Mas surpresa maior do que revê-la não é como nenhuma outra. Você não imagina a emoção que sinto agora. Queria que você soubesse... – interrompi, não o deixei completar a frase.

- Não há do que se desculpar, não há do que se arrepender. Eu não me preocupo com o que foi. Sou o agora. E minha família sempre me falou a verdade e me ensinou a viver pela verdade.

- Minha filha. Posso chamá-la de minha filha? Afinal... – novamente não permiti que concluísse sua ideia.

- Sempre. Apesar de tê-lo visto apenas quando criança, o tempo que vivemos foi intenso e feliz. A separação foi inevitável. Acontece. - Sorri. – Na verdade é o que mais acontece. Quando a gente está muito feliz, uma reviravolta traz um pouquinho de tristeza... Mas tudo passa, o tempo ajuda.

- Vô Samuel, né? Ele dizia isso e você aprendeu direitinho.

- Minha família era preciosa. Hoje sinto-me órfã do brilho e do valor, das joias raras que perdi em vida, mas é preciso continuar...

- Que bom que me procurou. Logo que sua mãe foi embora e se casou...

- Não se justifique. Estou aqui e agora. Fale-me um pouco de você.

[...]

Daniel Posteur, jornalista de uma empresa de comunicação, famoso, casado, pai de dois filhos adolescentes. Eu, filha encantada com suas histórias, sem traumas e neuroses.                                                        
                                                     Feliz por encontrá-lo!

Foram muitos cafés e horas, nem percebemos que já se passavam das dez da noite e precisávamos voltar a real.

Levou-me até em casa. Não subiu. Também não o convidei. Já sabia onde e como me encontrar. 

Claro que nos veríamos outras muitas vezes. Ao me despedir senti vontade de abraçá-lo. Mas nem precisei tomar a iniciativa. Assim que o carro parou diante do prédio, ele me puxou e me deu o abraço mais forte e verdadeiro que há tempos não recebia. Beijou-me a testa e disse que me ligaria. 

Voltei à menina que um dia fui. Despojei-me da carcaça criada pelos últimos anos, desprotegi-me, entreguei-me ao acalanto e me permiti ser feliz.

Não, não era um sonho! Era um reencontro fantástico!

Entrei no edifício, no meu recanto, embriagada de tanta alegria. O corredor parecia comprido, bem mais do que realmente é. E eu, caminhando levemente pelo piso frio, na passarela, em curso direcionado para o sucesso. 


Ouvi uma música vinda de um dos apartamentos. Parei e fiquei ali por um tempo degustando as palavras melodiosamente cantadas pela Simone: 

Então é Natal, e o que você fez? O ano termina, e nasce outra vez. Então é Natal... Do velho e do novo, do amor como um todo. Então bom Natal, e um ano novo também. Que seja feliz quem souber o que é o bem...”.

Sim, pensei. É Natal. E quem disse que a mágica dos sinos de Belém não existe?




21 de novembro de 2013

[205] Episódio 1: A verdade vos libertará

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Gosto de café forte. A receita é muito simples: duas colheres de sopa bem cheias de pó, para uma xícara de água, e duas colheres de açúcar. Eu sempre faço a quantidade exata para ser consumida na hora, não gosto do sabor oxidado que o café ganha ao descansar na garrafa, nem do sabor queimado das cafeteiras.

Fervo a água – já misturada com açúcar – e passo o café diretamente na xícara. Escolho o melhor produto, tem um monte de marca barata por aí em que o café é moído com milho e gravetos. O sabor é horrível. E o café não é barato porque a empresa é boazinha, o produto foi muito mal produzido e o povo, em sua maioria com renda baixa, vai consumir, evidentemente, o mais barato. Essas firmas devem estar ganhando rios de dinheiro.

Percebem como há sempre um interesse por trás de tudo? Sempre há.

Acabei de pintar a sala, era o último cômodo a ser reparado. Ainda tenho muitas coisas fora do lugar, apesar de não ter tantos móveis assim. Há várias caixas com livros e revistas espalhadas, aprecio bastante a leitura, e gosto de colecionar os volumes. O apartamento é muito bom, é amplo, arejado, exatamente como a moça da imobiliária disse há uns cinco dias.

– O senhor vai gostar, o apartamento é amplo, arejado, realmente muito bom... O senhor tem mulher, filhos? – perguntou ao me oferecer as chaves.

– E o que você tem a ver com isso? – respondi de pronto ao pegá-las.

