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28 de janeiro de 2014

[205] Episódio 3: O gato falante


Corri o olhar pela sala, a tela do monitor iluminava precariamente o cômodo. Meu pai tem razão, isso aqui está um lixo. Preciso tirar um tempo para desencaixotar minhas revistas, jornais e CDs. Por hora, acho que levarei todas as caixas para um dos quartos, e assim deixo a sala livre.

Dei mais uma tragada no bagulho, eu precisava relaxar. Maria Joana era criativa, extrovertida e tinha o poder quase sobrenatural de me relaxar – talvez tanto quanto Cátia. Mas algumas coisas eu só conseguia fazer com ela: veja só a logo da clínica de fisioterapia no monitor. Ficou excelente!

Gargalhei e dei outra tragada. Me apresentaram a Joana no ensino médio, alguns amigos já a conheciam há mais tempo, e de lá para cá não nos separamos mais. Aliás, eu acho que a Cátia, na verdade, deve ter me largado a primeira vez por causa dela.

Puta que pariu! Félix saltou para uma das caixas e caiu todo esparramado lá dentro! Gargalhei e só traguei outra vez quando pude me recuperar do riso. Ergui o cigarro à frente do rosto. Estava quase acabando, feito meu estoque. Eu precisava comprar mais com o Bolinha.

– Gato idiota! – disse ainda rindo. Félix ergueu a cabeça de dentro da caixa e me encarou.

– Vai se foder, seu babaca... – retrucou. Chorei de tanto rir.

– Deu para falar agora, seu viado?

– Quando um babaca se entope de maconha, até gato fala... – disse ele, sentando-se. Lambeu uma pata e passou na orelha.

– E o que você tem a ver com isso?

– Você me prometeu, seu canalha! – retrucou me encarando novamente. Senti um golpe no rosto, mas não me virei.

– Você fala feito uma mocinha. Parece a Cátia... – disse para fazer-lhe implicância, gargalhando.

– Para com isso e olha para mim! – esbravejou Félix saltando da caixa e se aproximando. Senti outro golpe no rosto. – Você comprou mais jornais? Está parecendo um mendigo no meio disso tudo... – acrescentou em tom grave. Outro golpe: um tapa seco, estalado.

– Ih, olha só Félix, falando em Cátia... – disse ainda sorrindo, virando-me na direção do golpe.

– Por que está fazendo isso? Por quê? – perguntou Cátia com os olhos marejados. Eu não conseguia parar de rir, apesar de achar aquilo muito triste. Por que Cátia estava chorando?

– Que saudades, meu bem... Demorou tanto a vir, pensei que tinha me abandonado outra vez... – disse tentando conter o sorriso que se desfazia com dificuldade. Félix não disse mais nada, virou-nos as costas e pulou para uma das caixas, deitando confortavelmente.

– Márcio isso precisa parar! Você vai acabar se matando! – sussurrou tristemente abraçando minha cabeça e colando ao seu peito. Minhas lágrimas vieram e não pude segurar.

– Meu pai esteve aqui... disse que minha mãe sente minha falta, chora todos os dias... – balbuciei fungando.

– E você aí se matando de fumar maconha... – retrucou acariciando meus cabelos.

– Pediu para eu voltar para casa...

– E você vai voltar?

– Minha casa agora é aqui, Cátia. – respondi ainda fungando.

– Isso está longe de ser chamado de casa. – disse levantando. Caminhou com dificuldade entre as caixas com minhas coleções de revistas e jornais. – Você tem comida?

– Está com fome? – perguntei levantando-me e sorrindo, a vista ainda embaçada pelas lágrimas.

– Não, estou apenas preocupada com você...  – respondeu da cozinha, ao bater a porta do refrigerador. Caminhei a seu encontro, ela retornava fechando o zíper da bolsa. – Eu vou sair para comprar alguma coisa para almoçarmos.

– Mas eu comprei uma lasanha esses dias... – comentei quando ela cruzou o caminho comigo.

– Eu vou ao mercado, meu bem... fique aqui e jogue isso fora, por favor... – disse ignorando meu comentário sobre a lasanha e segurando minha mão com o resto do bagulho com autoridade. Me senti um garotinho. Acompanhei à distância ela se dirigir até a porta, Cátia deu uma meia parada, suspirou e veio ao meu encontro. – Porque você faz isso comigo, seu cachorro? – reclamou batendo em meu peito e me beijando em seguida.

– Ora, faço o quê? – perguntei, confuso, enquanto a beijava.

– Você não me ama. Não ama a ninguém, apenas a si mesmo... – sussurrou, enquanto tirava minha camisa, passando as mãos em meu peito logo após.

– Eu te amo... – balbuciei, enquanto Cátia retirava a camiseta de suplex com habilidade, deixando os seios nus.

– Mentiroso! – esbravejou me desferindo um tapa. Meu rosto ardeu e os olhos encheram-se de lágrimas novamente. 

