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4 de setembro de 2013

[403]Episódio 11: Passagem

Foi-se o tempo em que as coisas eram simples como um café feito no fogão a lenha... Simples e saborosas.

Existia uma arte na feitura do café, em seu preparo e até mesmo no saboreá-lo.

Coisas da roça.

Ao redor da lamparina a querosene, sentados  enrolando seus cigarros de palha, os matutos  esperavam pacientemente a lenha arder e queimar, fazendo a água entrar em ebulição para depois apreciar o  denso líquido preto escoar pelo coador de pano.  Suas canecas já preparadas eram postas abaixo do  mesmo e na hora do beberico, o aroma se misturava  ao sabor. A prosa era animada e circulava em torno  do dia de labuta no roçado. Tudo girava em torno do tempo. Um tempo certo. Medido. Pacientemente semeado e necessário. Um tempo pra tudo amadurecer.

Mirella voltava daqueles dias em sua terra natal cheia de reflexões.

Alguma coisa em seu íntimo mudara. Aquela sensação de estar em câmera lenta estava impregnada em sua alma. Apesar do considerável desenvolvimento da cidade, seus pais ainda cultivavam a mesma vidinha simples de outrora. O cenário bucólico de sua infância não fora destruído pelo progresso e isso a deixava feliz.  Durante sua estada, em meio a tanta simplicidade, desejou intensamente que sua vida assim o fosse também. Pelo menos naquele curto espaço de tempo em que ali se encontrava, isso seria real. Mas (sempre existe um “mas”) precisaria voltar para sua vida cosmopolita.

Já era noite e o ônibus parecia compactuar com seu estado de espírito. A viagem de volta que, em geral, é mais rápida, transformava-se numa longa e perpétua caminhada.

Suas reflexões a agitavam mentalmente e saber que enfrentaria o cotidiano com aquelas derradeiras palavras de seu pai, a consumiam internamente.


Sentiu um frisson, de novo aquela sensação de que borboletas revoavam em seu estômago.

Houve tempo para visitá-lo no hospital assim como houve tempo para sair de lá cheia de mágoas mal resolvidas. Estar com D. Miriane amolecera seu coração. A saudade somada ao acolhimento que só as mães sabem dar dissipara toda revolta sobre os acontecimentos de outrora. Com esse sentimento de perdão e peito aberto, convencida a apagar qualquer dúvida sobre as posturas rígidas e ofensivas sofridas, se encaminhou ao encontro com seu pai no Hospital.

Deitado sobre o leito frio de um hospital público, em condições precárias, estava o corpo debilitado de seu progenitor. Apesar de tudo, era seu pai e não podia deixá-lo ali. Faria um ajuste em suas economias. Decidiu por transferi-lo. Tomou algumas providências e transferiu-o para uma clínica particular onde poderia ser atendido com mais atenção e cuidados. Foi alertada de que o estado dele era delicado. Talvez não passasse daquela noite. Por uma inexplicável providência da vida, para aqueles que acreditam em coincidências, ele passou bem e obteve até uma melhora significativa. Sua melhora foi tão visível que houve tempo suficiente para que resmungasse e soltasse impropérios por estar naquele lugar rico que não poderia pagar. Ficou ainda mais furioso quando soube as custas de quem ali se instalara.

A vida em nada lhe mudara o caráter e o gênio.

D. Miriane tentava acomodar a situação mediando os sentimentos de ambos. Mirella já esboçava arrependimento. Não de tê-lo transferido, isso não, qualquer ser humano merece uma morte digna, dizia ela. Mas as atitudes rancorosas e egoístas de seu pai deixavam-na cada vez mais triste e todo aquele clima de perdão e amor que obtivera nos dias anteriores se dissolvera naquelas palavras rudes e ofensivas dirigidas a ela.

Em seu peito um peso enorme a oprimia. Sentimentos confusos de raiva e compaixão trocavam de lugar como brincadeira de roda. Em frangalhos saiu do quarto, desceu as escadas do andar e foi até a cantina da clínica para comprar cigarros...

Dirigiu-se à rua e sentou-se num banco em frente a entrada principal, num pequeno jardim que alegrava a arquitetura fria do local. Fumou aquele cigarro como se aliviasse sua fome de gritar e esbravejar. Levantou-se e caminhou um pouco pelo chão de pedrinhas chutando uma e outra até que, num rompante, soltou um grito de agonia caindo logo depois em compulsivo choro. Não percebeu o tempo passar. Recomposta, voltou e, ao chegar em frente à clínica, avistou sua mãe aflita andando de um lado para o outro, provavelmente a sua procura. Um frio arrepiou sua alma. Sabia o que iria encontrar na volta ao quarto.

No leito, seu pai descansava. Olhos cerrados com ar de quem dormia. Sua fisionomia retratava seus últimos sentimentos sofridos nesta encarnação.

Tocou-o nas mãos e sentiu sua pele enrudecida, ainda quente. Nada falou.

Enterrou seu pai e, resoluta, com ele, todo um passado de brigas e ódios.

Na rodoviária, beijou os olhos úmidos de sua mãe com promessas de um retorno em breve.

Sua história, na verdade, não podia ser enterrada assim, ela sabia disso. Ninguém consegue enterrar o passado. De alguma forma ele sempre retorna.

Os pesadelos podiam confirmar esta tese.

Ao chegar ao Edifício teve a sorte do elevador estar funcionando. Abriu a porta do apartamento e jogou-se no sofá, exausta. Seu cansaço era enorme mas não a impediu de perceber que mudanças sutis haviam ocorrido naquele prédio nos poucos dias em que estivera ausente...

31 de julho de 2013

[403] Episódio 10: A Viagem



O dia amanhecera cinzento como de costume.

Era ainda muito cedo quando Mirella fechou a porta de seu apartamento e desceu as escadas do prédio carregando sua mala e toda sua expectativa, indo em direção a um passado indecifrado.

Precisaria pegar o metrô até a Rodoviária. Faria sua viagem de ônibus, já que perdera seu carro por conta das dívidas que fizera em seu último relacionamento. Luis era um homem muito persuasivo.

