26 de outubro de 2013

[502] De volta ao Brasil

Um vazio... Isso. Uma sensação de total abandono.

Solidão ceciliana. Desejo oswaldiano de transformação e ruptura com um passado ilusório e idealizado. Uma antropofagia educacional necessária à catarse dessa angústia que toma conta de tamanha desolação. Alma saudosa da família que se foi. Corpo cansado de tantas caminhadas sem rumo, aspirações rompidas por várias decepções.

E tudo que pensei encontrar bem, parecia-me pior do que quando fui. Um nada aconteceu diante de todas as reivindicações de minha classe. Penso que a sociedade não merece os profissionais sérios que tem. Aqueles que lutam por condições melhores de trabalho, exigem o mínimo necessário, um resultado mais eficaz de suas ações em sala de aula.

Nós, professores, brigamos por recursos básicos e essenciais a uma educação de excelência: conforto, segurança, material didático-pedagógico de qualidade que atenda à diversificação das atividades e ao desenvolvimento de uma tecnologia educativa eficiente. Consequentemente, deixamos claro o real motivo de nossa luta: uma ação efetiva do que determinam as leis educacionais e que fica restrito a uma elite que paga por um serviço que deveria ser obrigação do governo. Educação para todos. Frase mote de um discurso demagógico e repetitivo. Frase hipócrita que não engana mais nem mesmo aos menos favorecidos.

Para os professores, planos de atualização, reciclagens constantes com orientação segura, estudos voltados para o aprimoramento de habilidades e competências que venham engrandecer o pensar e o fazer pedagógico, incentivando os alunos a busca de novas oportunidades, propiciando-lhes informações e conhecimentos para se tornarem protagonistas de suas próprias aprendizagens.

Amigos descrentes voltaram às suas turmas insatisfeitos, revoltados com a violência que sofreram, com a passividade do governo e a revolta da população – acreditem! – essa se volta contra nós e, nós, apenas pedimos o que nos é direito... Essa nos coloca numa posição de vândalos, irresponsáveis que perderam um ano e atrasaram seus filhos, sobrinhos e netos. Como se o atraso real fosse esse.

A sujeira do apartamento fechado há meses não está pior do que a imundície social que encontro aqui. Massacres e manifestações perdidas, badernas desconexas com os desejos de quem repugna a covardia, o embate corporal, o desrespeito. Um dane-se geral. Mortes e mais mortes. Por todos os lados gente que chora suas frustrações, gente que brinca com o sofrimento dos outros, gente que ri de felicidades clandestinas.

Desolação policarpeana, entretanto crença condoreira de que a mudança vem com o incômodo e com a exposição daqueles que põem suas caras à tapa. Diante de tudo, a necessidade de colocar em dia as minhas obrigações, assumir as minhas funções. Afinal acabou a greve, voltamos ao trabalho, mas não deixamos de querer, aspirar, pensar em um fazer acontecer. Como é difícil recomeçar assim!

Em meio a essa turbulência, uma tristeza, uma saudade da criança que fui e que deixei em Portugal nos braços de Paolo que chora a minha falta. A ausência de minha mãe, de meu vô, de minha vó tornam-nos órfãos com um vácuo no corações cansados.

Portugal... Eu não poderia ficar com Paolo naquele lugar que me traz tantas lembranças e me sufoca, a ponto de me trazer de volta a asma que um dia tive... Gastrite... Pânico... Uma vontade de voltar ao ovo e me permitir ficar no casulo cinza de meu ap. Um afastamento, uma alienação, um comportamento de refugiada, escondida de tudo e de todos, tão necessário nesse momento de reestruturação.

Quem um dia teve tantos amores, hoje se encontra perdidamente desligada da vida. Nada me restou a não ser esse padrasto que não quis abandonar o barco e ficar à deriva como eu. Paolo se entrega às lembranças e, novo ainda, não segue sua vida. Sozinho, ainda sobrevive da memória, castelos de areia, recordações de uma família que construiu e que se foi nas rajadas das últimas tempestades que destroçaram sua alma e seus anseios.

Tanto Paolo como eu precisamos desse luto, encontrar forças para sair dessa condição de vítimas e recriar situações de conforto e de alegrias novamente. Penso ajudá-lo, mesmo distante, e procurar meu pai biológico, Daniel, de quem quase nada sei, a não ser sua profissão de jornalista atuante, amante da verdade e da divulgação de verdades, levando aos seus leitores e ouvintes informação real como forma de escolhas, é agora a minha meta.

Na claridade vinda da rua, encolhida em meu canto, choro, choro muito até esgotar a dor e transformá-la em vontade de viver.

Assim como o prédio, cinza está minha vida, meu sentir, minhas expectativas em relação ao futuro. Mas sei que depois dessa amargura, o sol vai me trazer a solução e a esperança. Jargão? Eu sei. Mas afinal para que servem as expressões clichês senão para ressaltar nostalgias, além da desvalorização linguística, assumidamente responsável por uma clientela de reprodutores de ideologias aprendidas nos bancos acadêmicos. É contra isso que luto todos os dias, apesar de remar contra marés de tormentos nas escolas que vivem de clientes, que querem saber do que pagam para receberem conhecimento como mercadorias adquiridas em bancas de mercadinhos e feiras.

Conversava com um amigo e ele me criticava quanto a minha forma de encarar a vida sem vida, sem soluções, reclamava de minha amargura e me fazia repensar quase tudo. Isso, um pouco antes de meu retorno a Portugal. Tentei me defender, mas eram indefensáveis todos os seus argumentos. Eu me encontrava em uma zona de conforto tal, conduziam-me o marasmo e a acomodação diante das coisas, isso me deixavam sem respostas para o que só dependia de mim.