– Você enlouqueceu? – esbravejei segurando em seus punhos com vigor. Seus olhos também estavam marejados.

– O que foi? Vai me bater agora, seu covarde? – debochou com aqueles olhos brilhantes e desafiadores. Ela sabia que eu não era capaz de lhe fazer qualquer mal. Eu afrouxei as mãos e ela avançou sobre mim novamente, beijando-me com avidez.

– Você sabe que eu não sou capaz disso, não é mesmo? – respondi entre seus beijos.

– Patife... você ama mais o bagulho do que a mim... – reclamou enquanto desabotoava minha calça.

– Isso é mentira! – murmurei, mas ela parecia não me ouvir.

– Eu quero você por inteiro, não quero dividi-lo com ninguém, nem mesmo com um vício... – acrescentou, baixando sua calça com dificuldade. Abraçou-me em seguida, colando os diminutos seios em meu peito e beijei-a com sofreguidão.

– Você fala demais... – observei segurando fortemente em sua cintura e deitando-a entre as caixas.

– Seu covarde! – vociferou socando meu ombro esquerdo, abrindo as pernas para que eu me encaixasse no meio delas.

– Cala a boca! – gritei esbofeteando-a, algumas lágrimas rolaram rosto abaixo, mas ela não parecia insatisfeita. Afastei a calcinha com os dedos e penetrei-a fortemente, batendo o púbis com violência em seus quadris. Cátia gemia com prazer, mordendo o lábio inferior e me conduzindo para si, segurando em minha bunda. A mulata franziu o cenho, seus suspiros tornaram-se agudíssimos, um tom soprano melancólico que se perdia no orgasmo.

Continuei meus movimentos com mais vigor ainda, o suor escorria-me pela testa alcançando e queimando as vistas. Não consegui gozar, por mais que tentasse e por maior que fosse a paciência de Cátia. Deitei ofegante e exausto ao seu lado, ela sentou abraçando as pernas e me encarou.

– Fuma mais maconha, seu babaca... – sussurrou tentando controlar a respiração.

– Eu também te amo... – murmurei com deboche.

– Se eu não te amasse, não estaria aqui, não acha? – disse baixando o tronco para beijar-me a boca.

– Não sei. Talvez esteja impressionada com a minha cultura... – retruquei, sorrindo. Ela não respondeu. Levantou, espreguiçou-se e catou as roupas no chão para se vestir. – Onde você vai?

– Vou comprar alguma coisa para a gente almoçar... – respondeu dando uma última reboladinha para por a calça justa.

– Está com fome?

– Estou. – respondeu colocando a camiseta e arrumando os cabelos. Calçou as sapatilhas, foi ao banheiro e lavou o rosto. Sentei-me e fiquei observando o membro perder massa, tombando de lado. Cátia voltou e então me levantei, apoiando um joelho no chão.

– Não demora muito... – disse em tom de súplica. Ela pegou a bolsa e se aproximou sorrindo.

– Eu já volto... – tranquilizou-me e beijou minha boca. Teve um sobressalto quando lhe dei um tapa no traseiro, a caminho da saída.

– Eu te amo. – disse quando ela abriu a porta. Ela sorriu novamente, parada ao umbral.

– Também te amo... – respondeu e saiu.

Suspirei. Talvez ela tivesse razão, eu devia amar mais a maconha do que a ela, e mais do que a mim mesmo, isso precisava parar. Suspirei novamente e segui até a cozinha, estava morrendo de sede. Abri a geladeira e corri o olhar para buscar a garrafa d’água, mas a ausência do meu pacotinho de maconha chamou-me a atenção.
 Cátia, sua filha da puta!murmurei entre os dentes. A piranhazinha havia levado o resto da maconha que eu tinha em sua bolsa! Suspirei e fechei o refrigerador, ouvi um miado fininho e virei-me em sua direção. Félix estava sentando junto à porta da cozinha, fitando-me com aqueles olhos amarelos e curiosos. Miou outra vez. – Gato idiota...

20 de dezembro de 2013

[205] Episódio 2: O silêncio que procede ao esporro


Silêncio.

Adão viveu cento e trinta anos, gerou um filho e deu-lhe o nome de Set, que viveu cento e cinco anos, e depois gerou Enos, que viveu noventa anos, e depois gerou Cainan. Cainan viveu setenta anos, e depois gerou Malaleel. Malaleel viveu sessenta e cinco anos, e depois gerou Jared. Lúcia... Quem gerou Lúcia? Eu não faço ideia de quem gerou Lúcia. Lúcia gerou Márcio e o vendeu. Cléber e Martha compraram Márcio, não geraram porra nenhuma. Quem Márcio gerará? Boa coisa não vai ser, porque Márcio não presta...

Silêncio.

