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24 de setembro de 2013

[502] Em Portugal

Em Portugal



A alegria do reencontro, a nostalgia nas lembranças renascidas em cada canto da chácara, nos objetos - todos mantidos nos mesmos lugares -, nos cheiros adocicados das fronhas e dos lençóis, na paisagem vista da janela da sala onde vô Samuca ficava vislumbrando os colibris que vinham dançar, enquanto bebiam a água das flores de plástico penduradas na varanda. Tudo palpável aos olhos, resgatado pelos sentidos apurados da saudade.

O lado prático e real do inventário ficava relegado a segundo plano. Eu não queria saber de papéis, documentos mortos de vidas tão vivas ainda dentro de mim. Paolo, me observava sem palavras. Nada era mais acolhedor e carinhoso que aquele pai sentado na cadeira envelhecida, rangendo no ir e vir do balanço, ouvindo meus suspiros e ais de tristeza diante de tantas reminiscências. Uma mistura de Casimiro de Abreu e Drummond nos poemas sobre infância, abordados com uma mistura de inocência e realidade que me deixam com água na boca.

O telefone quebra o silêncio. Senhor José Manoel, advogado da família. Hora de uma verdade já esquecida: bens. Quem dera fossem mensagens além-Terra com notícias dos meus amores. Ri de mim mesma com tamanha bobagem.

- Sim, amanhã, as 10. Íris já está aqui faz três dias a esperar por tua ligação.

- Pai, diga ao senhor Manoel que resolva tudo o mais rápido possível, preciso voltar ao Brasil.

Saímos. Caminhamos em direção aos fundos da casa onde o poço, ainda ativo, pendurado o balde velho amarrado à corda, empretecidos pelo mofo, abandonados pelo tempo e pelo descuido. Ali, as flores coloriam as encostas e a horta de vó Eloah era motivo de, juntas, brincarmos entre os tomilhos, salsas, manjericões, alecrins... Ali aprendi o sabor das ervas e o amor à terra e ao trabalho doméstico, simples, diário.

Sentei-me ao seu lado no banco perto da grade do antigo galinheiro e, abraçados, choramos a ausência. Paolo, envelhecido, precisava de apoio, de companhia... O que eu faria para ajudá-lo? Difícil, abandoná-lo à sorte, deixá-lo sozinho naquele lugar quando tudo fosse resolvido.

- Pai, já pensou o que vai fazer quando eu voltar? Não quero vender a marcenaria nem a chácara, o senhor precisa de trabalho e de um canto para morar já que não pensa em deixar Portugal.

- Filha, se me deixares uma pequena morada, mesmo distante do campo, eu me arranjo. Não nesta casa. Podemos comprar algo mais simples, mais perto do comércio. Trabalhei na padaria de João. Lembra-te dele? Amigo do teu Wlad... – Percebeu meu espanto. – Perdoe-me, pequena, não deveria falar deste contigo, quanto mais neste momento de tantas emoções para ti.

- Não tem problema. Wladimir e eu nunca mais nos vimos desde a última separação. Foi um tempo difícil. Eu precisava estudar, queria crescer e virar mundo e ele só pensava na boemia e nas alegrias ciganas da estrada. Mas como está João? Me lembro dele quando estávamos ainda na escola, éramos tão crianças!

- Vida simples, querida. Assumiu a padaria do pai e casou-se. Tem dois pequenos. Dois e seis anos. Poderíamos fazer-lhes uma visita. O que acha?

- Como quiser. Amanhã depois da reunião do inventário, está bem pra você?

- Sim, estar contigo e te levar a passear sempre estará bem para mim...

Silenciamo-nos diante do descompasso de Paolo. Ele sabia que a minha volta ao Brasil seria uma separação inevitável porque me estabeleceria de vez aqui e ficaríamos separados, não para sempre, mas bem distantes por um tempo de não-sei-quando.

- Seria bom que você viesse comigo.

- Não daria certo morar perto de uma família que me desteta e me renegou ao casar com tua mãe.

- Sei lá, acho que Eva já o perdoou.

- Eva... Saudade de quando eu era pequeno e ela a cuidar de mim com tanto carinho. A diferença de idade a tornou um pouco minha mãe. Fiquei a chorar durante toda a cerimônia do casamento...

- Pai, por que não tenta um contato com ela. Telefona...