E onde estava aquela Íris que fui um dia? A Íris alegre, aquela que acreditava em conseguir ser o que queria, que saiu de sua casa e se entregou às buscas de mais alegrias? A filha cigana da cigana Shakira que exalava vida por onde passava, a neta da judia Eloah que me fazia ser admiradora da poesia, fazia-me crítica e responsável pelos meu atos, autônoma o suficiente para ser o que sou hoje. Meu vô Samuel que me tornou essa eterna contadora de histórias e mulher das palavras rebeldes, das palavras fortes, sedutoramente necessárias a quem precisa aprender a se defender desde cedo de gentes e situações manipuladoras.

Da janela vejo pessoas entrando e saindo do edifício. Quem seriam essas pessoas? Vivemos em um mesmo lugar, separados por paredes e andares de concreto e não sabemos mais do que o som de seus bons dias, boas tardes e boas noites, educados, de quem mal se olha e se vê, mesmo ocupando quase o mesmo espaço.

Bebo água, escuto um latido de cão, o elevador que sobe e desce. Um silêncio prolongado parece compartilhar desse meu dia de lágrimas e recordações. Banho! Isso! Um banho seria capaz de me fazer sentir a vida através da água quente que lavaria esse mofo mórbido azevediano. Respiro profundamente e reajo diante da vida que se apresenta no reflexo da janela. Vou sobreviver – risos –, afinal, fui educada por vencedores e vou saber vencer como eles.

A herança? Ah! A herança que fui buscar? Que herança que nada... A maior de todas trouxe comigo: a pessoa que sou, minhas crenças, meus valores, minha garra de fazer e transformar... Algumas roupas, poucas, algumas obras de arte da vovó, uma pequena parcela de dinheiro que se encontrava na poupança já em meu nome.

A Íris que aprendeu a ser humana e humanitária, fraterna, solidária, guerreira... Enfrentou a barra e foi a Portugal. Reviveu uma vida e matou muitas outras que permaneciam intactas dentro da alma. A Íris que sente na pele a perda e engasga com a saudade... A Íris que com certeza amanhã estará bem. Acordará inteira, caminhará pelas redondezas, continuará a arrumar de seu jeitinho aquele recanto de acolhimento seguro do ser que se faz presente nas pequenas coisas, nas pequenas conquistas, que se encontra aberta a novos conhecimentos, a uma nova vida.

 A chácara e a marcenaria, a terra dos meus avós estão à venda. Por enquanto Paolo está por ali... Mesmo na cidade, trabalhando na padaria do seu amigo, sei que zelará pelo Recanto das Garças. Esperemos pelo o que há por vir. 

Enquanto eclodem os problemas lá fora, fico, eu e Paulinho da Viola, reestruturando-me para um novo amanhã....

http://www.youtube.com/watch?v=o5qYIh1BBLI





25 de outubro de 2013

[205] Episódio Piloto: O reencontro

 
Acendi um cigarro de filtro amarelo e dei uma tragada profunda. Limpei as lágrimas restantes que me embaçavam as vistas e segui para a casa de Cátia, uma ex-namorada, uma das poucas que tive. Nosso relacionamento até que era bacana, falávamos com certa frequência pelas redes sociais. Eu gostava de estar com ela, me sentia querido, seguro, como em poucas situações eu pude me sentir. E eu precisava dela agora. Bati à porta do sobrado em que ela morava, num bairro próximo ao centro. Ela me recebeu com surpresa.

– Márcio? – surpreendeu-se ao abrir. Era uma mulata de 1,65m, mais ou menos, seios pequenos – muito pequenos – e coxas grossas e bunda arredondada. Os cabelos eram espessos e encaracolados, de cachos bem definidos pelo uso de cosméticos, os olhos, profundamente negros (que intimidavam), e um sorriso debochado em lábios finos e curtos.

– Sou adotado... – respondi cabisbaixo, evitando encarar seu olhar. Embora nos falássemos frequentemente, não nos víamos pessoalmente há quase um ano. Dizer minha condição foi a única coisa que pensei na hora, quando eu podia ter dito qualquer outra: “Posso passar a noite aqui?”, “Não me convida a entrar?”, “Oi! Que saudades...”.

– Como é que é? – indagou estupefata.

– Posso te contar tudo, se me deixar entrar. Está acompanhada? – perguntei, finalmente encarando-a. Meus olhos marejavam novamente.

– Claro, claro, entre logo. – respondeu franqueando a passagem para que eu entrasse. – Não, eu não estou com ninguém aqui... você sabe disso.

– Sei do quê? Eu descobri que sei muito pouca coisa... – disse ao parar no meio da sala e correr o olhar. – É... as coisas não mudaram muito por aqui...

– Não estou namorando. – murmurou ao se aproximar ternamente. – Você podia ter vindo há mais tempo...

– Foi você que me mandou embora, esqueceu? A minha ideia era não voltar mais aqui... – retruquei, ignorando a parte sobre seu relacionamento, quando fui interrompido.

– Mas voltou. Saudades?

– Senti... muitas... mas não foi por isso que vim aqui. Saí de casa...

– Quer dizer então que... o que você disse mesmo? Adotado? – perguntou franzindo o cenho.

– Você não sabia? – perguntei sentando ao sofá.

– É claro que não! – respondeu de pronto, mas não acreditei muito em sua sinceridade. Não sou muito de acreditar nas coisas e confesso que devo ser uma pessoa muito difícil de conviver. Foi isso que ela me disse quando me deixou. “Você é muito difícil de conviver... desconfiado, ciumento, encrenca por pouca coisa”, “É muito difícil para mim, poxa, eu gosto de você... mas não dá mais”. Mas eu sempre achei que havia outro cara nessa história.

– Fiquei sabendo hoje. Há uma hora e meia, mais ou menos... – disse friamente. Cátia sentou ao meu lado, com uma perna passada por baixo da outra, alisando meus cabelos.

– Caramba... que chato... Como é que foi isso? – perguntou. O cheiro de seu perfume começava a me excitar.

– Vou te contar... mas não agora. Estou precisando de um lugar para morar...