Eu não gostava muito da claridade, e a cortina ficava fechada em tempo integral, eu me sentia bem mais confortável assim. Uma semana após a mudança, ainda havia caixas para todos os lados. Silêncio. Eu não tinha muitos móveis, muito menos guarda-roupa, tudo ficava nas caixas. As únicas coisas que eu trouxera da casa daqueles dois foram minhas roupas, objetos pessoais, as coleções de livros e revistas e meu computador (além do bagulho), entretanto, agora eu já tinha conseguido comprar um fogão, uma geladeira, uma escrivaninha, uma cadeira de escritório – para trabalhar mais confortavelmente – e um colchonete. Este último, novo, os demais, porém, usados. Era o que dava para fazer com as parcas economias que eu tinha, com o tempo, eu conseguiria mobiliar a casa e viver decentemente. Havia também o Félix, esse gato filho da puta e interesseiro, como qualquer outra criatura... Aproximou-se de mim silenciosamente enquanto eu trabalhava na logomarca de uma clínica de fisioterapia. Parei por um instante para fazer-lhe carinho, era só o que bastava para ser feliz, além de um lugar quentinho para morar, e comida farta (eu já disse isso aqui).

Voltei ao meu trabalho. Todas as logomarcas de clínicas de fisioterapia eram uma ilustração ou silhueta de alguém com a mobilidade dificultada, em uma cadeira de rodas, ou muletas. Se eu fizesse qualquer coisa desse tipo eu não estaria fazendo nada de novo. O que eu criaria de novidade, para imagens já tão batidas para logomarcas. A fisioterapia visa restabelecer os movimentos dos pacientes, então, eu precisava passar a ideia de movimento, e não de imobilidade. Fiz os traços de uma pessoa, da altura do abdômen para cima, sem rosto, os braços abertos como em um exercício... Félix pulou em meu colo, estava inquieto, queria mais carinho. No antigo Egito eles ajudaram a combater os ratos que infestavam a região, causando doenças e danificando plantações. Se tornou um ser sagrado, era tratado como membro da família, fazendo jus até aos mesmos ritos fúnebre que os humanos sendo embalsamados e sepultados. E ai de quem matasse um bichano! Era condenado à morte! E por falar nisso, há quem diga que eles podem sentir a morte de alguém se aproximar. Será que eu morreria em breve?

– O que foi, Félix? – perguntei ao alisar seu pelo da cabeça, correndo minha mão pelo pescoço e dorso. – Tenho quanto tempo de vida? – continuei, ele apenas me olhava, enigmático. Assustei-me ao ouvir batidas na porta. – É... acho que ela chegou... – murmurei ao me levantar para atender. O gato saltou de meu colo e me acompanhou.

– Posso entrar? – perguntou Cléber quando abri a porta. Cléber era jornalista, e em viagem a serviço, não estava em casa quando saí de lá. Era magro e careca, os olhos fundos, com olheiras escuras sob estes. Os cabelos que circundavam a cabeça eram grisalhos, mais puxados para o loiro acinzentado. Sempre bem vestido, usava um terno negro, assim como sua gravata, tinha por volta de 1,70m de altura. Encarei-o por alguns segundos e saí de sua frente, indicando o interior da casa com o braço estendido, sem nada dizer. Fechei-a logo após ele entrar e segui-o.

Caminhou pela sala escura, cuidadosamente, entre as caixas até alcançar a janela e depois de breve hesitação puxou as cortinas, deixando a luz do céu entrar.

– Quem te deu o direito de vir em minha casa e... – esbravejei com o dedo em riste.

– Cale a boca! Cale a boca! – gritou me interrompendo, também com o dedo ereto em minha direção. Estava transtornado, as lágrimas inundavam os olhos vermelhos, as veias saltavam de seu pescoço. Olha só no que você se transformou... em um mendigo! O que é isso? Um monte de caixa espalhada, escuridão... e essa barba por fazer?

– Você não pode... – tentei intervir, perturbado.

– Eu posso o que eu quiser! – vociferou batendo no peito. – Ouviu bem? Eu posso o que eu quiser... – murmurou. Félix começou a se trançar em minhas pernas. – Você está se comportando feito um moleque, só um moleque se comporta dessa forma. Ande, junte suas tralhas e vamos voltar para casa, sua mãe está te esperando... – disse caminhando e desviando o olhar.

– Ela não é minha mãe! – esbravejei e tampei os ouvidos. O gato se assustou e correu para um dos cômodos.

– É sua mãe! Ela é tão sua mãe como eu sou seu pai... – afirmou se aproximando. Afastei-me.

– Não seja ridículo, Cléber, vocês me compraram, como qualquer coisa... é isso que eu sou? Uma coisa?

– Você não sabe o que está falando, Márcio...

– É claro que eu sei! Ela não te contou? Eu ouvi minha m... a Martha conversando com aquela... Lúcia. Vocês pagaram por mim! Eu fui comprado! – resmunguei, batendo as mãos espalmadas no peito.