Naquela hora da manhã, as estações mais pareciam formigueiros. As pessoas se acotovelavam e empurravam em busca de espaço. Acostumara-se a este inferno matinal desde que passara a fazer seu percurso para o trabalho usando o metrô.

 A tempo, Mirella chegou à rodoviária.

O ônibus seguia em velocidade permanente.  Mirella observava pela janela o caminho que, feito tapete vermelho em grandes estreias, se desenrolava diante de seus olhos. A faixa amarela que dividia a estrada avançava a cada quilometragem hipnotizando-a. O pensamento não acompanhava aquela movimentação e era mais rápido que a sua vontade. Impossível fazer aquela viagem sem reviver lembranças do passado, reminiscências que ela sabia o quanto feriam-na por dentro.

Lágrimas irreprimíveis escorriam pela face de Mirella. Estava sozinha naquela empreitada.

Queria paralisar seus pensamentos. 

Nessas horas, valeriam aqueles cursos de meditação que tanto procrastinara  Lembrou-se então do Frei, um rapaz tão jovem e tão cheio de sabedoria, que morava em seu prédio, e daquele encontro casual onde velas e fósforos foram motivo para longos papos.  Ele lhe falara de sentimentos e experiências que tocaram profundamente suas mágoas. O que ficou guardado no inconsciente de Mirella, agora, diante daquela viagem com promessas catárticas, parecia querer revelar-se.

Precisava relaxar.

Era um longo percurso e ainda tinha muito chão para rodar.

Conseguiu ler um pouco durante o dia. O ônibus faria uma única parada para o almoço e depois seguiria viagem noite adentro. Seria uma noite interminável para ela!

Acabou por adormecer.

Acordou várias vezes durante a noite por causa dos pesadelos. A última vez que tentou dormir, o céu aclareava em cores douradas e alaranjadas no horizonte.

O ônibus adentrou a cidadezinha logo ao amanhecer.

As ruas secas e empoeiradas já não existiam mais. Para surpresa de Mirella, havia no lugar da enlameada rua principal, paralelepípedos, calçadas e uma pequena alameda com arvorezinhas recheadas de flores amarelas e postes de luz de cimento, e não mais os de madeira podre que ameaçavam cair a qualquer momento. Definitivamente aquela não era a cidade que Mirella cresceu e para qual deu as costas. É bem verdade que alguns comércios ainda estavam intactos. Mas percebia-se o progresso alcançado e bem chegado àquela população. 

Houve um pequeno sopro de contentamento. 

Quem sabe até de esperança.

O ar estava diferente. Mirella estava diferente. Tudo estava diferente

Ninguém a esperava na rodoviária. 

Preferiu não deixar marcada data de chegada.

Conseguiu um táxi para chegar ao sítio onde seus pais moravam. Um lugarzinho simples e bucólico, afastado do centro, onde criavam galinhas, patos e cultivavam uma pequena horta no fundo do quintal. Desceu do táxi e não precisou de muito tempo para que as lembranças da infância renascessem em sua memória; o cheiro de cocô dos patos e das galinhas era inconfundível e, para ela, insuportável.

Sentiu ânsia de vômito.

Passado o primeiro impacto, foi logo entrando pela porta da frente que vivia aberta. Percebeu que, apesar do progresso ocorrido na cidade, o mesmo não acontecera ali. Tudo estava exatamente igual desde a última vez que olhou para aquelas paredes. Uma casa de tijolos aparentes, caiada e, apesar de pobre, extremamente bem cuidada. O cheirinho do café feito no coador de pano parecia diferenciado. Foi absorvida e abduzida pelo mesmo. Deixou a mala na sala e foi direto para a cozinha, onde avistou uma senhorinha mediana muito franzina, com um coque preso no alto da cabeça, uma das mãos segurando uma chaleira de alumínio que jorrava água fervente no coador de café apoiado sobre a pia. A outra mão segurava a cintura, formando uma asa em conformidade com o bule.

Mirella ficou por alguns segundos observando a cena, só despertando do transe quando ouviu um grito. Sua mãe, ao se virar, assustou-se com a presença dela e acabou por deixar cair o bule no chão, derramando o café.

Os olhares se cruzaram por segundos e Dona Miriane, sem saber ao certo como reagir, enxugou algumas gotas de lágrimas que escaparam de seus olhos limpando-os com as costas das mãos, tentando disfarçar a emoção. Baixando a cabeça mais por humildade que vergonha, logo pôs-se a pegar um pano para limpar o descuido. Mirella segurou a mão de sua mãe e, sem precisar dizer qualquer palavra, abraçou-a carinhosamente. Não imaginava o quanto ela havia envelhecido e o quanto aquela vida a maltratara. Apiedou-se e, mais do que esquecer um passado de rancores e palavras duras, brotou em seu coração um amor incondicional que, ali mesmo, naquela cidade, um dia, matara por questões mesquinhas e infantis.

Há muitos silêncios naquelas vidas...













"O tempo não só cura, mas também reconcilia.”(Mih Baldi)

22 de julho de 2013

[403] Episódio 9: A Filha Pródiga

"Ando cansada de muita coisa."

Pensava Mirella ao sentar-se em seu sofá, na sala, e deixar cair no chão uma carta. Acabara de desligar a TV onde os jornais anunciavam as confusões e vandalismos que vinham ocorrendo na Cidade.

Continuou em suas divagações.

"Quando me vi aqui, nesta Cidade, minha intenção sempre foi a de recomeçar.  Esquecer e recomeçar. Acreditava que depois de tantas andanças poderia esquecer meu passado e recuperar minha lucidez. Durante muito tempo vivi uma vida desgovernada. (Essa palavra vem bem a calhar neste momento). De que me adiantou essa constante preocupação em mudar de endereço se o passado, feito um parasita, me acompanha onde quer que esteja?

"Ando cansada do meu emprego, dos meus pensamentos, de mim mesma. Dessa forma de me governar; preciso protestar e gritar. Quem sabe fazer um quebra-quebra geral dos meus conceitos, regras, sei lá. 