– Quer morar comigo? – indagou sorridente.

– Depois de um ano afastado? Será? – respondi sorrindo e cruzei os braços.

– Só depende de você...

– Nem estamos juntos...

– Isso também só depende de você... – disse e me beijou. Correspondi a seus beijos, um tanto contrariado, a princípio, não era isso que eu queria. Mas me era conveniente e continuei. Foi tudo muito rápido, meio animalesco, coisa de instinto. Em meia hora já tínhamos gozado, abraçados e ofegantes no sofá.

– Você tem bagulho aí? – perguntei enquanto arfava o ar, olhando para o infinito.

– Você tinha que estragar tudo, não é? – esbravejou ao levantar-se irritada.

– Eu deixei tudo na minha... digo... casa da minha... quero dizer, da Martha, e estou sem dinheiro aqui... – tentei me explicar, completamente atordoado.

– Eu já parei com isso faz tempo. Você não disse que ia parar, que tudo ia mudar e coisa e tal? – disse gesticulando de forma debochada, enquanto vestia a camiseta e a calcinha.

– Porra! Você acha que isso é fácil? Olhe minha vida como está. Me diz, como é que eu vou parar? – balbuciei me esticando para pegar o maço de cigarros na minha calça, próxima ao sofá. Bati a carteira e acendi um.

– E eu não parei? Isso é questão de força de vontade. Se você quer, você consegue... – disse ao sentar-se ao meu lado.

– Não é bem assim e você sabe muito bem disso. Agora chega de me dar esporro, porque eu não vim aqui para isso... – reclamei e dei uma longa tragada.

– Veio para trepar e fumar um bagulho...

– Tem como você dar um tempo? Você já disse o que queria, eu já sei, tenho que parar de me drogar, prometi e não cumpri, você me largou por causa disso e porque tinha outro...

– Eu não estava te chifrando, se é o que quer saber, seu filho da puta... – disse afundando o rosto entre as mãos, visivelmente chateada.

– É... minha mãe é uma puta mesmo... aliás, as duas... – desabafei e levantei-me, ainda pelado. Deixei-a sem graça.

– Err... me perdoe Marcinho... eu não... – desculpou-se, constrangida.

– Eu sei, você não queria me ofender. Eu não sou tão estúpido assim... – afirmei, ao dar outra tragada. – Você não tem um cinzeiro?

– Eu não fumo mais, Márcio. – disse ela se aproximando. – Não vai me contar o que aconteceu?

– Ainda não. – respondi secamente. Fui até à janela e joguei a binga fora. – Preciso passar a noite aqui, não tenho para onde ir... É só por hoje... Você me ajuda a encontrar alguma coisa para alugar?

– É claro que ajudo! Por mim, você fica quanto tempo quiser... – disse e me abraçou. Talvez ela fosse realmente apaixonada por mim, eu é que era um babaca mesmo, cheio de problemas. Nem eu gostava de estar junto comigo. Sendo assim, quem gostaria? Podia ser o caso de ela estar sentindo pena de mim. Odeio que sintam pena de mim. Sinto-me ridículo, vulnerável, humilhado... E mulher tem dessas coisas, possivelmente seja o espírito materno, a necessidade de cuidar de alguém frágil.

– Obrigado... – agradeci, entre os dentes e uma lágrima escorreu, sendo colhida rapidamente pelo indicador de Cátia.

– Vamos comer alguma coisa? Já está ficando um pouco tarde... – convidou carinhosamente, a fim de me distrair de meus problemas. Comemos lasanha, daquelas que vendem congeladas, aquela era uma das melhores marcas.

– O padrão melhorou, hein? – comentei com bom humor ao dar uma garfada.

– Estou trabalhando na casa de um bacana. Conhece? O Dr. Lobosco, aquele advogado... – perguntou afastando a comida para o canto da boca.

– O polêmico Dr. Bernardo Lobosco?

– Ele mesmo... – respondeu, o olhar parecia esperar minha reação, mas continuou. – E você? O que anda fazendo?

– Aquele mesmo serviço de design, ilustrações, logomarcas... dá para tirar um bom trocado. E não tenho ninguém para me dar ordens, o que é mais importante.

– Você não muda nunca...

– Mudar causa desconforto. Mudar para quê?

– E por falar nisso, vou buscar o notebook... – disse Cátia ao se levantar, mastigando, para pegar o computador. Abriu-o sobre a mesa e ligou.

– Caramba... esse cara paga bem mesmo. A geração mais moderna, wi-fi... – comentei com admiração pela sua prosperidade.

– O Dr. Lobosco vive na mídia pelos casos que ele pega, pelos artifícios que ele usa, mas não tem muito apego com dinheiro. É pródigo, gasta com o que pode e o que não pode, vive a esbanjar... – explicou com a boca cheia.

– Quando ele for mudar a logo do escritório, me avisa, está bem? – adverti sorrindo. Só a Cátia mesmo para me fazer isso.

– Olha aqui... achei um apartamento lá no centro, parece bacana para você: dois quartos, sala, cozinha, banheiro... – disse virando o aparelho para que eu pudesse ver melhor. – Até que é bonitinho. Veja, tem até a foto externa do prédio...

– Cinza demais, você não achou? – observei, depositando o talher no prato e afastando-o para frente.

– E o que não é cinza demais nessa cidade? – disse abocanhando a última garfada. – Não quer me contar mesmo sobre o que aconteceu? Vai ser bom para você... – persuadia-me ela.

– Você é curiosa, hein? – debochei com um esgar de sorriso, tentando disfarçar minha inquietude. Baixei o olhar, suspirei e continuei. – Não quer fazer um cafezinho para a gente?

20 de outubro de 2013

[403] Episódio 12: Acertando as Contas...