– Márcio, você se comporta feito um menino. Logo você que sempre foi um cara maduro à beça para sua idade, sempre precoce... Toda essa revolta lembra a pirraça de um garotinho. Talvez devêssemos ter contado isso a você nessa época...

– É evidente que sim! Vocês deveriam ter me contado antes. Será que é tão difícil perceber isso? – disse ao caminhar para a janela e fechar as cortinas.

– Erramos! Erramos, meu filho! Todos erram, mas não dá para consertar um erro com outro, entende? Martha achou que se você soubesse ia amar menos a ela. Eu não acreditava nisso, mas ela é minha mulher e a apoiei. – explicou se aproximando. Encarou-me, minhas lágrimas não tardariam.

– Vadia... – sussurrei e ele me esbofeteou, sem dúvidas.

– Limpe essa sua boca para falar da Martha, seu moleque! Respeite sua mãe! – vociferou, ameaçando dar outro tapa e eu não desviei o rosto. Ele se conteve e baixou a voz. – Nós te demos tudo que você precisava... e não estou falando de brinquedos e roupas, de algo material. Te demos amor e carinho, proteção, tudo que uma criança precisa para se desenvolver de forma saudável. Nós te demos tudo...

– Esqueceram-se da verdade... – retruquei. Peguei um cigarro na escrivaninha e acendi. Ele se aproximou e tomou o cigarro de minha mão, amassando e atirando ao chão.

 – Não acenda um negócio desses na minha frente... – censurou-me, eu apenas o olhei de volta. Ele suspirou e voltou a si.

Cléber era um cara bacana, acho que eu sentia mais raiva de Martha. Acredito que toda minha revolta era pelo tamanho da admiração que eu nutria por eles. Não conseguia os ver agora diferentes de traidores, mentirosos, embusteiros...

Depois de um longo silêncio, continuou seu discurso.

– Lúcia foi trabalhar em nossa casa com dezessete anos. Foi indicação de uma tia de Martha, a empregada dela tinha uma irmã que passava por dificuldades, e o emprego para sua sobrinha ia melhorar e muito a qualidade de vida da família. Ela era apenas uma menina...

Completaram-se dois anos de serviços prestados a nós, aliás, muito mais que uma empregada, ela tornou-se uma amiga, a relação entre nós três sempre foi muito cordial. Nessa época, depois de inúmeras tentativas, descobrimos que não podíamos ter filhos. Certo dia, Lúcia chegou em casa transtornada, chorava e falava coisas desconexas. Estava grávida... – explicava-me cuidadosamente. Comecei a chorar, desesperadamente, aos soluços, mas sem dizer uma palavra; cabisbaixo, evitava encará-lo naquela condição. Ele se aproximou.

– Seu namorado, ao saber, disse que o filho era de outro, e não dele. Agrediu-a e sumiu. Ela pretendia abortar, mas nós a impedimos, prometemos que daríamos conforto e segurança a ela, pelo tempo que precisasse. O tempo foi passando, fomos nos afeiçoando à criança que nem havia nascido, quando ela nos surpreendeu, dizendo que iria embora, não teria como criar aquela criança. Voltaria para casa de sua mãe, no interior, talvez fosse melhor para ela e o bebê. Sabíamos que não, a situação de sua família era de extrema pobreza. Foi então que surgiu a proposta... adotaríamos a criança, e em troca, daríamos para ela uma considerável quantia em dinheiro que podia garantir uma situação confortável para sua família. Você nasceu, e ficou sob seus cuidados até um ano e meio, quando decidimos que era hora de ela partir. A separação foi difícil para todo mundo, mas superamos. Vê? Nós nunca te negociamos feito uma mercadoria. As coisas foram acontecendo assim... – concluiu e apoiou a mão em meu ombro, suspirando. Suas lágrimas voltaram e ganharam seu rosto. Cléber fungava. Depois deu um tapinha em meu ombro, nos abraçamos e ficamos assim sabe-se lá por quanto tempo, chorando juntos.

– Eu te amo, meu filho... – disse ele segurando minha a cabeça e me olhando firmemente.

– Eu também te amo... – respondi. Cléber abraçou-me fortemente, depois me soltou, limpou as lágrimas e seguiu para a saída.

– Volte logo para casa, sua mãe chora todos os dias... – rogou, ao girar nos calcanhares, a meio caminho.

– Minha casa agora é aqui... pai... – expliquei. Cléber assentiu com a cabeça, contrariado, virou as costas e saiu.


Escuridão. Silêncio.


Silêncio...


Desta vez, mais forte e pungente.

21 de novembro de 2013

[205] Episódio 1: A verdade vos libertará

http://www.bbel.com.br/upload_2009/conteudo/locador_inquilino2.jpg
Gosto de café forte. A receita é muito simples: duas colheres de sopa bem cheias de pó, para uma xícara de água, e duas colheres de açúcar. Eu sempre faço a quantidade exata para ser consumida na hora, não gosto do sabor oxidado que o café ganha ao descansar na garrafa, nem do sabor queimado das cafeteiras.