"Que vida é essa que levo?

"Nada de amigos, de vida social. Vivo na tríade: Trabalho-casa-trabalho. Sempre imaginei que depois dos 40 anos estaria com minha vida estabilizada, um companheiro ao meu lado e usufruindo das facilidades que este tipo de vida proporcionaria. Quiçá um cartão de crédito pago!  E o que tenho? Dívidas, solidão, insônia e mais inquietações.

"Quem pode ser feliz assim? Pelo menos consegui me livrar do vício do cigarro.

"Caminhos bifurcados, escolhas erradas.

"Ando muito cansada de tudo."

Levantou-se e recuperou a carta que estava no chão. Fitou-a como se a lesse maquinalmente. 

Em plena era da informatização, Mirella recebia uma carta escrita à mão. Logo que a viu no escaninho das correspondências pode averiguar que se tratava de notícias de seu passado. 

Andando pela casa, sem rumo certo, releu a sentença: “Mirella, seu pai está morrendo. Em seus delírios chama por seu nome. Está confuso. Consegui seu endereço com o Bentinho. Ele veio por aqui visitando a família. Por favor, tente esquecer o que passou e venha ver seu pai. Não sei quanto tempo ainda ele fica vivo. Sua mãe.”

Ao acabar de ler aquelas palavras escritas em um papel tão chinfrim e com uma letra trêmula de quem se aventurava a escrevê-las, percebeu que estava no banheiro, em frente ao espelho. Apoiou as mãos na pia e fixou o olhar apertando os olhos como se quisesse se reconhecer.

O tempo, implacável tempo!

Onde estavam aquelas sardas que a deixavam com cara de menina apimentada? E os seios minúsculos que teimavam em brotar por baixo da camiseta? Onde achar o brilho daqueles olhos cheios de inocência e sorrisos cheios de graça e alegria?

Ficaram nas recordações de uma infância tranquila que não premeditava uma adolescência conturbada.

Sempre fora uma criança agitada, travessa, esperta e cheia de questionamentos. Seus pais, pessoas muito simples e de pouco estudo viviam sem respostas para suas perguntas, o que aumentava sua angústia em querer descobrir o mundo. Essa ânsia de saber crescia paralelamente a sua beleza física. Na adolescência, quando seu raciocínio era mais lúcido, se assim se pode afirmar, tudo piorou. Percebia que aquelas pessoas de sua cidade não lhe entendiam e não acompanhavam seus pensamentos. Não como ela imaginava. Vivia às turras com seus pais. Era filha única, o que piorava a situação. Tivera um irmão mais velho que morreu ainda jovem. Mirella era muito criança quando isso aconteceu e por isso não se lembrava do irmão, a não ser pelas poucas fotografias que existiam na casa. A morte dele estava envolta em mistérios que ela nunca conseguiu descobrir. Parecia que havia um pacto de silêncio entre seus pais e aquela cidade. Eles decidiram enterrar o assunto junto ao túmulo do filho de forma que nunca mais se ouviu falar nada. Mas Mirella, em sonhos, muitas vezes via seu irmão. Terrível como só ela era, exagerava, e dizia vê-lo pela casa andando feito zumbi. Quando comentava tal feito com os pais, os mesmos ficavam apavorados e queriam levá-la para a igreja para que o padre a exorcizasse. Mirella fugia e se escondia até que passasse a ira deles. Nestas horas, ela contava sempre com Bentinho, seu melhor amigo, que lhe dava cobertura. 

Passou então a esconder muitas coisas. Cresceu rodeada de gente preconceituosa e ignorante.

Mirella passou a viver em mundo paralelo.

Ao atingir a maioridade, compreendeu que não pertencia àquele lugar. Foi quando houve o escândalo que a fez deixar a cidade e cair no mundo.

Maldita carta!

Por que voltar? Foi renegada por seus pais! Ela fazia questão de enterrá-los assim como os mesmos fizeram com a morte de seu irmão! Sequer lembrava mais deles. Na verdade, esforçava-se para esquecê-los. Se não fossem pelos sonhos - ou seriam pesadelos?! E agora esta carta que a chamava para uma volta ao passado...

Definitivamente: a vida é cíclica!

Muitas vezes se faz necessário dar um passo para trás para que se possa seguir em frente! Quem sabe indo de encontro ao seu passado ela poderá encontrar respostas para seu futuro?

Quem sabe?

De alguma forma será bom sair um pouco da balbúrdia em que sua vida e a vida da cidade se encontram nesse momento.

Encorajou-se e foi tirar a mala que estava na parte superior do armário.

Espanou a poeira e começou a se preparar para a viagem.

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A Parábola do Filho Pródigo  
"Disse Jesus: Um homem tinha dois filhos. O mais moço disse a seu pai: Meu pai, dá-me a parte do patrimônio que me toca. O pai então repartiu entre eles os haveres. Poucos dias depois ajuntando tudo o que lhe pertencia, partiu o filho mais moço para um país muito distante, e lá dissipou sua herança vivendo dissolutamente. Depois de ter esbanjado tudo, sobreveio àquela região uma grande fome: e ele começou a passar penúria. Foi pôr-se a serviço de um dos senhores daquela região, que o mandou para os seus campos guardar porcos. Desejava ele fartar-se das vagens que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. Entrando então em si e refletiu: “Quantos empregados há na casa de meu pai, que têm pão em abundância, e eu, aqui, a morrer de fome! Levantar-me-ei e irei a meu pai, e dir-lhe-ei: Meu pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como a um dos teus empregados”. Levantou-se, pois, e foi ter com seu pai. Estava ainda longe, quando seu pai o viu, e, movido pela misericórdia, correu-lhe ao encontro, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou. O filho lhe disse então: “Meu pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho”. Mas o pai disse aos servos: “Trazei-me depressa a melhor (primeira) veste e vesti-lha, e ponde-lhe um anel no dedo e calçado nos pés. Trazei também o bezerro cevado e matai-o; comamos e festejemos. Este meu filho estava morto, e reviveu; tinha-se perdido e foi achado”. E começaram a festa. O filho mais velho estava no campo. Ao voltar e aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças. Chamou um servo e perguntou-lhe o que havia. Ele lhe explicou: Voltou teu irmão. E teu pai mandou matar um novilho gordo, porque o reencontrou são e salvo. Encolerizou-se ele e não queria entrar; mas seu pai saiu e insistiu com ele. Ele, então, respondeu ao pai: há tantos anos que te sirvo, sem jamais transgredir ordem alguma tua, e nunca me deste um cabrito, para festejar com os meus amigos. E agora, que voltou este teu filho, que gastou os teus bens com as meretrizes, logo lhe mandas-te matar um novilho gordo! Explicou-lhe o pai: Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu; convinha, porém, fazermos festa, pois que este teu irmão estava morto e reviveu, tinha-se perdido e foi achado”. Lucas, 15:11 a 32