A IMPOSSÍVEL PARTIDA

(Vinícius de Moraes)

Rio de Janeiro , 1935

Como poder-te penetrar, ó noite erma, se os meus olhos cegaram nas luzes da cidade
E se o sangue que corre no meu corpo ficou branco ao contato da carne indesejada?...
Como poder viver misteriosamente os teus recônditos sentidos
Se os meus sentidos foram murchando como vão murchando as rosas colhidas
E se a minha inquietação iria temer a tua eloquência silenciosa?...
Eu sonhei!... Sonhei cidades desaparecidas nos desertos pálidos
Sonhei civilizações mortas na contemplação imutável
Os rios mortos... as sombras mortas... as vozes mortas...
...o homem parado, envolto em branco sobre a areia branca e a quietude na face...
Como poder rasgar, noite, o véu constelado do teu mistério
Se a minha tez é branca e se no meu coração não mais existem os nervos calmos
Que sustentavam os braços dos Incas horas inteiras no êxtase da tua visão?...
Eu sonhei!... Sonhei mundos passando como pássaros
Luzes voando ao vento como folhas
Nuvens como vagas afogando luas adolescentes...
Sons... o último suspiro dos condenados vagando em busca de vida...
O frêmito lúgubre dos corpos penados girando no espaço...
Imagens... a cor verde dos perfumes se desmanchando na essência das coisas...
As virgens das auroras dançando suspensas nas gazes da bruma
Soprando de manso na boca vermelha dos astros...
Como poder abrir no teu seio, oh noite erma, o pórtico sagrado do Grande Templo
Se eu estou preso ao passado como a criança ao colo materno
E se é preciso adormecer na lembrança boa antes que as mãos desconhecidas me arrebatem?...
Mirella fechou o livro de poesias. 

Em sua passagem pela cidade que crescera resgatara alguns pertences, entre eles, seus livros da adolescência.  Após sua chegada em casa, desarrumando a mala, Vinícius saltara-lhe aos olhos.

Abriu na página acima e identificou-se com o que leu.Seria coincidência? 

Estava cansada... deixaria para o dia seguinte seu acerto de contas com a vida...

9 de outubro de 2013

[201] Quinto Episódio: Mãos

"E, se sua mão direita te leva a pecar, corte-a e lance-a fora. 
É melhor perder uma parte do seu corpo do que ir ele todo para o inferno.”

Mt 5, 30

s encontros com Hermínia tornaram-se frequentes. Havia entre nós uma espécie de contrato tácito e eu sabia, sem necessidade de nenhuma verbalização, que eu poderia encontrá-la sempre sentada à mesma mesa onde nos conhecemos, nas noites de domingo. Ela sempre estava lá, no meio daquele emaranhado de ruas minguadas, envolta na névoa rala que emanava de muitas bocas e segura entre o tiroteio de olhares que se lançam a cada minuto. Era como um exemplar de boa adaptação àquele ambiente, sempre segura, leve e precisa. 
               – Otávio – sempre falava meu nome entre um sorriso que zombar dos meus receios ao encontrá-la sob essas circunstâncias – Já pedi seu vinho. Estava certa de que nos encontraríamos hoje.
         
           Nosso contato havia se tornado um misto de prazer e incômodo. Na sua parte boa, eu podia apreciar Hermínia, olhá-la bem de perto enquanto seus olhos estavam ocupados demais em dar conta de toda movimentação ao nosso redor. Na parte ruim, sentia que não lhe tinha mais o que falar; já tinha esgotado algumas histórias divertidas do seminário e o ofício de um clérigo, convenhamos, não costuma despertar um interesse mais proeminente nesses tipos mais urbanos. Em silêncio consumia-se a maior parte do tempo que compartilhávamos.
               – Veja só, Otávio. Há algumas semanas, quando nos conhecemos, estávamos os dois fantasiados, lembra-se?
              – Lembro-me de sua fantasia; eu, porém, vim do jeito que aqui estou.
              – Não seja hipócrita. Ou você é mesmo daqueles que se propõe a fazer contanto que nunca se fale sobre o que foi feito? Esperava mais de você...
               
           Senti minha face ficar corada e duas gotas de suor me escorreram uma por cada lado do rosto. Engoli a seco. Não sabia que esta mulher tinha também o poder de me fazer sentir como um menino com quem a mãe ralha ao descobrir-lhe um segredo travesso.
             – Se quer ouvir da minha boca que hoje é a primeira vez que venho te ver sem estar usando clesma, está dito – tomei coragem e longos goles de vinho – E fica dito também que a retirei por sentir no meu pescoço o incômodo de uma coleira. E, de brinde, ainda me livro daqueles que me olhavam como uma pessoa exótica. Desapontei-a? A graça de minha companhia estava justamente nisso?
             – Oh, tão poucas vezes conversamos e este seu tom de drama já me incomoda. Mas, se é inseguro a este ponto, saiba que ainda o aprecio. Talvez até mais. E, de fato, aquilo parece mesmo uma coleira. Não lhe falei antes para não influenciar a uma retirada precoce.

     Algumas horas depois estávamos na pequena sala do meu apartamento. O vinho me fazia despreocupado com qualquer possível conseqüência de tê-la levado para um pernoite, mas ela – e assim nunca lhe tinha visto – encolhia-se na poltrona enquanto eu providenciava que meu pequeno oratório lhe servisse de quarto para dormir. 
               – Um padre que traz uma mulher pro seu apartamento e é amigo de um casal gay... – e tomava um certo cuidado pra falar baixo.
                – Casal gay, Hermínia?
                – Sim, não conhece os dois rapazes que vieram no elevador? Pois então.
               –  Na verdade, conheço um só. Encontrei-o na capela um dia, ele ainda não se vira muito bem na Cidade. Ajudei-o a voltar pra cá. Mas não duvido que sejam gays, duvido que sejam um casal. Aquele mais robusto tinha um olhar muito frio, sabe?
                – Sim, percebi. Foi uma subida de elevador das mais tensas – e dirigia-se ao oratório, sinalizando que já se ia deitar – Um padre e uma mulher, um rapaz e outro rapaz, todos se olhando de soslaio, todos secretamente julgando. Isso me dá sono. Boa noite.