– Err... me perdoe... – desculpou-se encabulada.

Levantei-me e saí da loja, mas ao cruzar a soleira da porta, ouvi som de risinhos lá dentro e voltei.

– Qual é o motivo do riso?

– Desculpe... não estamos rindo do senhor... – respondeu uma funcionária no fundo da sala. – Foi um mal entendido, só isso. - concluiu. Seu olhar era irônico, suas desculpas não eram sinceras.

– Eu vou dizer o que é mal entendido. - exclamei com o dedo em riste. – Mal entendido... é vocês quererem saber da minha vida e debocharem de mim. Eu não tenho que dar satisfações sobre nada pra ninguém, muito menos pra vocês! Eu posso processá-las e, eu tenho certeza, que o seu patrão vai colocá-las na rua antes que o processo termine... – concluí e tornei a sair. Dessa vez não houve risinhos.

Hoje em dia as pessoas se interessam cada vez mais pela vida alheia. Tem gente que chega ao cúmulo de vasculhar o lixo dos vizinhos... Isso é realmente o cúmulo! Idiotas! Quem elas pensam que são para ficar rindo de mim daquele jeito? Nunca gostei de deboche. Talvez seja por causa disso que eu nunca tive muitos amigos, nem muitas namoradas. Para falar a verdade, eu acho que eu não tenho amigo algum. Nunca consegui trabalhar em firmas, e acabei me tornando design gráfico. Trabalho tranquilamente na solidão de meu quarto e c’est fini.

Aos treze eu tive uma crise nervosa na escola, cheguei a ser hospitalizado por algumas horas. Os caras mais populares da turma estavam me sacaneando – o que chamam hoje por bullying – e eu não sabia como reagir. Joguei minha mesa pro alto e fiz menção de ir na direção deles para agredi-los, mas desmaiei antes de alcançá-los. Continuei a ser a chacota da escola, o cara estranho que não parecia achar lugar no corpo em que Deus lhe encarnou, o sujeito retraído sem poder de reação. Mas o clonazepam que passei a fazer uso depois desse episódio e as consultas com o psicólogo, me tornaram insensível a esse tipo de coisa, e a mais um monte de coisa por aí.

Eu tive diversas crises nervosas depois disso, a última foi há cerca de duas semanas. Tempos atrás eu avistei minha mãe conversando com uma ex-empregada em um dos supermercados da cidade. Elas não me viram. A expressão das duas não era das melhores, minha mãe estava apreensiva, parecia não querer ser vista com a... Luzia... acho que era Luzia o nome dela. Eu a vi em outras ocasiões perto do meu prédio, acredito que morava ali próximo. Sempre foi muito cordial comigo.

Mas naquela quinta-feira, eu voltava do psicólogo – devia ser por volta das 17 horas – e entrava pela porta de serviço, que dá direto para a lavanderia do apartamento. Eu ia por a mão na maçaneta, mas ouvi uma discussão e parei...

– Lúcia, eu não vou te dar mais dinheiro, chega!

– Você é quem sabe. Eu sei tudo sobre o garoto, será muito simples abrir seus olhos...

– Você não se atreva... - ameaçou minha mãe, com um tom de voz cada vez mais inflamado.

– E porque não? É um direito dele! - argumentou a ex-empregada. Falava ironicamente, muito diferente do que eu a conhecia.

– Direito dele, ou não, isso é um assunto que cabe somente à nossa família! – retrucou, abaixando a voz repentinamente, chegando quase a sussurrar.

– Família... você é patética. Uma família montada em cima de uma mentira!

– Cale a boca! Era para você ter sumido, foi para isso que te pagamos!

– Ora, eu me arrependi...

– Depois de 23 anos? A única coisa que você quer é dinheiro, sempre foi por dinheiro...

– E quem não quer dinheiro?

– Nos deixe em paz... – disse minha mãe, sua voz se distanciou um pouco, depois tornou a se aproximar. – Tome isso. Acha que é suficiente desta vez para sumir para sempre de nossas vidas?

– Talvez seja, é muito dinheiro... mas sempre será pouco para pagar a ausência de um filho...

– O Márcio é meu filho!

– Ele não é seu filho e você sabe muito bem disso!

Abri a porta rapidamente, eu não podia ouvir mais... As duas assustaram-se, não souberam como reagir assim como eu aos meus 13 anos.

– Meu filho, eu posso explicar!

– Que história é essa? - perguntei transtornado.