31 de maio de 2013

[403] Episódio 8: Virando páginas...

Aquela noite em breu total serviu pelo menos para uma coisa: Mirella fez um novo conhecimento no Edifício. 

Talvez ela já possa até considerar o Frei (sim, nada de Padre, ele é Frei) um “amigo” apesar dessa palavra ter um significado muito forte em seu vocabulário sentimental.

Mas com certeza foi uma ótima experiência que prometo compartilhar mais para frente.

Tanta coisa aconteceu depois daquela noite à luz de velas que nem sei por onde começar...



Mirella recuperou seu contato com o Bentinho - aquele passado que ela não queria trazer para o presente.  

Após algumas conversas pelo MSN marcaram um encontro.

Criar expectativas sobre a possibilidade desse encontro foi desesperador para Mirella. E se ele a achasse velha, gorda, feia?! E se ele tentasse algo?! E se... lá vinha ela novamente com seus achismos. Baita ansiedade! Não teve jeito: já tinha marcado o encontro, agora era relaxar e encarar.

Foi desconcertantemente que Mirella cumprimentou Bentinho. Não podia acreditar no que aquele jovem havia se transformado. Bentinho era forte, alto, tinha músculos definidos nos lugares em que hoje percebia gorduras excessivas. A aparência jovial e máscula deu lugar a um homem com aspecto sujo e desbotado. Estava ali, à sua frente uma figura grotesca. Mirella deu graças a Deus por ter sido desprezada por alguém que, definitivamente, não a merecia.

Conversa vai, conversa vem e Bentinho não despregava os olhos dela. Sentindo um certo incômodo, não via a hora de acabar logo com aquele encontro. Bem que ele tentou arranjar desculpas pelo que fez no passado, articulando mil argumentações que hoje não convencem mais. Se estava pensando que este seria um reencontro, perdeu sua viagem. Ela cortou toda e qualquer tentativa de intimidade.

No final da conversa, após alguns copos de cerveja, despediram-se com palavras de porvir às quais Mirella jamais cumpriria.

Mais um capítulo de sua vida encerrado.

Saiu daquele lugar respirando aliviada:

- Até que valeu a pena! Sinto uma leveza quase cósmica! 

Diante daquele homem a quem deu uma parte de sua vida por amor e por quem fora rejeitada, sentiu-se, de certa forma, vingada! Não precisou articular sequer ofensas, a sua presença o fez por ela: uma mulher linda, madura, segura e totalmente refeita! E, aposto, mil vezes melhor do que o que ele tem em casa. 

Ai, fui cruel eu sei, não resisti!

Naquela tarde Mirella estava tão bem que nada lhe tiraria o bom humor. 

Aproveitou que estava num shopping perto do Edifício e presenteou -se com alguns mimos. Voltou para seu apartamento tão feliz que nem ligou para o fato de que mais uma vez aquele maldito elevador estava emperrado.

Subiu as escadas como quem sobe ao paraíso.

1 de maio de 2013

[403] Episódio 7: Luz e Velas



A trovoada foi tão forte que fez Mirella engolir a vontade de fumar!

As vidraças estremeceram e um vento forte assobiou sinistro. Não demorou e as luzes começaram a piscar. Todos esses efeitos desviaram a atenção dela do computador. Levantou-se e foi até a área pegar umas velas e fósforos. Mal chegou ao seu destino e as luzes apagaram. Ficou no breu total. Parecia ter sido geral.

Tateando as gavetas do armário se deu conta de que não estavam ali. Então lembrou  haver se desfeito dos fósforos desde que comprara seu fogão com acendimento automático. Privilégios da modernidade que naquele momento de nada serviam.  

Mas e as velas?

Vasculhou um pouco mais as gavetas e nada. Os olhos já começavam a acostumar-se com a escuridão. Ainda assim precisou seguir na procura esbarrando nos móveis para chegar até a sala e verificar se restavam algumas velas por lá.

Se existiam medos em Mirella, insetos voadores e tempestades magnéticas eram dois deles. Pavor de trovoadas e seus rompantes. Quando estrondeavam, pegavam-na sempre de surpresa.

Finalmente encontrou umas velas inteiras e alguns toquinhos. Mas e daí? Como iria acendê-las?

Ah, que bom seria se todos os dilemas da vida fossem simples velas a serem acesas...

Decidiu que procuraria ajuda com seus vizinhos.

Primeira opção seria a menina esquisitinha que mora em frente ao seu apartamento.
Ela não tem  cara de quem tem velas ou sequer fósforos. Na verdade ela tem todo jeito de quem não tem nada.

Descartou.

Pensou então pedir ao morador do andar de cima, pelo menos só subiria um lance de escadas. Lembrou que o mesmo tem um cachorro que late irritantemente e que carrega como alcunha Monstro. Quem diabos denomina um cão com esse nome? O animal deve ser um monstro no sentido literal da palavra. Não iria se arriscar, desistiu.

Começou a ficar inquieta. Se os dois foram eliminados de sua lista, restava-lhe quem? Descer até o primeiro andar nem pensar! Não naquela escuridão! E além do mais, Sr Célio estava internado e a outra moradora lhe parecia meio caduca.