- Quem sabe um dia... Quem sabe um dia... – Saiu andando em direção à marcenaria.

[...]

Chegada a hora de resolvermos os problemas burocráticos de uma vida inteira de pessoas que tanto amei. Os bens materiais eram importantes, claro, hipocrisia dizer o contrário. Mas, no entanto, a situação óbvia da quebra de aliança entre mim e Paolo estava sendo prevista naquele instante em que o envelope se abria e o advogado lia o que já sabíamos. O que não havíamos pensado antes era na dor que sentiríamos depois que cada um fosse para seu lado e, se não nos víssemos mais, a eterna sensação do onde-quando-como, um do outro, o vazio do querer estar e o afastamento do não poder.

Terminada a reunião, a autorização da venda da chácara e da marcenaria. Os outros terrenos ao redor da chácara resolvemos deixar para depois. Não havia necessidade de vender tudo. Se Paolo não se acostumasse na cidadela onde João mora, poderia voltar e construir ali uma casinha para ele. Paolo é homem simples de campo... A cidade pode assustá-lo. A arte de trabalhar a madeira, fazer balanços, escorregas, cavalinhos, era herança da convivência com meu vô. Pouco tempo, mas suficiente para aprender a ser.

Chegando a casa, Paolo emudecido, cabisbaixo... Eu o abracei e, carinhosamente, comecei a beijá-lo e a rodá-lo pela sala. Brincamos. Eram cócegas e gargalhadas, corríamos pela sala como crianças até cairmos cansados no sofá. Um momento de alegria para espantar a certeza da separação breve, mas o fortalecimento de uma relação saudável que nos fazia família, uma família de dois, uma família que cabia num sofá, mas uma família.

A visita à casa de João ficara para depois.

Tempo de espera. Um tempo curto para organizar as coisas e reorganizar as ideias. Meu mundo se desfazia aos poucos para se reerguer em outras bandas. Logo estarei de volta. Meu apartamento simples no Edifício Cinza, minha escola, meus alunos, os amigos que me esperam, meus poemas...  minha marca em um lugar só meu.

5 de setembro de 2013

[502] Episódio Sete: Retornar ao ponto de partida? Necessário!




Naquele acorda-não acorda    
Um eu em mim declamava um poema.
Escutava-o, nítido.
A preguiça não me deixou acordar de vez
E a poesia, latente,
Ficou entranhada.
Tornou-se apenas minha.
Sinto-a tão viva!
Frustra-me a sensação de não poder compartilhá-la.
É o sentir poético do incomum,
O indizível da vida além vida,
O incontável mundo dos sonhos,
Um fazer poético egoísta.
Me desculpem aqueles que gostam da minha poesia,
Desta vez, nem eu mesma sei colocá-la em versos.
Intrínseca à alma, ela se guarda aqui,
Quieta, solene, minha,
Mas só pra mim.

Pensamentos em efusão. Envolvida, não ouvi os toques do celular. O número arquivado em chamadas perdidas: Paolo.

Meu padrasto querido. Foram seu jeito despreocupado e sua irresponsabilidade com a própria vida, motivos que me levaram ao afastamento, mas o amo muito.

Saudade? Curiosa... Retornei. Valeu a demora... O doce “Alô” do outro lado da linha, a voz mansa de Paolo, me deixou emocionada.

- Querida! Estou a te telefonar! O inventário dos bens da família de tua mãe está por sair e tu tens de estar aqui, minha menina.

- O quê? Impossível. Estou em greve na escola pública, mas dou aulas de projetos vestibulares. Trabalhando muito nessas oportunidades que me apareceram. Não há como sair do Brasil nesse momento. Quem sabe em janeiro.

- Mas só a minha menina pode resolver questões burocráticas. Shakira e Eloah não tinham outros dependentes, só Íris, e só Íris pode resolver tudo por aqui. A casa, a marcenaria, o dinheiro do banco. Eu vivo na casa e trabalho na marcenaria, mas tudo é teu! Não quero nada. O que há pode ajudar-te. Precisas te organizar, vender se quiseres, mas tens de vir para cá e receber o que é direito teu por herança.

Em instantes toda minha vida como um filme... Recordações, saudades. Ficamos um tempo conversando e, quando desliguei... Hora de resolver problemas!

Portugal me chamava...