Fervo a água – já misturada com açúcar – e passo o café diretamente na xícara. Escolho o melhor produto, tem um monte de marca barata por aí em que o café é moído com milho e gravetos. O sabor é horrível. E o café não é barato porque a empresa é boazinha, o produto foi muito mal produzido e o povo, em sua maioria com renda baixa, vai consumir, evidentemente, o mais barato. Essas firmas devem estar ganhando rios de dinheiro.

Percebem como há sempre um interesse por trás de tudo? Sempre há.

Acabei de pintar a sala, era o último cômodo a ser reparado. Ainda tenho muitas coisas fora do lugar, apesar de não ter tantos móveis assim. Há várias caixas com livros e revistas espalhadas, aprecio bastante a leitura, e gosto de colecionar os volumes. O apartamento é muito bom, é amplo, arejado, exatamente como a moça da imobiliária disse há uns cinco dias.

– O senhor vai gostar, o apartamento é amplo, arejado, realmente muito bom... O senhor tem mulher, filhos? – perguntou ao me oferecer as chaves.

– E o que você tem a ver com isso? – respondi de pronto ao pegá-las.

– Err... me perdoe... – desculpou-se encabulada.

Levantei-me e saí da loja, mas ao cruzar a soleira da porta, ouvi som de risinhos lá dentro e voltei.

– Qual é o motivo do riso?

– Desculpe... não estamos rindo do senhor... – respondeu uma funcionária no fundo da sala. – Foi um mal entendido, só isso. - concluiu. Seu olhar era irônico, suas desculpas não eram sinceras.

– Eu vou dizer o que é mal entendido. - exclamei com o dedo em riste. – Mal entendido... é vocês quererem saber da minha vida e debocharem de mim. Eu não tenho que dar satisfações sobre nada pra ninguém, muito menos pra vocês! Eu posso processá-las e, eu tenho certeza, que o seu patrão vai colocá-las na rua antes que o processo termine... – concluí e tornei a sair. Dessa vez não houve risinhos.

Hoje em dia as pessoas se interessam cada vez mais pela vida alheia. Tem gente que chega ao cúmulo de vasculhar o lixo dos vizinhos... Isso é realmente o cúmulo! Idiotas! Quem elas pensam que são para ficar rindo de mim daquele jeito? Nunca gostei de deboche. Talvez seja por causa disso que eu nunca tive muitos amigos, nem muitas namoradas. Para falar a verdade, eu acho que eu não tenho amigo algum. Nunca consegui trabalhar em firmas, e acabei me tornando design gráfico. Trabalho tranquilamente na solidão de meu quarto e c’est fini.

Aos treze eu tive uma crise nervosa na escola, cheguei a ser hospitalizado por algumas horas. Os caras mais populares da turma estavam me sacaneando – o que chamam hoje por bullying – e eu não sabia como reagir. Joguei minha mesa pro alto e fiz menção de ir na direção deles para agredi-los, mas desmaiei antes de alcançá-los. Continuei a ser a chacota da escola, o cara estranho que não parecia achar lugar no corpo em que Deus lhe encarnou, o sujeito retraído sem poder de reação. Mas o clonazepam que passei a fazer uso depois desse episódio e as consultas com o psicólogo, me tornaram insensível a esse tipo de coisa, e a mais um monte de coisa por aí.

Eu tive diversas crises nervosas depois disso, a última foi há cerca de duas semanas. Tempos atrás eu avistei minha mãe conversando com uma ex-empregada em um dos supermercados da cidade. Elas não me viram. A expressão das duas não era das melhores, minha mãe estava apreensiva, parecia não querer ser vista com a... Luzia... acho que era Luzia o nome dela. Eu a vi em outras ocasiões perto do meu prédio, acredito que morava ali próximo. Sempre foi muito cordial comigo.

Mas naquela quinta-feira, eu voltava do psicólogo – devia ser por volta das 17 horas – e entrava pela porta de serviço, que dá direto para a lavanderia do apartamento. Eu ia por a mão na maçaneta, mas ouvi uma discussão e parei...

– Lúcia, eu não vou te dar mais dinheiro, chega!

– Você é quem sabe. Eu sei tudo sobre o garoto, será muito simples abrir seus olhos...

– Você não se atreva... - ameaçou minha mãe, com um tom de voz cada vez mais inflamado.

– E porque não? É um direito dele! - argumentou a ex-empregada. Falava ironicamente, muito diferente do que eu a conhecia.

– Direito dele, ou não, isso é um assunto que cabe somente à nossa família! – retrucou, abaixando a voz repentinamente, chegando quase a sussurrar.

– Família... você é patética. Uma família montada em cima de uma mentira!

– Cale a boca! Era para você ter sumido, foi para isso que te pagamos!

– Ora, eu me arrependi...

– Depois de 23 anos? A única coisa que você quer é dinheiro, sempre foi por dinheiro...