          Deitei-me com um sentimento de decepção. Não fui capaz de rezar, sequer fui capaz de dormir antes de algumas horas em que a imagem de Hermínia insistia em se projetar sobre minha imaginação. Já devia ser quase manhã quando ouvi um barulho de porta batendo e resolvi verificar. Ela havia deixado o apartamento. Em cima da cama improvisada, um bilhete:
               

                “Otávio,
                não pude dormir direito com esse homem pendurado sangrando e tive a sensação de aquele que segura o próprio coração estava olhando pra mim.”



                Senti raiva. Tê-la em meu apartamento daquele modo era o mesmo que não tê-la. E por mais que eu não pudesse admitir nem mesmo pra mim, tudo que eu desejei aquela noite foi tocá-la. A raiva era a erupção desse desejo tão intenso. Enquanto minha mão esquerda amassava o maldito bilhete e a cabeça imaginava cada milímetro do corpo feminino muito branco e o tato em cada pelo seu, a mão direita me saciava o desejo febril em movimentos fortes que me faziam suar.

                Tive então a sensação de que agora todas as imagens do oratório olhavam pra mim e sentia-me profundamente envergonhado. A mesma mão que ergueria a hóstia algumas horas adiante estava suja, meu corpo jazia patético. No verso do bilhete amassado, descobri o telefone de Hermínia. No fim, a noite de fato mudara tudo: dali em diante, nada mais poderia ser imputado ao acaso, tudo dependeria de um ato inegavelmente volitivo.

26 de setembro de 2013

[304] quando o café não resolve


Não adianta. Por mais que você tenha uma rotina de merda, seu domingo sempre conseguirá ser pior. Domingo não apresenta opções para escapar. Você não tem a opção de sair e fazer compras porque a maioria das lojas legais se encontra fechada. Não tem como ligar o rádio sem escutar samba e sertanejo. Não há canais para escolher. Ou Faustão ou Rodrigo Faro, já que até o Gugu se suicidou dos domingos.

Foi num desses domingos de ócio que, lendo o jornal do dia anterior, encontrei uma chance de ouro. Um ilustrador brasileiro naturalizado inglês estava oferecendo vagas para um curso em sua agência, acompanhado de trampo remunerado. Foi ali que me enxerguei com 30 anos, desenhando não mais numa cafeteria, mas em um estúdio conceituado.

Lançaria uma graphic novel que contava a história de um personagem egocêntrico e metido a besta, mas que deixaria tudo de lado para viver com uma mina que, posteriormente, arrasaria a vida dele. Autobiográfico? Imagina...

Assinaria uma linha de latas para uma fábrica de chocolates gourmet. Camisetas, canecas, posters. Faria exposições conceituais que ninguém saberia explicar as relações entre as ilustras, mas pagariam uma nota para ver (e não poder tirar fotos). Seria convidado para programas de debate e comportamento na televisão, mesmo que eu não tenha nada a ver com o tema do programa do dia. No fim, sorteariam algumas coisas da minha linha entre os que usarem a hashtag com o nome do programa em redes sociais.
Mas antes mesmo disso tudo começar, já havia sido deixado à beira da estrada. Esse destino filho da puta.
Tava bastante ansioso e ainda me arrumam de atrasar o vôo. Tique taque. Tique taque. Peguei um exemplar gratuito de Palavras Cruzadas na sala de espera. Cidade do Egito com grandes pirâmides com 4 letras. Problema urbano relacionado a carros com 16 letras. Tique. Nicolau Maquiavel, autor do livro O Príncipe, com 2 letras. Taque. Café, preciso de café. Forte, por favor. Tique. Não resolve.

Parti pro banheiro, era proibido fazer isso em ambiente fechado, eu sei, mas precisava fumar uma. Sentei em uma das privadas, tranquei a porta. Isqueiro vermelho. Fogo. Aos poucos, ficava mais calmo. Obrigado. Podia ouvir a canção do Marcelo D2 que fazia trilha sonora interromper para dar voz à senhorita da voz sensual me alertando pro meu vôo.

Saí correndo, um pouco desesperado. Coloquei os óculos escuros para passar pela revista. Não podia parecer nesse estado pros policiais. Foi!

A sorte acabava na Inglaterra, porém. O avião pousou no aeroporto em Londres. Peguei minhas malas e, uma nova passagem pelo detector de metais (que achava ser somente para metais) era necessária para a entrada no saguão principal.

O detector apitou. Retirei os óculos, o celular e algumas moedas que estavam no bolso da calça. O policial pediu para eu tirar o cinto também. Segurando as calças com a mão, arrisquei uma nova passagem. Bip-bip. Me pediram para ir para próximo da parede e usaram um detector portátil que apitou ao ser passado em meu peito. O policial retirou um pedaço do cigarro que não tinha sido queimado até a última ponta.

Deportado. Nada de ilustrações, nada de linha de produtos, nada de grana, nada de sucesso.

Não podia correr o risco dos meus pais saberem que tudo deu errado para mim novamente. Já não bastava os sermões por ter sido abandonado por aquela mina. Desesperado, liguei pro Sujeira. Ele riu da minha cara, mas me ajudou.

Me colocou no apartamento dele por uns dias, até que consegui esse apartamento. Fiquei com medo de seguir as instruções dos classificados novamente, mas não queria morar com um cara que não tinha esse apelido a toa.

Um apartamento num edifício cinza, um sofá preto e uma das malas que não foram confiscadas na viagem. Era tudo que havia me restado.