Pedi a uma amiga que me substituísse nas aulas dos projetos e tomei as providências necessárias para embarcar o mais rápido possível para a minha terrinha...

Coração em ansiedade plena! Retornar ao recanto mágico da infância. O cheiro da vovó entranhado na casa e em tudo. Ela era a casa. O ecoar do assobio do vovô. Ele era a alegria da casa. A tristeza escondida, meiga e terna da minha mãe. Ela era a minha essência.

No baú que comprara em um brechó - junto a tantos outros objetos e móveis que venho organizando, limpando, pintando -, o lenço. A foto...


A vela era o início do presente preparado para o seu pai.

Na chácara, quando vô Samuel fez 65 anos, uma festa alegrou família, parentes e amigos. Muita música, comilança – meus avós sempre diziam que era melhor sobrar do que faltar e acabavam exagerando e fazendo tanta coisa que parecia que todos da cidade seriam convidados.

A dança cigana foi um dos resgates culturais que, quando jovem, influenciada por histórias sobre a vida cigana, contadas por Eloah que lhe dava força para não desistir nas primeiras dificuldades, minha mãe retomou.  

Após assoprar a vela, pandeiros, leques e flores tomaram conta do espaço. O colorido das rendas, dos bordados, das fitas presas às mãos. Xale nas costas, lenços na cintura...  Mãe Shakira, ao som de violões, violinos e acordeom, dançou como nunca! Ia de um lado a outro, encantava. Rodopiava. A saia rodada dançava com ela. As mãos e os braços em um “dar e receber”, palma da mão à mostra para os convidados. Os braços se abriam, como se abraçassem o mundo.  Era som e brilho, um espetáculo para o vô, homenagem a quem a fez uma mulher realizada.

Ficam a casa, os trabalhos, a reforma... Estou embarcando para acertos de vida passada e futura. Até breve.

21 de agosto de 2013

[502] Episódio Seis: O Passarinheiro

Paolo, o pai que procuro não é você. Tenho o seu carinho e me lembro de seus conselhos, de suas histórias...
Paolo, o meu amor trazido de fora da carne para dentro do coração. Quando se casou com minha mãe, abraçou-me como sua...

Lembro-me de seu jeito descompromissado, um tanto alienado, um cuidador de passarinhos...


MEU PASSARINHEIRO

E lá vem ele, com pássaros raros, radiante, encostado em um canto, cercado por suas gaiolas belíssimas, vendendo ilusão. Enquanto espera, pensa... Pensa se sabe pensar...

Não adianta esconder o que está à vista: o cansaço, o desalento, a acomodação, o desânimo, a tristeza da alma contida em um corpo trincado, trancado, trocado pelas emoções conturbadas.

Não adianta pensar se não fizer acontecer. As orações muitas vezes parecem vãs e a vontade de fugir surge, e a força externa do mundo sobressai ao eu, engolido pelo desejo, pelas vontades de fazer o que não se pode em função de...

Passa-se o tempo e este tempo parece curto para a desculpa do não fazer. A fuga se engrandece e fica nas palavras o que deve ser... E não se faz... E não se modifica em alegria o que incomoda o espírito tumultuado em fase de busca...

A lamentação passa a ser o primeiro comportamento da falta do movimento de mudança, e o medo o acompanha. Por quê? Talvez porque a transformação seja inútil, ou improvável, ou impossível...

O meio termo não é suficiente e o fazer se torna utópico diante dos olhos do querer... Cai na apatia e entrega-se ao seu dia-a-dia sem graça e por obrigação. O corpo amolecido entorpece e embebeda a vontade de... e no marasmo em que se encontra, digere o tempo de não viver.

Questionar é um começo, mas não é a solução. O aprender é uma forma de tentar, mas não é nada se a prática não acontecer. Imediato seria o momento da mudança para apagar a angústia que toma conta do peito e cala a voz que grita, interna, e mata aos poucos a esperança de ter, ainda nessa vida, uma felicidade real e um pouco mais duradoura.

E o tempo compartilha com o não-fazer e apaga o desejo de querer transformar, e ser, e viver, e... o que parece fácil diante de outro olhar...

Não se mede a dor da inércia... E o choro contido se retrai, as lágrimas engolidas esperam a hora de, trancado no quarto, se permitir sentir o que é repreendido, inaceitável, incompreendido...