– Adeus, Martha... boa sorte, garoto... – murmurou Lúcia ao cruzar comigo na entrada.

– O que essa mulher está dizendo...

– Fica calmo... – disse a senhora já com lágrimas nos olhos.

– Como vou ficar calmo? Como eu posso ficar calmo? Me explica essa história agora, porque eu não posso esperar mais... eu... eu...

– Meu filho, eu quero dizer que eu e seu pai te amamos muito...

– Chega dessa conversa fiada e esses sentimentalismos, não é hora disso! – gritei, gesticulando e ela chorou ainda mais. – Olha, eu não sou burro e ouvi muito bem o que ela disse... seja sincera uma só vez na vida! - esbravejei. – Isso é verdade, eu não sou teu filho?

– Márcio...

– Fala!

– Meu filho... eu...

– Fala logo!

– Não! Não! Não é... - respondeu ela aos gritos, enterrando o rosto nas mãos e desabando em lágrimas, desesperadamente. Eu teria pena dela se não tivesse tanta raiva.

Ficamos em silêncio por um breve momento, chorando. Eu não sabia o que dizer, não sabia o que pensar. Por segundos toda a minha vida passou diante de meus olhos, todos os momentos que vivi com meus pais, diversas situações... aniversários... festas... tudo uma grande...

– Mentira! Tudo uma grande mentira é o que é a minha vida! – esbravejei a plenos pulmões.

– Meu filho... apenas este detalhe, este fato... o resto, tudo é verdadeiro... nossos sentimentos, nosso amor...

– Cale a boca, sua vadia! - gritei dando um soco na mesa. – Vamos por tudo em ordem agora, somos dois adultos conversando... – disse tentando me recompor. Aquela mulher que eu jurava conhecer parecia que ia morrer de tanto sofrimento, mas eu já não me importava mais. – Para começo de conversa, não me chame de filho, afinal, eu nunca fui...

– Para! Para com isso, por favor, eu estou sofrendo demais!

– Está vendo é esse o problema! Nunca foi por mim, nem pelo Cléber, nem por aquela cadela que me vendeu... foi apenas por você. Tudo para realizar esse desejo de ser mãe... Dane-se o enjeitado e todo o mundo!

– Não foi assim... – balbuciou.

– Mas é claro que foi! Mas olhe, vocês estão de parabéns... – disse batendo palmas ironicamente – me enganaram direitinho... Eu sempre estranhei o fato de não haver uma foto sequer de sua gravidez, de não me parecer fisicamente com nenhum dos dois, de não ter o mesmo sangue... mas nunca... nunca pensei nisso...

– Não era para ser assim, meu filho! – tentou argumentar vindo em minha direção.

– Não me chame de filho! – gritei segurando fortemente em seus pulsos e impulsionando-a de volta. – Quantos sabiam? Mas que pergunta idiota, todos sabiam...

– Não, Márcio... apenas alguns da família...

­– Para com isso, cara! Você é burra? Um segredo bem guardado está apenas com você. Todos sabiam, menos o idiota aqui. Agora entendo os olhares, o jeito estranho que as pessoas falavam comigo... Merda! Merda! Deviam dizer: “Olhem só, lá vai o enjeitadinho...”

– Meu filho, fique calmo, nós te amamos... isso é só... é só uma fase... – tentava me persuadir aquela velha senhora de olhos vermelhos de tanto chorar.

– Para Martha, que você só se complica... – retruquei, limpando meu nariz com as costas da mão. Virei-me e segui para a saída.

– Não me chame assim... – pediu aos prantos enquanto eu abria a porta.

– Esse não é o seu nome? É assim que eu vou te chamar agora... – respondi enquanto caminhava pelo corredor. A velha caminhava atrás.

– Espere aí! Aonde você vai? – perguntou ao apressar o passo para me acompanhar.

– Sei lá... pra qualquer lugar longe da minha vida. Vou esfriar a cabeça...

– Espera meu filho, você está muito nervoso, não faça uma besteira...

– Eu não sou imbecil o suficiente...

– Espere! Vamos conversar!

– Eu não tenho mais nada para conversar com você... – respondi enquanto a porta do elevador se fechava.

Fiquei dois dias fora de casa. O suficiente para encontrar este apartamento amplo, arejado e realmente muito bom neste edifício cinza como a minha vida. E o aluguel nem é tão caro, dá para pagar perfeitamente bem com o meu trabalho.