Bom, tem o cara que gosta de fuxicar o lixo dos outros. Mirella, certa vez, ouviu um barulho suspeito vindo do corredor e, quando olhou pelo olho mágico da porta, avistou um homem fuxicando a lixeira. Como a porta da mesma estava entreaberta, pode observá-lo em ação. Achou aquilo estranhíssimo. Ficou sabendo, mais tarde, que seu vizinho tinha cismas de sustentabilidade. Morava sozinho e até que era jeitosinho. Não, nada disso, sem segundas intenções! Melhor nem se aproximar! Vai parecer que está criando motivos para uma aproximação. Risca esse.

Seu pensamento foi tão categórico que percebeu-se repetindo a última frase em voz alta:

- Próximo!

O rapazinho do terceiro andar. Um menino com aparência frágil, triste. Muito discreto. Ele tem um namorado. Talvez seja melhor não incomodá-lo. Seria constrangedor interromper qualquer coisa. 

Lembrou de uma vez que esbarrou com o casal na porta do edifício. Não se falaram, foi rápido. Enquanto ela chegava, eles saíam. Estavam falantes e pareciam muito apaixonados. Bateu uma pontinha de inveja nela, afinal, era um casal. Um casal gay e eu aqui, sozinha. Todo mundo tem alguém, nem que seja um cão chamado monstro. Será que deveria ser mais condescendente com os animais e adotar um gatinho? Riu. A ideia não é má mas preferiu pensar num gatinho que beija, abraça e fala no lugar de miar.

E por falar em gatinho, lembrou-se da nova inquilina que chegou ao edifício recentemente e trouxe, a tiracolo, justamente, um felino muito inconveniente. Não. Não vou me apresentar pedindo fósforos.

Deu- se conta então que descartara quase todo mundo.

Quase...

Porque no segundo andar mora um Padre com cara de bonzinho e Padres, em geral, devem ter velas em casa e, se tem velas, obviamente devem ter também fósforos.

Bingo!

Apesar de ter que descer quase quatro lances de escadas, não pensou muito, poderia desistir. Pegou seus cotocos de velas, colocou-os num saco e começou a descer as escadas tateando pelo corrimão frio.

Naquela hora, diante daquela escuridão, o edifício parecia mais velho e sombrio do que normalmente. As correntes velhas do elevador rangiam desafinadas quando tocadas pelo vento que entrava pelas frestas dos basculantes e o silêncio dos apartamentos a fazia escutar vozes inexistentes dos moradores como se fossem burburinhos.  Já começava a se arrepender de ter tido a ideia de pegar os fósforos.

Chegou à porta do Padre e hesitou. 

E se ele não fosse bonzinho? E se fosse daqueles padres chatos que puxam longas conversas e querem saber da vida alheia? E se fosse um moralista? E se... parou. Não era hora para achismos.  

Naquele momento, para ter alguma luz, dependeria da boa vontade daquele servo de Deus.

Suspirou e bateu à porta.

2 de abril de 2013

[403] Episódio 6: Desabitando hábitos


“Estou com sede de mudanças mas não quero arrastar os móveis nem desentortar os quadros. Quero desabitar meus hábitos.” (Marla de Queiroz)



- Vidinha chinfrim, pensou Mirella.

Entra ano, sai ano e continuava naquela habitual tortura de se enfiar num escritório cinza para depois ir para sua casa, habitada num edifício cinza. Cinzas eram as borras de cigarros deixadas em seu lixo, cinzas eram seus pensamentos cheios de hábitos e manias. Cinzas eram as nuvens que desenhavam o céu naquela tarde chuvosa de um feriado sem graça.

- Quem manda ser burra. Depois de se endividar por causa de homem tem mais que ficar enfurnada em casa só imaginando onde poderia estar se não estivesse tão dura!

Duras escolhas. Duras consequências. 
Era um dedo podre para homens ou então seu cupido tinha miopia. 
Estava sozinha novamente. E, decididamente, Mirella não sabe ficar sozinha.

Levantou-se da cama e foi até a escrivaninha para ligar o computador. Fazia um tempo que não navegava na internet em busca de entretenimento. Havia desistido das redes sociais e dos sites de relacionamentos. Quem sabe teria ali, naquela máquina cinza metálica, alguma alegoria para seu dia. Deixou-o carregando e foi até a cozinha pegar um café.

No caminho, ligou o rádio. Ouvir música era um de seus hobbies. Coincidência ou não, tocava naquele instante justamente uma de suas prediletas! Seria um bom sinal?

Saracoteou o esqueleto um pouco e já voltou mais animadinha para o quarto. Clicou na página da rede social para acessar seu perfil. Precisava lembrar a senha! Qual era mesmo? Tentou por alguns segundos até que conseguiu. A página abriu e ela se assustou com a quantidade de convites para aceitar amizades. Engraçado, de onde tiraram que aqueles seres eram seus amigos? Tinha gente ali que ela nunca vira em sua vida. Foi descartando um por um. Repentinamente um nome chamou sua atenção. Nunca foi muito boa para guardar nomes. Era ele sim, conhecia bem o dono daquele sorriso. E bastou apenas olhar por um instante aquela foto que um rebuliço acometeu seu estômago feito borboletas revoando e a fez viajar no tempo...

Um tempo de sua conturbada adolescência quando os sonhos eram confundidos com a realidade e havia certezas absolutas. Uma vida cheia de aventuras inconsequentes que  riscam cicatrizes na alma. Momentos irrecuperáveis que deixam a ilusão de que tudo poderia ser diferente se...

Era ele sim: Bentinho. 