FOTOS: (1) (2)

24 de setembro de 2013

[502] Em Portugal

Em Portugal



A alegria do reencontro, a nostalgia nas lembranças renascidas em cada canto da chácara, nos objetos - todos mantidos nos mesmos lugares -, nos cheiros adocicados das fronhas e dos lençóis, na paisagem vista da janela da sala onde vô Samuca ficava vislumbrando os colibris que vinham dançar, enquanto bebiam a água das flores de plástico penduradas na varanda. Tudo palpável aos olhos, resgatado pelos sentidos apurados da saudade.

O lado prático e real do inventário ficava relegado a segundo plano. Eu não queria saber de papéis, documentos mortos de vidas tão vivas ainda dentro de mim. Paolo, me observava sem palavras. Nada era mais acolhedor e carinhoso que aquele pai sentado na cadeira envelhecida, rangendo no ir e vir do balanço, ouvindo meus suspiros e ais de tristeza diante de tantas reminiscências. Uma mistura de Casimiro de Abreu e Drummond nos poemas sobre infância, abordados com uma mistura de inocência e realidade que me deixam com água na boca.

O telefone quebra o silêncio. Senhor José Manoel, advogado da família. Hora de uma verdade já esquecida: bens. Quem dera fossem mensagens além-Terra com notícias dos meus amores. Ri de mim mesma com tamanha bobagem.

- Sim, amanhã, as 10. Íris já está aqui faz três dias a esperar por tua ligação.

- Pai, diga ao senhor Manoel que resolva tudo o mais rápido possível, preciso voltar ao Brasil.

Saímos. Caminhamos em direção aos fundos da casa onde o poço, ainda ativo, pendurado o balde velho amarrado à corda, empretecidos pelo mofo, abandonados pelo tempo e pelo descuido. Ali, as flores coloriam as encostas e a horta de vó Eloah era motivo de, juntas, brincarmos entre os tomilhos, salsas, manjericões, alecrins... Ali aprendi o sabor das ervas e o amor à terra e ao trabalho doméstico, simples, diário.

Sentei-me ao seu lado no banco perto da grade do antigo galinheiro e, abraçados, choramos a ausência. Paolo, envelhecido, precisava de apoio, de companhia... O que eu faria para ajudá-lo? Difícil, abandoná-lo à sorte, deixá-lo sozinho naquele lugar quando tudo fosse resolvido.

- Pai, já pensou o que vai fazer quando eu voltar? Não quero vender a marcenaria nem a chácara, o senhor precisa de trabalho e de um canto para morar já que não pensa em deixar Portugal.

- Filha, se me deixares uma pequena morada, mesmo distante do campo, eu me arranjo. Não nesta casa. Podemos comprar algo mais simples, mais perto do comércio. Trabalhei na padaria de João. Lembra-te dele? Amigo do teu Wlad... – Percebeu meu espanto. – Perdoe-me, pequena, não deveria falar deste contigo, quanto mais neste momento de tantas emoções para ti.

- Não tem problema. Wladimir e eu nunca mais nos vimos desde a última separação. Foi um tempo difícil. Eu precisava estudar, queria crescer e virar mundo e ele só pensava na boemia e nas alegrias ciganas da estrada. Mas como está João? Me lembro dele quando estávamos ainda na escola, éramos tão crianças!

- Vida simples, querida. Assumiu a padaria do pai e casou-se. Tem dois pequenos. Dois e seis anos. Poderíamos fazer-lhes uma visita. O que acha?

- Como quiser. Amanhã depois da reunião do inventário, está bem pra você?

- Sim, estar contigo e te levar a passear sempre estará bem para mim...

Silenciamo-nos diante do descompasso de Paolo. Ele sabia que a minha volta ao Brasil seria uma separação inevitável porque me estabeleceria de vez aqui e ficaríamos separados, não para sempre, mas bem distantes por um tempo de não-sei-quando.

- Seria bom que você viesse comigo.

- Não daria certo morar perto de uma família que me desteta e me renegou ao casar com tua mãe.

- Sei lá, acho que Eva já o perdoou.

- Eva... Saudade de quando eu era pequeno e ela a cuidar de mim com tanto carinho. A diferença de idade a tornou um pouco minha mãe. Fiquei a chorar durante toda a cerimônia do casamento...

- Pai, por que não tenta um contato com ela. Telefona...

- Quem sabe um dia... Quem sabe um dia... – Saiu andando em direção à marcenaria.

[...]

Chegada a hora de resolvermos os problemas burocráticos de uma vida inteira de pessoas que tanto amei. Os bens materiais eram importantes, claro, hipocrisia dizer o contrário. Mas, no entanto, a situação óbvia da quebra de aliança entre mim e Paolo estava sendo prevista naquele instante em que o envelope se abria e o advogado lia o que já sabíamos. O que não havíamos pensado antes era na dor que sentiríamos depois que cada um fosse para seu lado e, se não nos víssemos mais, a eterna sensação do onde-quando-como, um do outro, o vazio do querer estar e o afastamento do não poder.

Terminada a reunião, a autorização da venda da chácara e da marcenaria. Os outros terrenos ao redor da chácara resolvemos deixar para depois. Não havia necessidade de vender tudo. Se Paolo não se acostumasse na cidadela onde João mora, poderia voltar e construir ali uma casinha para ele. Paolo é homem simples de campo... A cidade pode assustá-lo. A arte de trabalhar a madeira, fazer balanços, escorregas, cavalinhos, era herança da convivência com meu vô. Pouco tempo, mas suficiente para aprender a ser.

Chegando a casa, Paolo emudecido, cabisbaixo... Eu o abracei e, carinhosamente, comecei a beijá-lo e a rodá-lo pela sala. Brincamos. Eram cócegas e gargalhadas, corríamos pela sala como crianças até cairmos cansados no sofá. Um momento de alegria para espantar a certeza da separação breve, mas o fortalecimento de uma relação saudável que nos fazia família, uma família de dois, uma família que cabia num sofá, mas uma família.

A visita à casa de João ficara para depois.