Lembram o que eu falei sobre os cafés? Há sempre um interesse por trás de tudo, sejam com os cafés, com a TV, ou com as pessoas. Há sempre uma outra intenção, um outro motivo. Desconfie sempre. O mundo está se tornando uma caixinha insuportável cheia de gente cada vez mais individualista e egocêntrica. Nem mesmo o filho da mãe do Félix – um gato preto de olhos tão amarelos quanto misteriosos – está aqui porque me ama, mas sim por conveniência, porque há comida, um lugar quentinho para dormir e um humano para lhe fazer carinho de vez em quando. Mas pelo menos ele não reclama dos meus cigarros.

Aliás, gosto de cigarros...

15 de novembro de 2013

[502] Desabafo




Dez a quinze minutos para organizar a turma e começar a aula. Quando não mais para controlar o uso dos aparelhos eletrônicos espalhados pela sala.
Metalinguagem: silêncio pelo silêncio.
_ Ih! Caralho! – solta um lá no fundo.
Todos riem e a confusão recomeça.
_ Quê?
_ Foi mal, professora. Tô guardando já.
_ Desliga.
_ Já disse que tô acabando.
_ DES – LI – GA...
Silêncio.
A hora da verdade. Quem fez e quem não fez a atividade... Alguns, poucos, já se encontram com todo material em cima da mesa e o dever pronto para autocorreção. Uma grande maioria ainda nem pegou nada, isso se estiverem com eles ali na mochila ou no armário.
_ Vou passar pra ver.
_ Posso beber água?
_ Eu pedi primeiro.
_ Não, esperem acabar a aula. Vocês acabaram de chegar do intervalo!
Começam as desculpas... “Não fiz, tá na semana de testes e não tá dando tempo de fazer dever não.”, “Esqueci o livro na casa do meu pai e eu tava na casa da minha mãe.”, “Ah, copiei a página errada.”, “Só você dá dever todo dia!”. E por aí vai.
Desisto.
_ Ok. Dessa vez passa, mas vão copiar as respostas na autocorreção. Aqueles que não fizeram e os que não trouxeram o material.
_ Posso sentar com ela pra acompanhar?
_ Não. Vou colocar as respostas no quadro, não disse? - Já se sabe que muitas vezes não se traz ou se diz que não se traz o material para poder sentar com o amigo. - Quem teve dúvida me diz que eu explico de novo, tá?
_ Não entendi nada desse texto.
_ Te ajudo.
_ Vou ao banheiro.
_ Espera, se eu deixar você, tenho de deixar todo mundo.
_ Porra, mas eu preciso.
_ Quê?
_ Desculpa.
Enquanto isso, um na carteira da fileira da direita dorme. O outro, bem no meio da sala, vira o corpo e fica de costas para mim e, em altos papos com os colegas, gargalha e pega o celular. Um grupinho do fundo, aos risos, comenta sobre o que nem quero saber naquele momento...
Irritação.
Metalinguagem novamente: silêncio pelo silêncio.
Todos percebem e ficam quietos.
Toca o sinal...
_ Já acabou a aula...
_ Eu sei.
Saio com um sentimento de dever não cumprido. Saem todos atrás de mim, sem respeitar o inspetor que se encontra na porta, aguardando a chegada do novo professor.
Dirigindo-me à sala onde daria a próxima aula, encontro vários alunos no corredor.
Dez, quinze minutos para organizar...
Dessa vez a missão foi interrompida por uma confusão entre alguns alunos que brigavam por algo que não sei bem o quê.
Interfiro. Tento acalmá-los, mas a voz dos alunos está mais alta do que a minha. Tento a metalinguagem. Nada. Falo mais alto:
_ METALINGUAGEM... – alguns completam em uníssono: “O SILÊNCIO PELO SILÊNCIO.”, e, aos poucos, as coisas vão se acertando.
É dia de dar a nota dos trabalhos. Os alunos que não apresentaram poderiam trazer em outro dia, valendo metade dos pontos.  Um encrenca. Desrespeitou o prazo, faz uma malcriação infantil. Relevo. Diz que faria e me mandaria por e-mail.