Um pouco diferente, óbvio, marcado pelas mudanças do tempo; cabelos grisalhos, pele cheia de sinais da idade, um pouco acima do peso. Não mais Bentinho e sim agora Sr Benedito. Só uma coisa não havia sentido essa passagem: o sorriso, que era inconfundível! Mirella não queria admitir, mas Bentinho tinha o dom para desestabilizá-la. Quando jovens tudo era permitido. Viveram momentos intensos, proibidos, cheios de paixão. Ela se entregou de tal forma que não mediu consequências em suas atitudes e numa cidade pequena, sabe com é, as notícias não tem tempo de serem digeridas. Virou chiclete nas bocas fofoqueiras onde as palavras eram cuspidas. Acabou achincalhada e desprezada  por seus pais. Saiu de casa e quando buscou abrigo nos braços daquele que acreditava que a aceitaria, sofreu o duro golpe da indiferença. Para piorar a situação descobriu uma gravidez indesejada que foi resolvida na base da clandestinidade dos frios quartos de clínicas obscuras que cumpriam o “duro” dever de aniquilar vidas. Não tinha mais o que fazer naquela cidadezinha de merda. Caiu no mundo e nunca mais olhou para trás. Jurou esquecer tudo e seguir em frente. 

Seria feliz apesar de tudo. O passado não lhe pertencia mais, até aquele momento.

A curiosidade foi maior que o desejo de desprezo. Aceitou o convite. Queria bisbilhotar sobre a vida dele e descobriu que estava casado, com filhos e bem sucedido. Por que essa aparição agora? O que a vida tentava lhe mostrar? Tudo que ela mais desejava era esquecer seu passado. Fizera questão de apagá-lo sem sequer sentir remorso, há não ser pelo aborto, retirando do mapa de sua vida aquela cidadezinha hipócrita.

Tomou um gole do café que já esfriava. 

O gosto da nicotina avivou em sua boca. Salivou vontade de fumar. 

10 de março de 2013

[403] Episódio 5: Tempo Esgotado!

Depois das fortes emoções vividas tudo parecia voltar ao normal nos meses que se seguiram. 

Luis era um amante extremamente ardente e, como se diz por aí, na gíria, o número certinho de Mirella. Sendo os dois maduros, não cabia na relação sexual situações que pudessem melindrá-los. Viviam intensamente aqueles momentos, seguindo obviamente com toda segurança que a situação pedia. Em uma relação entre pessoas adultas não cabe inverdades e ambos sabiam que deveriam respeitar este código. Com isso se permitiam viver tantas fantasias quanto fossem possíveis.

No entanto, Mirella começou a perceber que seus sentimentos oscilavam. Atitudes e situações que a levavam a crer que poderia estar enganada. Um questionamento se instalou de tal forma em sua mente que sua inquietude começou a transbordar em forma de impaciência e isso, obviamente, refletia na relação deles.

Será que Mirella sentia por Luis paixão ou compaixão?

Luis, com o tempo, foi se instalando em sua casa com generosa frequência. Volta e meia se dizia sem dinheiro e fazia empréstimos a ela com o devido cuidado de deixar claro que saldaria a dívida logo recebesse seus pagamentos. Mirella insistia em querer saber mais sobre a atividade profissional dele. Segundo Luis, sua função era de assessoria, mas na real, Mirella acabou descobrindo que, simplesmente, Luis vivia de “bicos”. Ele não conseguia manter um emprego por muito tempo.Batia no peito e dizia que não nasceu para ser empregado e sim chefe. Segundo sua própria versão: explodia sempre com seus superiores, que em geral, para ele, eram sempre burros.

Tipicamente coisa de leonino, justificava Mirella. São orgulhosos demais para se subordinarem  a uma chefia. Triste constatação! Triste situação que Mirella teimava em não enxergar.

Naquele dia, ela saiu mais cedo do trabalho e, chegando ao prédio, passando pelo hall reparou um  burburinho diferente do habitual. Escutou comentários sobre a saúde frágil de Seu Célio,o morador do apartamento 106, parecia que era sério! Apiedou-se do mesmo, mas seguiu seu caminho. Queria chegar logo em casa e descansar. Tinha sido um dia estressante no escritório.

Assim que saiu do elevador, o qual por um milagre funcionou naquele dia, pode sentir ainda no corredor o cheiro insuportável de cigarro que impregnava o ar. Isso a fez lembrar que deveria ter sempre em mente essa sensação para que não voltasse mais a fumar. Sentiu náuseas e um leve mal estar invadiu seu corpo.

Luis estava ali. 

Ao entrar o viu na sala deitado no sofá, diante da TV  com um cinzeiro repleto de bingas de cigarro. Percebendo a presença dela, ele se levantou e foi ao seu encontro.

- Chegou mais cedo, criança! - Beijou-lhe de leve a boca.

Notou um franzir de testa. Ignorou.

- Já te pedi muitas vezes para não me tratar assim... e esse cheiro?! Sabe que detesto!

Luis pegou o cinzeiro e, com má vontade, jogou as cinzas no lixo.

- Já vi que seu dia hoje não foi nada bom, né?

Rispidamente Mirella resmungou alguma coisa e foi pro quarto.

Luis ouviu o som da água que caía do chuveiro e foi até a cozinha preparar algo para comerem. Preferiu não falar mais nada para não piorar a situação. 

Mirella saiu do banho, enrolou a toalha na cabeça, vestiu um robe de seda confortável, calçou as sandálias e, um pouco mais relaxada, foi ao encontro dele, na cozinha. Estava faminta. Preferiu mudar o assunto. Enquanto comiam trocavam experiências sobre o dia.

- Quando cheguei no hall do prédio me pareceu ouvir que seu Célio está mal. Vai ter que ser internado.

- Aquele velho nazista? Bem feito.

- Luis! Não fala assim . Seu Célio é um senhor muito distinto e já tem idade bem avançada. Acho que mais de 90 anos!

_ Azar o dele.

- O que ele te fez para tratá-lo dessa forma? Nem o conhece direito!

- Andei sondando por aí. Dizem que ele é bem ranzinza. Só podia, sendo alemão!

Mirella não conteve a risada.

- Ahahaha , ele nem é alemão!

Mudando o tom da voz ela o interpelou:

- Não sabia desse seu lado radical e preconceituoso.

Percebia-se um ar de decepção na voz dela.