– E quem não quer dinheiro?

– Nos deixe em paz... – disse minha mãe, sua voz se distanciou um pouco, depois tornou a se aproximar. – Tome isso. Acha que é suficiente desta vez para sumir para sempre de nossas vidas?

– Talvez seja, é muito dinheiro... mas sempre será pouco para pagar a ausência de um filho...

– O Márcio é meu filho!

– Ele não é seu filho e você sabe muito bem disso!

Abri a porta rapidamente, eu não podia ouvir mais... As duas assustaram-se, não souberam como reagir assim como eu aos meus 13 anos.

– Meu filho, eu posso explicar!

– Que história é essa? - perguntei transtornado.

– Adeus, Martha... boa sorte, garoto... – murmurou Lúcia ao cruzar comigo na entrada.

– O que essa mulher está dizendo...

– Fica calmo... – disse a senhora já com lágrimas nos olhos.

– Como vou ficar calmo? Como eu posso ficar calmo? Me explica essa história agora, porque eu não posso esperar mais... eu... eu...

– Meu filho, eu quero dizer que eu e seu pai te amamos muito...

– Chega dessa conversa fiada e esses sentimentalismos, não é hora disso! – gritei, gesticulando e ela chorou ainda mais. – Olha, eu não sou burro e ouvi muito bem o que ela disse... seja sincera uma só vez na vida! - esbravejei. – Isso é verdade, eu não sou teu filho?

– Márcio...

– Fala!

– Meu filho... eu...

– Fala logo!

– Não! Não! Não é... - respondeu ela aos gritos, enterrando o rosto nas mãos e desabando em lágrimas, desesperadamente. Eu teria pena dela se não tivesse tanta raiva.

Ficamos em silêncio por um breve momento, chorando. Eu não sabia o que dizer, não sabia o que pensar. Por segundos toda a minha vida passou diante de meus olhos, todos os momentos que vivi com meus pais, diversas situações... aniversários... festas... tudo uma grande...

– Mentira! Tudo uma grande mentira é o que é a minha vida! – esbravejei a plenos pulmões.

– Meu filho... apenas este detalhe, este fato... o resto, tudo é verdadeiro... nossos sentimentos, nosso amor...

– Cale a boca, sua vadia! - gritei dando um soco na mesa. – Vamos por tudo em ordem agora, somos dois adultos conversando... – disse tentando me recompor. Aquela mulher que eu jurava conhecer parecia que ia morrer de tanto sofrimento, mas eu já não me importava mais. – Para começo de conversa, não me chame de filho, afinal, eu nunca fui...

– Para! Para com isso, por favor, eu estou sofrendo demais!

– Está vendo é esse o problema! Nunca foi por mim, nem pelo Cléber, nem por aquela cadela que me vendeu... foi apenas por você. Tudo para realizar esse desejo de ser mãe... Dane-se o enjeitado e todo o mundo!

– Não foi assim... – balbuciou.

– Mas é claro que foi! Mas olhe, vocês estão de parabéns... – disse batendo palmas ironicamente – me enganaram direitinho... Eu sempre estranhei o fato de não haver uma foto sequer de sua gravidez, de não me parecer fisicamente com nenhum dos dois, de não ter o mesmo sangue... mas nunca... nunca pensei nisso...

– Não era para ser assim, meu filho! – tentou argumentar vindo em minha direção.

– Não me chame de filho! – gritei segurando fortemente em seus pulsos e impulsionando-a de volta. – Quantos sabiam? Mas que pergunta idiota, todos sabiam...

– Não, Márcio... apenas alguns da família...

­– Para com isso, cara! Você é burra? Um segredo bem guardado está apenas com você. Todos sabiam, menos o idiota aqui. Agora entendo os olhares, o jeito estranho que as pessoas falavam comigo... Merda! Merda! Deviam dizer: “Olhem só, lá vai o enjeitadinho...”

– Meu filho, fique calmo, nós te amamos... isso é só... é só uma fase... – tentava me persuadir aquela velha senhora de olhos vermelhos de tanto chorar.

– Para Martha, que você só se complica... – retruquei, limpando meu nariz com as costas da mão. Virei-me e segui para a saída.

– Não me chame assim... – pediu aos prantos enquanto eu abria a porta.

– Esse não é o seu nome? É assim que eu vou te chamar agora... – respondi enquanto caminhava pelo corredor. A velha caminhava atrás.

– Espere aí! Aonde você vai? – perguntou ao apressar o passo para me acompanhar.

– Sei lá... pra qualquer lugar longe da minha vida. Vou esfriar a cabeça...

– Espera meu filho, você está muito nervoso, não faça uma besteira...

– Eu não sou imbecil o suficiente...

– Espere! Vamos conversar!

– Eu não tenho mais nada para conversar com você... – respondi enquanto a porta do elevador se fechava.