_ Tudo bem. Mas vai valer a metade dos pontos em respeito aos amigos que cumpriram os prazos.
De forma agressiva, começou a criar confusão. Chegou a afirmar que mandaria a mãe enviar o trabalho para coordenação e que eu seria OBRIGADA (com tal intensidade que me tirou do sério) a dar a nota, senão eu que me demitisse.
Respirei fundo. Uma aluna se pronunciou:
_ Não estou ouvindo isso...
_ Está sim, disse, mas vamos resolver esse problema depois.
O aluno não parou e, fazendo com que seus colegas entrassem no jogo, continuou com a ameaça.
Peço que se cale. A turma já se desorganizara e ficara dividida, uns contra e outros a favor do coitado.
Falo firme, exijo silêncio, dessa vez sem permitir interrupções. Reafirmei a combinação já estabelecida.
Bate o sinal. Não precisam me avisar que a aula acabou e que já está na hora. Quem sai sem dizer nada sou eu.
No coração, um vazio. Um sentimento de frustração e impotência diante de tamanha falta de respeito e de educação.


Professor... Quem é o professor? Há um tempo eu saberia responder. Hoje... Hoje, não sei não...

8 de novembro de 2013

[403] Episódio 13: Assim é a vida!

Lá se foram muitos dias em que Mirella havia se enterrado junto ao seu passado.

Seu mundinho passara a convergir para seu apartamento onde as paredes desbotavam em cores pálidas condizentes com suas emoções. Precisava repensar aquelas paredes agora que teria mais tempo para estar com elas, talvez seria uma boa ideia repintá-las.

Sim, tempo. 

Mirella estava desempregada!

Foi um choque quando, ao voltar a trabalhar, encontrou sobre sua mesa a carta de demissão onde pode ler friamente a notícia de que seus trabalhos não seriam mais necessários à empresa.

Perdera o pai e o emprego em uma tacada só.

Precisaria de tempo.

E agora uma nova carta: do síndico, cobrando o aluguel atrasado.

Tantos acontecimentos em torno de seu prédio e em sua vida!

Sua vizinha, a menina meio doidinha, que sumira por um tempo estava presa (Que delito essa pequena deveria ter cometido?) O apartamento seria ocupado por um novo morador.

A mulher que conhecera no metrô alugara um apartamento no prédio. Menos mal, teria com quem conversar. Íris parecia ser uma pessoa bem legal. 

Soube da confusão que envolveu os meninos do terceiro andar. Coisas de gente preconceituosa.

D. Lêda , pelo que ouviu dizer, bateu a cabeça e está hospitalizada. E Seu Célio então, esse, acho que mumificou!

O cara esquisitão que gosta de fuxicar lixo enclausurou-se no apartamento. Parece que anda deprimido.

Está tudo sombrio naquele aglomerado de blocos de concreto... Mirella se arrepiou: imaginou a cena de um cemitério com seus jazigos empilhados uns sobre os outros.

Estremeceu o corpo e sacudiu seus pensamentos. 

Que mais poderia lhe acontecer? Ah, claro: a tal carta!

Nada incomodava mais Mirella do que ser cobrada por suas responsabilidades!

Nunca fora com a cara do síndico e agora menos ainda, pois nem bem atrasara seu aluguel e o mesmo já a constrangera com uma cobrança no mural do prédio. Poderia processá-lo por assédio moral mas do jeito que sua vida andava em revés seria melhor não mexer em vespeiro.
                                      
Abriu, mais uma vez, a página dos classificados. 

Seu futuro a esperava no labirinto de letras cheias de significados que não lhe traziam nenhum significante. 

De repente, nas páginas em preto e branco, um anúncio colorido de qualquer coisa chamou-lhe a atenção, não pelo produto em si mas pelo que dizia:





Foi então que Mirella sentiu uma brisa mansa dentro de seu peito, fechou os olhos com suavidade e uma lágrima lhe escapou.

Assim é a vida, pensou.

4 de novembro de 2013

[201] Sexto Episódio: Religação

 
 ambiente escuro do quarto feito de oratório era adentrado pela luz amarelada dos postes que, mutilando-se no desenho miúdo da cortina de renda, projetava nas paredes e no corpo ajoelhado um intercalar disforme de luz e escuridão, a batalha cósmica entre algum tipo insondável de Sumo Bem e seu oposto. Hermínia me vinha à mente agora não mais em forma de desejo, mas como um arrependimento. Em tom solene, minha voz pronunciava firmemente o Ato de Contrição, meu espírito curvava-se para receber a remissão dos meus pecados:

– Senhor Jesus Cristo,
Deus e homem verdadeiro,
Criador e Redentor meu,
por serdes Vós Quem sois...

Há duas quadras do edifício, um corpo ensanguentado grunhia entre o líquido escuro que vazava dos sacos de lixo. Do lado da cabeça de cabelos ralos e dourados, uma bolsa sem carteira e celular. Antipenúltima... penúltima... última respiração.