Luis não ligou e então desfiou todo seu conhecimento e julgamento sobre a suástica e os mandos e desmandos de Hittler, a guerra e o holocausto, insistindo na comparação feita ao senhor Célio. Enquanto ele falava, Mirella fingia ouvi-lo. Seu pensamento divagava. Estaria ouvindo mesmo tudo aquilo do homem pelo qual se apaixonara e que se mostrara tão frágil e sensível há tão pouco tempo?! Como poderia estar tão enganada?

A comida não lhe caiu bem.

Esperou pacientemente que Luis terminasse sua dissertação e, desculpando-se, alegou estar cansada demais. Preferiria dormir sozinha aquela noite. Luis ainda tentou provocá-la, se fazendo de vítima, como de costume, afinal só porque chamou o tal vizinho de nazista ela o mandava embora? Tentou se desculpar mas Mirella foi implacável em sua decisão. Restou-lhe então acatar o pedido.

Foi a última vez que Luis entrou naquele apartamento...

18 de fevereiro de 2013

[403] Episódio 4: Com...paixão!


“Quando a gente acha que tem todas as respostas,
vem a vida e muda todas as perguntas.” (desconheço a autoria)

Mirella recebeu Luis com um sorriso no rosto.

Se lhe valiam de alguma coisa seus anos de experiência, uma delas era a de que um sorriso sempre cai bem quando não se sabe o que falar.  A angústia que lhe assombrava por desconhecer parte da vida daquele homem que tanto a encantara não era maior do que a paixão que a consumia.

O almoço foi tranquilo. Falaram trivialidades.

Luis é daquele tipo de cara que faz e sabe de tudo. Conserta desde cadeira que range por conta de um pé torto até máquina de lavar. Mirella não sabia se ele o fazia por curiosidade ou por economia. Afinal, em que Luis trabalhava ainda era um mistério para ela. Além de todas essas proezas domésticas, ele ainda se metia a dar palpites na decoração. Isso sem mencionar que tinha sempre algo de sugestivo a pronunciar.

Algumas vezes esse jeitinho muito moldado e prestativo a irritava. Por outras, ela relevava.

Terminado o almoço ele levantou-se, retirando algumas peças que estavam sobre a mesa, e se dirigiu à cozinha pondo-se a lavar as louças. Mirella o acompanhou nessa tarefa enquanto tentava imaginar o que Luis teria de tão importante para lhe falar. Não ousou tocar no assunto já que ele mesmo ainda nem sequer o havia feito. Como disse, falavam de banalidades do dia a dia.

- Vou fumar um cigarro!

Dito isto, ele seguiu em direção à sala. Puxou um cigarro do maço que carregava no bolso da camisa e debruçou-se, apoiado sobre seus cotovelos, no mármore frio que cobria o parapeito da janela. Com um olhar fixo no horizonte, acendeu seu vício e displicentemente soltou longas baforadas. Parecia buscar coragem naquele gesto corriqueiro. Mirella, da cozinha, espreitava-o, pela fresta da porta, silenciosamente absorvida em seus pensamentos angustiantes.

Foi Luis que quebrou o silêncio:

- Deixa isso aí e vem aqui, criança.

Mirella odiava quando ele a tratava assim. Sentia-se imbecilizada.

- Luis, por favor!

Luis assentiu com a cabeça num gesto de desculpas e, puxando-a pelas mãos, sugeriu que se sentassem no sofá. O ar da casa era uma mistura de cheiros entre cigarro, comida e mistério. Luis estava sério e, arranhando a garganta num pigarro típico de fumantes, encarou-a para, logo em seguida, baixar a cabeça e romper em um choro sentido.

Sem entender nada do que acontecia ali, Mirella instintivamente segurou o rosto dele com carinho e falou calmamente:

- Luis o que o está acontecendo? O que o incomoda tanto?

Tentando prender o choro e recuperando o equilíbrio, ele desabafou:

- Mirella, durante todo este tempo em que estivemos juntos, tenho sido o homem mais feliz do mundo e justamente por estar me sentindo assim e por perceber o quanto a estou envolvendo, preciso que saiba um pouco mais sobre minha vida. Sofro todos os dias pensando como você reagirá depois de tudo que revelar aqui. Será que ainda vai me querer? Será que vai conseguir entender meu sofrimento? O que vou te contar é sério demais.

- Pelo amor de Deus, não me diga que é casado?

Luis negou.

- Bandido?

Luis não conteve um sorriso sem jeito e negou novamente.

- É algum problema tipo... você sabe... essas coisas de disfunção, no homem? Porque se for, a gente...

Dessa vez ele nem a deixou terminar a frase, achou graça de novo e meneou negativamente a cabeça.

- Se não é nada disso então o que pode ser tão sério assim Luis?

E, rompendo novamente em soluços, Luis revelou a Mirella que tinha AIDS!

Relatou tudo desde o início: a descoberta da doença, de que forma a contraíra, as pessoas envolvidas, que, possivelmente, sem saber, contaminara. Como fora desenganado pelos médicos e o sofrimento de sua mãe, levando-o para casa com um prognóstico de que morreria em quatro meses. Contou sobre sua luta contra o tempo e os preconceitos e que depois de mais de 11 anos vencera seus próprios medos e angústias, desafiando a vida e a medicina. Calou-se.

Mirella ouvia a tudo perplexa.

O chão se abriu. Um redemoinho alcançou sua mente. Pareceu uma eternidade entre ouvir aquela confissão e reagir a ela. Um turbilhão de pensamentos e emoções a invadiu. Sem conseguir raciocinar direito, a única reação que teve foi de abraçar aquele homem que, em segundos, tornara-se um menino. Uma dose cavalar de compaixão a invadiu. Ficou abraçada a ele, em silêncio, sem conseguir encará-lo. Na verdade não sabia o que dizer e foi então que sorriu:

- Sabe Luis, de repente a nossa relação pode até terminar por qualquer motivo tosco, mas tenha certeza de que jamais por causa de sua doença!

Luis então, comovido, beijou-a ternamente.

Nada o poderia fazer mais feliz do que aquela frase dita de um modo tão natural. Recuperando sua confiança, envolveu-a em seus braços e a carregou para o quarto.

Naquela tarde, todas as dúvidas de Mirella seriam respondidas.