Tempo de espera. Um tempo curto para organizar as coisas e reorganizar as ideias. Meu mundo se desfazia aos poucos para se reerguer em outras bandas. Logo estarei de volta. Meu apartamento simples no Edifício Cinza, minha escola, meus alunos, os amigos que me esperam, meus poemas...  minha marca em um lugar só meu.

5 de setembro de 2013

[502] Episódio Sete: Retornar ao ponto de partida? Necessário!




Naquele acorda-não acorda    
Um eu em mim declamava um poema.
Escutava-o, nítido.
A preguiça não me deixou acordar de vez
E a poesia, latente,
Ficou entranhada.
Tornou-se apenas minha.
Sinto-a tão viva!
Frustra-me a sensação de não poder compartilhá-la.
É o sentir poético do incomum,
O indizível da vida além vida,
O incontável mundo dos sonhos,
Um fazer poético egoísta.
Me desculpem aqueles que gostam da minha poesia,
Desta vez, nem eu mesma sei colocá-la em versos.
Intrínseca à alma, ela se guarda aqui,
Quieta, solene, minha,
Mas só pra mim.

Pensamentos em efusão. Envolvida, não ouvi os toques do celular. O número arquivado em chamadas perdidas: Paolo.

Meu padrasto querido. Foram seu jeito despreocupado e sua irresponsabilidade com a própria vida, motivos que me levaram ao afastamento, mas o amo muito.

Saudade? Curiosa... Retornei. Valeu a demora... O doce “Alô” do outro lado da linha, a voz mansa de Paolo, me deixou emocionada.

- Querida! Estou a te telefonar! O inventário dos bens da família de tua mãe está por sair e tu tens de estar aqui, minha menina.

- O quê? Impossível. Estou em greve na escola pública, mas dou aulas de projetos vestibulares. Trabalhando muito nessas oportunidades que me apareceram. Não há como sair do Brasil nesse momento. Quem sabe em janeiro.

- Mas só a minha menina pode resolver questões burocráticas. Shakira e Eloah não tinham outros dependentes, só Íris, e só Íris pode resolver tudo por aqui. A casa, a marcenaria, o dinheiro do banco. Eu vivo na casa e trabalho na marcenaria, mas tudo é teu! Não quero nada. O que há pode ajudar-te. Precisas te organizar, vender se quiseres, mas tens de vir para cá e receber o que é direito teu por herança.

Em instantes toda minha vida como um filme... Recordações, saudades. Ficamos um tempo conversando e, quando desliguei... Hora de resolver problemas!

Portugal me chamava...

Pedi a uma amiga que me substituísse nas aulas dos projetos e tomei as providências necessárias para embarcar o mais rápido possível para a minha terrinha...

Coração em ansiedade plena! Retornar ao recanto mágico da infância. O cheiro da vovó entranhado na casa e em tudo. Ela era a casa. O ecoar do assobio do vovô. Ele era a alegria da casa. A tristeza escondida, meiga e terna da minha mãe. Ela era a minha essência.

No baú que comprara em um brechó - junto a tantos outros objetos e móveis que venho organizando, limpando, pintando -, o lenço. A foto...


A vela era o início do presente preparado para o seu pai.

Na chácara, quando vô Samuel fez 65 anos, uma festa alegrou família, parentes e amigos. Muita música, comilança – meus avós sempre diziam que era melhor sobrar do que faltar e acabavam exagerando e fazendo tanta coisa que parecia que todos da cidade seriam convidados.

A dança cigana foi um dos resgates culturais que, quando jovem, influenciada por histórias sobre a vida cigana, contadas por Eloah que lhe dava força para não desistir nas primeiras dificuldades, minha mãe retomou.  

Após assoprar a vela, pandeiros, leques e flores tomaram conta do espaço. O colorido das rendas, dos bordados, das fitas presas às mãos. Xale nas costas, lenços na cintura...  Mãe Shakira, ao som de violões, violinos e acordeom, dançou como nunca! Ia de um lado a outro, encantava. Rodopiava. A saia rodada dançava com ela. As mãos e os braços em um “dar e receber”, palma da mão à mostra para os convidados. Os braços se abriam, como se abraçassem o mundo.  Era som e brilho, um espetáculo para o vô, homenagem a quem a fez uma mulher realizada.

Ficam a casa, os trabalhos, a reforma... Estou embarcando para acertos de vida passada e futura. Até breve.

4 de setembro de 2013

[403]Episódio 11: Passagem

Foi-se o tempo em que as coisas eram simples como um café feito no fogão a lenha... Simples e saborosas.

Existia uma arte na feitura do café, em seu preparo e até mesmo no saboreá-lo.

Coisas da roça.

Ao redor da lamparina a querosene, sentados  enrolando seus cigarros de palha, os matutos  esperavam pacientemente a lenha arder e queimar, fazendo a água entrar em ebulição para depois apreciar o  denso líquido preto escoar pelo coador de pano.  Suas canecas já preparadas eram postas abaixo do  mesmo e na hora do beberico, o aroma se misturava  ao sabor. A prosa era animada e circulava em torno  do dia de labuta no roçado. Tudo girava em torno do tempo. Um tempo certo. Medido. Pacientemente semeado e necessário. Um tempo pra tudo amadurecer.

Mirella voltava daqueles dias em sua terra natal cheia de reflexões.

Alguma coisa em seu íntimo mudara. Aquela sensação de estar em câmera lenta estava impregnada em sua alma. Apesar do considerável desenvolvimento da cidade, seus pais ainda cultivavam a mesma vidinha simples de outrora. O cenário bucólico de sua infância não fora destruído pelo progresso e isso a deixava feliz.  Durante sua estada, em meio a tanta simplicidade, desejou intensamente que sua vida assim o fosse também. Pelo menos naquele curto espaço de tempo em que ali se encontrava, isso seria real. Mas (sempre existe um “mas”) precisaria voltar para sua vida cosmopolita.

Já era noite e o ônibus parecia compactuar com seu estado de espírito. A viagem de volta que, em geral, é mais rápida, transformava-se numa longa e perpétua caminhada.