– ...sumamente bom
e digno de ser amado
sobre todas as coisas,
e porque Vos amo e estimo...

Ao leste, o homem abria o zíper de sua calça enquanto uma mulher de meia idade se abaixava com algum esforço à sua frente, tentando movimentar-se dentro de um vestido preto, caricaturalmente apertado, que lhe estrangulava.

– ...pesa-me, Senhor,
de todo o meu coração,
de Vos ter ofendido;
pesa-me também
por perdido o céu
e merecido o inferno...

Em uma das ruelas em que ligam à avenida central, um bastão improvisado com madeira de móveis achada no lixo movia-se rapidamente e acertava a cabeça de um morador de rua, que dormia enrolado em pedaços de papelão. Dois homens corpulentos corriam com um sorriso de satisfação em seus rostos.

– ...e proponho firmemente,
ajudado com o auxílio
da vossa divina graça,
emendar-me
e nunca mais vos tornar a ofender...

A guria abordava um carro parado no sinal perto da praça de São Marcos, brilhava como uma estrela triste no meio da madrugada da Cidade em seu vestido de paetê que lhe deixava o corpo bonito, com suas coxas compridas à mostra. A guria tinha outra guria para cuidar. Entrava nos carros a trabalho, cobrava ‘vinte pratas’.
                       
– ...e espero alcançar o perdão
das minhas culpas,
pela vossa infinita misericórdia.
Amém.




Em um ou outro canto da Cidade, todos se sentiam como vítimas potenciais de uma dinâmica humana que lhes fugira do domínio e ia se personificando cada vez mais claramente no grande e complexo corpo de cimento, de metal, de rodas de borracha e de gente sem rosto. As lutas particulares são as mais diversas e aparecem na forma de algum tipo de violência. Contudo, em milhares daqueles cubículos dos prédios residenciais era travada uma luta menos aparente contra a solidão. Balela para alguns, eu entendo, mas algo cujo resultado para outros é capaz de os definir como santos ou condenados. Por quanto tempo consegue-se ficar puro? O mal é como um veneno que vai pela articulação do cotidiano; uma vez que já foi absorvido e faz parte de seu funcionamento, não é visto mais como mal, é apenas coisa da vida.

2 de novembro de 2013

[502] Não há dia para sentir saudade



Hoje, ao acordar, procurei um florista. Escolhi as flores do campo mais lindas e fui ao mar. Precisava abraçar minhas saudades. Conversar com meu Deus para acolhê-las e acalmar meu coração. Imagino que esteja sentindo o mesmo.

Não gosto desses rótulos de dias disso ou daquilo, principalmente de quando mexem comigo e me fazem tristes como agora. Mas fui criada assim: dia de mãe, pai, avó, da criança... dias e dias que me traziam ou me levavam presentes... e o dia dos mortos.

Finados! Este, quando criança, era um horror! Minha vó Eloah não me deixava ouvir música alta, me fazia ir ao cemitério levar flores pra gente que eu nem conheci... Acabei absorvendo essa cultura ingrata, que hoje não valorizo, mas tenho em ranço, na alma encrustada.



E aqui estou eu, morrendo de vontade de chorar de saudade. Contra tudo que penso, porque penso que a morte é renascer. Mas esse renascer, agora, dói... Mesmo tendo crença na reencarnação, sabendo que quem amo está vivendo ainda, fico, de maneira bem egoísta, querendo que eles estivessem comigo ainda aqui.

Dia da saudade! Ora! Que dia que nada... Não há dia para a saudade... Sentimos saudades do que foi e dos que foram todo dia... Porém o que fazemos é embuti-la na rotina, guardando-a em um canto escuro do coração para aliviar aquele sentimentozinho de dor que, mesmo não querendo, fica evidente no instante em que ela, sobrevivente ainda, rompe as barreiras musculares e cerebrais e aparece no corre-corre da vida da gente.

Mesmo sabendo disso, o meu lado racional nessa hora se coloca em segundo plano e deixa emergir uma emoção quase doentia de dentro da alma... será que me entende?

Sinto que é necessária a saudade para que o esquecimento se vá. Este sim é perverso. Só se deve esquecer o que nos trouxe (ou traz) mágoas e ressentimentos, fazendo com que o perdoar seja uma dádiva (e que difícil isso, viu!).




Que neste dia possamos, Paolo, meu pai querido, viver intensamente nossas saudades em alegria extrema de querer bem!