5 de fevereiro de 2013

[403] Episódio 3: Embalos de Sábado...




Naquela manhã de um sábado quente, Mirella chegou em casa esbaforida.

Depois de correr seus quilômetros diários, precisou subir as escadas do prédio, já que o elevador mais uma vez resolveu emperrar.  Não quis esperar o síndico para consertar aquela geringonça ultrapassada que, paralisado à sua frente, só servia para atrasar seu dia.

Ainda era cedo e pretendia faxinar o apartamento como sempre fazia aos sábados.

Ao adentrar seu apartamento, foi direto para a área de serviço, onde tirou os tênis, deixando-os no parapeito da janela para arejar e, em seguida, as meias, colocando-as no cesto de roupa suja. Sensação gostosa essa de liberar os pés. Já na cozinha, abriu a geladeira e sorveu enormes goles de água no gargalo da garrafa que a esperava, oferecida, naquela prateleira vazia de seu refrigerador. Isso a fez lembrar que precisava fazer compras. Enrolou os cabelos, torcendo-os, e prendeu-os com uma presilha, pegou o material de limpeza, foi até a sala e colocou seu CD favorito no aparelho de som.

No ritmo vibrante dos sucessos dos anos 70 deu início a sua ilíada.  

Efeito enebriante que a música causa em nossos corpos quando nos deixamos levar por suas notas. Momentos que nos fazem recordar, sejam boas ou más lembranças.




E foi assim, absorvida nestes pensamentos que Mirella, enquanto arrumava a casa, dançava ao embalo frenético daquelas músicas revivendo em sua memória seus momentos com Luis...

Há uns dois meses, finalmente, ele ligou, e os dois marcaram um primeiro encontro. Saíram para jantar e terminaram a noite dançando num espaço descolado que tinha na Cidade. A noite foi muito agradável e desde então mantiveram contato procurando minimizar a saudade, entre uma saída e outra, através de telefonemas, emails e MSN. Estavam envolvidos e Mirella tinha certeza de que se apaixonara. Foi o que a encorajou a terminar com Carlos um relacionamento que vinha mantendo há quase sete anos e que já não ia lá muito bem.

Luis era um homem de aparência exótica (padrão que Mirella dificilmente fugia). Muito magro, alto, com ombros largos, mãos grandes e habilidosas. Usava cavanhaque e um brinco na orelha esquerda. Tinha um certo quê de cigano. Os olhos de Luis emanavam mistério.

Unicamente, nestes dois meses, só o fato dele ser fumante que a desagradava. Detalhe esse que Mirella preferia ignorar por motivos já conhecidos.

Durante seus encontros, foram poucas as vezes que Luis investira num contato mais íntimo. Mirella se deleitava entre os braços magros, porém fortes, dele.  Seu peito ardia de paixão ao ser tocada e um calor excitante a dominava quando se beijavam. Ela se oferecia sem pudores. No entanto Luis desviava, despedia-se ou adormecia com Mirella aconchegada em seus braços, visivelmente evitando uma intimidade maior. Isso perturbava Mirella, que procurava não tocar no assunto.

Houve uma vez que Luis a interpelou.

- Você deve estar estranhando esse meu jeito não é?

- Como você mesmo disse: é o seu jeito!

Luis abraçou-a carinhosamente agradecido pela sutileza de sua resposta.

Não tocaram mais no assunto, e agora, esse silêncio.

Foi repentinamente que um vazio tomou conta do coração de Mirella. Ela sabia de cor os dias que silenciaram sua paixão. Já fazia um grande espaço de tempo desde a última vez que tivera notícias de Luis.  O que pensar? Por que, novamente, este sumiço? Muitas hipóteses e óbvias, claro: Seria ele casado? Gay? Teria alguma disfunção? Deveria ela desistir? Insistir? Mas aqueles beijos...

Saiu de seu transe apocalíptico quando ouviu, de súbito, umas pancadas no chão de seu apartamento. Sorriu um sorriso tranquilo e de paz quando percebeu que deveria ser o morador do andar abaixo do seu reclamando de alguma coisa. Talvez dos pensamentos de Mirella, que deveriam estar ecoando pelos cantos da casa mais alto que o som de seu aparelho de CD. Diminuiu o volume da música e esperou que as pancadas cessassem. Já estava na hora mesmo de parar de sofrer. Acreditando que tudo na vida tem uma explicação, preferiu sossegar seu coração entregando-se as atividades diárias.

Faxinar era a palavra do momento. E em seu vocabulário próprio, isso podia significar muitas coisas; limpar, arrumar, tornar agradável o ambiente.

A vida não se apresenta como nos sonhos e quem acredita nisso acaba iludido. Mirella, sendo uma mulher madura, sabia disso. Seu problema era que mergulhava em suas paixões de corpo e alma sem cilindro de oxigênio. Sofria de carência inconsciente e alimentava um desejo quase insano de encontrar sua tão prometida metade. Os sentimentos e o prazer falavam mais alto e não a deixavam raciocinar direito. Por conta disso, seus relacionamentos eram, invariavelmente, problemáticos e confusos. Ou seria ela confusa e problemática?

Enfim, casa cheirosa, mobílias no lugar e um corpo exausto numa mente hiperativa. Assim mesmo, nessa relação desproporcional. Como a vida de Mirella.

O telefone tocou.                        

Sempre foco de suas ansiedades, esse sonoro ruído a tirava das divagações habituais e a trazia para realidade. Apesar de estar a espera de uma ligação de Luis, naquele momento não pensava nisso, e atendeu displicentemente. Qual não foi sua satisfação ao ouvir a voz dele do outro lado do fone. Tentou disfarçar sua surpresa. Nem deu tempo, Luis foi breve. Marcou um encontro para o dia seguinte, ali mesmo, na casa de Mirella e pela seriedade imposta por sua voz ela preferiu não mencionar nada. 

Nenhuma cobrança, nenhuma indagação.

Desligou o aparelho com a mesma e inconformada situação anterior; cheia de dúvidas e mistérios.

Precisaria de muitos livros para conseguir dormir aquela noite!