Fiquei dois dias fora de casa. O suficiente para encontrar este apartamento amplo, arejado e realmente muito bom neste edifício cinza como a minha vida. E o aluguel nem é tão caro, dá para pagar perfeitamente bem com o meu trabalho.

Lembram o que eu falei sobre os cafés? Há sempre um interesse por trás de tudo, sejam com os cafés, com a TV, ou com as pessoas. Há sempre uma outra intenção, um outro motivo. Desconfie sempre. O mundo está se tornando uma caixinha insuportável cheia de gente cada vez mais individualista e egocêntrica. Nem mesmo o filho da mãe do Félix – um gato preto de olhos tão amarelos quanto misteriosos – está aqui porque me ama, mas sim por conveniência, porque há comida, um lugar quentinho para dormir e um humano para lhe fazer carinho de vez em quando. Mas pelo menos ele não reclama dos meus cigarros.

Aliás, gosto de cigarros...

25 de outubro de 2013

[205] Episódio Piloto: O reencontro

 
Acendi um cigarro de filtro amarelo e dei uma tragada profunda. Limpei as lágrimas restantes que me embaçavam as vistas e segui para a casa de Cátia, uma ex-namorada, uma das poucas que tive. Nosso relacionamento até que era bacana, falávamos com certa frequência pelas redes sociais. Eu gostava de estar com ela, me sentia querido, seguro, como em poucas situações eu pude me sentir. E eu precisava dela agora. Bati à porta do sobrado em que ela morava, num bairro próximo ao centro. Ela me recebeu com surpresa.

– Márcio? – surpreendeu-se ao abrir. Era uma mulata de 1,65m, mais ou menos, seios pequenos – muito pequenos – e coxas grossas e bunda arredondada. Os cabelos eram espessos e encaracolados, de cachos bem definidos pelo uso de cosméticos, os olhos, profundamente negros (que intimidavam), e um sorriso debochado em lábios finos e curtos.

– Sou adotado... – respondi cabisbaixo, evitando encarar seu olhar. Embora nos falássemos frequentemente, não nos víamos pessoalmente há quase um ano. Dizer minha condição foi a única coisa que pensei na hora, quando eu podia ter dito qualquer outra: “Posso passar a noite aqui?”, “Não me convida a entrar?”, “Oi! Que saudades...”.

– Como é que é? – indagou estupefata.

– Posso te contar tudo, se me deixar entrar. Está acompanhada? – perguntei, finalmente encarando-a. Meus olhos marejavam novamente.

– Claro, claro, entre logo. – respondeu franqueando a passagem para que eu entrasse. – Não, eu não estou com ninguém aqui... você sabe disso.

– Sei do quê? Eu descobri que sei muito pouca coisa... – disse ao parar no meio da sala e correr o olhar. – É... as coisas não mudaram muito por aqui...

– Não estou namorando. – murmurou ao se aproximar ternamente. – Você podia ter vindo há mais tempo...

– Foi você que me mandou embora, esqueceu? A minha ideia era não voltar mais aqui... – retruquei, ignorando a parte sobre seu relacionamento, quando fui interrompido.

– Mas voltou. Saudades?

– Senti... muitas... mas não foi por isso que vim aqui. Saí de casa...

– Quer dizer então que... o que você disse mesmo? Adotado? – perguntou franzindo o cenho.

– Você não sabia? – perguntei sentando ao sofá.

– É claro que não! – respondeu de pronto, mas não acreditei muito em sua sinceridade. Não sou muito de acreditar nas coisas e confesso que devo ser uma pessoa muito difícil de conviver. Foi isso que ela me disse quando me deixou. “Você é muito difícil de conviver... desconfiado, ciumento, encrenca por pouca coisa”, “É muito difícil para mim, poxa, eu gosto de você... mas não dá mais”. Mas eu sempre achei que havia outro cara nessa história.

– Fiquei sabendo hoje. Há uma hora e meia, mais ou menos... – disse friamente. Cátia sentou ao meu lado, com uma perna passada por baixo da outra, alisando meus cabelos.

– Caramba... que chato... Como é que foi isso? – perguntou. O cheiro de seu perfume começava a me excitar.

– Vou te contar... mas não agora. Estou precisando de um lugar para morar...

– Quer morar comigo? – indagou sorridente.

– Depois de um ano afastado? Será? – respondi sorrindo e cruzei os braços.

– Só depende de você...

– Nem estamos juntos...

– Isso também só depende de você... – disse e me beijou. Correspondi a seus beijos, um tanto contrariado, a princípio, não era isso que eu queria. Mas me era conveniente e continuei. Foi tudo muito rápido, meio animalesco, coisa de instinto. Em meia hora já tínhamos gozado, abraçados e ofegantes no sofá.

– Você tem bagulho aí? – perguntei enquanto arfava o ar, olhando para o infinito.

– Você tinha que estragar tudo, não é? – esbravejou ao levantar-se irritada.