Suas reflexões a agitavam mentalmente e saber que enfrentaria o cotidiano com aquelas derradeiras palavras de seu pai, a consumiam internamente.


Sentiu um frisson, de novo aquela sensação de que borboletas revoavam em seu estômago.

Houve tempo para visitá-lo no hospital assim como houve tempo para sair de lá cheia de mágoas mal resolvidas. Estar com D. Miriane amolecera seu coração. A saudade somada ao acolhimento que só as mães sabem dar dissipara toda revolta sobre os acontecimentos de outrora. Com esse sentimento de perdão e peito aberto, convencida a apagar qualquer dúvida sobre as posturas rígidas e ofensivas sofridas, se encaminhou ao encontro com seu pai no Hospital.

Deitado sobre o leito frio de um hospital público, em condições precárias, estava o corpo debilitado de seu progenitor. Apesar de tudo, era seu pai e não podia deixá-lo ali. Faria um ajuste em suas economias. Decidiu por transferi-lo. Tomou algumas providências e transferiu-o para uma clínica particular onde poderia ser atendido com mais atenção e cuidados. Foi alertada de que o estado dele era delicado. Talvez não passasse daquela noite. Por uma inexplicável providência da vida, para aqueles que acreditam em coincidências, ele passou bem e obteve até uma melhora significativa. Sua melhora foi tão visível que houve tempo suficiente para que resmungasse e soltasse impropérios por estar naquele lugar rico que não poderia pagar. Ficou ainda mais furioso quando soube as custas de quem ali se instalara.

A vida em nada lhe mudara o caráter e o gênio.

D. Miriane tentava acomodar a situação mediando os sentimentos de ambos. Mirella já esboçava arrependimento. Não de tê-lo transferido, isso não, qualquer ser humano merece uma morte digna, dizia ela. Mas as atitudes rancorosas e egoístas de seu pai deixavam-na cada vez mais triste e todo aquele clima de perdão e amor que obtivera nos dias anteriores se dissolvera naquelas palavras rudes e ofensivas dirigidas a ela.

Em seu peito um peso enorme a oprimia. Sentimentos confusos de raiva e compaixão trocavam de lugar como brincadeira de roda. Em frangalhos saiu do quarto, desceu as escadas do andar e foi até a cantina da clínica para comprar cigarros...

Dirigiu-se à rua e sentou-se num banco em frente a entrada principal, num pequeno jardim que alegrava a arquitetura fria do local. Fumou aquele cigarro como se aliviasse sua fome de gritar e esbravejar. Levantou-se e caminhou um pouco pelo chão de pedrinhas chutando uma e outra até que, num rompante, soltou um grito de agonia caindo logo depois em compulsivo choro. Não percebeu o tempo passar. Recomposta, voltou e, ao chegar em frente à clínica, avistou sua mãe aflita andando de um lado para o outro, provavelmente a sua procura. Um frio arrepiou sua alma. Sabia o que iria encontrar na volta ao quarto.

No leito, seu pai descansava. Olhos cerrados com ar de quem dormia. Sua fisionomia retratava seus últimos sentimentos sofridos nesta encarnação.

Tocou-o nas mãos e sentiu sua pele enrudecida, ainda quente. Nada falou.

Enterrou seu pai e, resoluta, com ele, todo um passado de brigas e ódios.

Na rodoviária, beijou os olhos úmidos de sua mãe com promessas de um retorno em breve.

Sua história, na verdade, não podia ser enterrada assim, ela sabia disso. Ninguém consegue enterrar o passado. De alguma forma ele sempre retorna.

Os pesadelos podiam confirmar esta tese.

Ao chegar ao Edifício teve a sorte do elevador estar funcionando. Abriu a porta do apartamento e jogou-se no sofá, exausta. Seu cansaço era enorme mas não a impediu de perceber que mudanças sutis haviam ocorrido naquele prédio nos poucos dias em que estivera ausente...

2 de setembro de 2013

[101] Episódio Cinco: O velho foi, o velho será

































“A vida é cíclica” pensa o velho guerreiro. “A vida é cíclica pra quem vive, e pra quem já morreu?” pergunta o velho a seus ternos. Célio arrasta-se sem muita dificuldade, dá as costas ao armário, anda até a sala, com dificuldade agarra um disco de vinil, coloca na vitrola: “Cíclico e infinito, só Ravel” com esse pensamento Célio coloca para tocar...”

O velho se arrastou durante toda a primeira temporada. Seus passos, seus passos lentos, seus passos lentos em direção à vitrola. O soldado se arrastou para lá, e para cá, sem muito rumo, sem rumo algum; dançou, o velho dançou ao som do Bolero.

Como a lenta introdução dos instrumentos de sopro o velho caminhou por entre os cômodos, e por entre as cortinas se escondeu. O velho desceu alcançou a rua, fez suas idas matinais até a praça do bairro.

Foi visitar inúmeras vezes o seu não melhor amigo, o rapaz da padaria, o mesmo que insiste em lhe chamar pelo home errado.

Célio, o velho, chega à padaria: “Um sanduíche de mortadela”. “Um sanduíche de mortandela senhor Zélio”"Ahahaha". Célio Ri com gosto do atendente da padaria, que nunca consegue acerta-lhe o nome, nem do embutido, nem o seu. “Quantas vezes, jovem, terei de dizer que non é Zélio, o certo é Célio”. “ja” Célio “ja”.“Um dia acertarei de primeira senhor, acredite, um 
dia acertarei de primeira”

Mas o velho está perdendo, perdeu o sotaque alemão, finalmente; perdeu o medo da luta, e voltou pra rua para, como antigamente. E agora o que será do velho?

- Agora me vem tudo, todas as lembranças, memórias, e tudo mais que poderia não vir nunca, só não consigo achar o que preciso.



Lembranças parecem tomar conta do dia a dia do velho!