– Eu deixei tudo na minha... digo... casa da minha... quero dizer, da Martha, e estou sem dinheiro aqui... – tentei me explicar, completamente atordoado.

– Eu já parei com isso faz tempo. Você não disse que ia parar, que tudo ia mudar e coisa e tal? – disse gesticulando de forma debochada, enquanto vestia a camiseta e a calcinha.

– Porra! Você acha que isso é fácil? Olhe minha vida como está. Me diz, como é que eu vou parar? – balbuciei me esticando para pegar o maço de cigarros na minha calça, próxima ao sofá. Bati a carteira e acendi um.

– E eu não parei? Isso é questão de força de vontade. Se você quer, você consegue... – disse ao sentar-se ao meu lado.

– Não é bem assim e você sabe muito bem disso. Agora chega de me dar esporro, porque eu não vim aqui para isso... – reclamei e dei uma longa tragada.

– Veio para trepar e fumar um bagulho...

– Tem como você dar um tempo? Você já disse o que queria, eu já sei, tenho que parar de me drogar, prometi e não cumpri, você me largou por causa disso e porque tinha outro...

– Eu não estava te chifrando, se é o que quer saber, seu filho da puta... – disse afundando o rosto entre as mãos, visivelmente chateada.

– É... minha mãe é uma puta mesmo... aliás, as duas... – desabafei e levantei-me, ainda pelado. Deixei-a sem graça.

– Err... me perdoe Marcinho... eu não... – desculpou-se, constrangida.

– Eu sei, você não queria me ofender. Eu não sou tão estúpido assim... – afirmei, ao dar outra tragada. – Você não tem um cinzeiro?

– Eu não fumo mais, Márcio. – disse ela se aproximando. – Não vai me contar o que aconteceu?

– Ainda não. – respondi secamente. Fui até à janela e joguei a binga fora. – Preciso passar a noite aqui, não tenho para onde ir... É só por hoje... Você me ajuda a encontrar alguma coisa para alugar?

– É claro que ajudo! Por mim, você fica quanto tempo quiser... – disse e me abraçou. Talvez ela fosse realmente apaixonada por mim, eu é que era um babaca mesmo, cheio de problemas. Nem eu gostava de estar junto comigo. Sendo assim, quem gostaria? Podia ser o caso de ela estar sentindo pena de mim. Odeio que sintam pena de mim. Sinto-me ridículo, vulnerável, humilhado... E mulher tem dessas coisas, possivelmente seja o espírito materno, a necessidade de cuidar de alguém frágil.

– Obrigado... – agradeci, entre os dentes e uma lágrima escorreu, sendo colhida rapidamente pelo indicador de Cátia.

– Vamos comer alguma coisa? Já está ficando um pouco tarde... – convidou carinhosamente, a fim de me distrair de meus problemas. Comemos lasanha, daquelas que vendem congeladas, aquela era uma das melhores marcas.

– O padrão melhorou, hein? – comentei com bom humor ao dar uma garfada.

– Estou trabalhando na casa de um bacana. Conhece? O Dr. Lobosco, aquele advogado... – perguntou afastando a comida para o canto da boca.

– O polêmico Dr. Bernardo Lobosco?

– Ele mesmo... – respondeu, o olhar parecia esperar minha reação, mas continuou. – E você? O que anda fazendo?

– Aquele mesmo serviço de design, ilustrações, logomarcas... dá para tirar um bom trocado. E não tenho ninguém para me dar ordens, o que é mais importante.

– Você não muda nunca...

– Mudar causa desconforto. Mudar para quê?

– E por falar nisso, vou buscar o notebook... – disse Cátia ao se levantar, mastigando, para pegar o computador. Abriu-o sobre a mesa e ligou.

– Caramba... esse cara paga bem mesmo. A geração mais moderna, wi-fi... – comentei com admiração pela sua prosperidade.

– O Dr. Lobosco vive na mídia pelos casos que ele pega, pelos artifícios que ele usa, mas não tem muito apego com dinheiro. É pródigo, gasta com o que pode e o que não pode, vive a esbanjar... – explicou com a boca cheia.

– Quando ele for mudar a logo do escritório, me avisa, está bem? – adverti sorrindo. Só a Cátia mesmo para me fazer isso.

– Olha aqui... achei um apartamento lá no centro, parece bacana para você: dois quartos, sala, cozinha, banheiro... – disse virando o aparelho para que eu pudesse ver melhor. – Até que é bonitinho. Veja, tem até a foto externa do prédio...

– Cinza demais, você não achou? – observei, depositando o talher no prato e afastando-o para frente.

– E o que não é cinza demais nessa cidade? – disse abocanhando a última garfada. – Não quer me contar mesmo sobre o que aconteceu? Vai ser bom para você... – persuadia-me ela.

– Você é curiosa, hein? – debochei com um esgar de sorriso, tentando disfarçar minha inquietude. Baixei o olhar, suspirei e continuei. – Não quer fazer um cafezinho para a gente?