[...] [?] [...]

E lá vai o passarinheiro, mais uma vez, quando o choro se esgota, a alma se convence da passividade, vendendo a liberdade, trancada em gaiolas, perdido pelos cantos dos curiós, bem-te-vis, sabiás...



Meu Paolo, como estará você? Vou procura-lo. Ligarei mais tarde. A saudade abrandará e ouvir sua voz será um alívio para as minhas preocupações.

17 de agosto de 2013

[502] Episódio Cinco: Greve dos professores




Escola em greve. Manifestações nas ruas. Dividida entre a luta por melhores condições de trabalho e a espera dos alunos pelas aulas que não têm. Participo das assembleias. Há momentos em que a revolta e a vontade de desistir são grandes. Os vandalismos vêm se tornando cada vez mais frequentes e o movimento perdendo sua força. Muitos amigos enfrentam a polícia agressiva que se faz boazinha e abusa de sua condição de autoridade.

Ontem, um silêncio incômodo tomou conta da avenida onde os professores se encontravam. Calados, andávamos em filas organizadas em direção ao palanque em que alguns líderes nos esperavam juntos com artistas e repórteres que apoiam e valorizam o evento. De repente, os PMs interromperam a caminhada, bloqueando a rua, impossibilitando-nos de prosseguir. Não havia gritos nem qualquer tipo de pronunciamentos, estávamos como em procissão.


Ao fugir da confusão armada pela arbitrariedade policial, fui atingida nos olhos pelo spray de pimenta. Cega e com muitas dores, corria de um lado para outro sem destino certo, até que fui arrastada por alguém até a portaria de um prédio onde fui socorrida. Nada mais ardia do que a covardia que corroía os brios de quem sabe de seus deveres e deseja ter, garantidos, seus direitos.

Passaram leite em meus olhos e os lavaram com soro. Sem enxergar por um bom tempo, tomada de aflição e rebeldia, queria sair dali e seguir, mas não conseguia. Pessoas generosas me acudiram, tentavam me acalmar os ânimos e me perguntavam onde eu morava, com quem eu estava, se queria que me levassem até a casa...

Eu, atordoada, pensava nos ensinamentos de minha vó. Aprendi o respeito como base de uma sociedade justa, solidez de um vínculo de confiança... Minha Eloah era sábia, mas naquele instante, tudo que me ensinara parecia em vão. Eu, em passeata, respeitava os limites da cidadania participativa ativa, porém ordeira, agia de forma civilizada e fui abatida pela ignorância de um poder autoritário que se diz democrático.

Ouvia o espocar das bombas e me recordava, também das histórias do meu vô Samuel sobre as fugas hilárias e sofridas nos tempos da guerra. Sentia-me em um campo de batalha, perdidamente só, entre companheiros pacifistas que se preocupavam em ajudar sobreviventes. Órfã, engolindo meus ideais, digerindo, à força, tamanha estupidez.

Recuperada, agradecida aos que ficaram ao meu lado e me acolheram, retornei ao meu ninho, onde descanso meu corpo, abrigo minha alma, mantenho-me protegida dos pensamentos e lembranças maléficos aos meus sonhos de uma educação pública de qualidade, de alunos pensantes, de uma aprendizagem centrada em significados reais à vida de quem precisa saber ler o mundo, encontrar meios de compreendê-lo e transformá-lo. Veio-me à mente as palavras de Paulo Freire.

“Os opressores, falsamente generosos, têm necessidade, para que a sua "generosidade" continue tendo oportunidade de realizar-se, da permanência da injustiça.”

 Logo, um bom banho, um leite quente - Ih! Nem falei: comprei um micro-ondas! - e minhas orações me trariam à calma novamente...


O meu colchão me aguardava, e no sono dos justos, o descanso. 

Amanhã? Deixei que o alvor do dia brilhasse em minha janela antes de qualquer pressuposição ou planejamento. Quem sabe despertaria animada e retornaria às assembleias em prol do retorno às aulas. Os alunos precisam de seus professores presentes para que possam entrar e contato com o sabor do aprender.

12 de agosto de 2013

[502] Episódio Quatro: Saudade


Quero o cheiro do jasmim exalando pelo ar! O gosto da carambola, mordida com força, apetitosa, e o suco azedo a escorrer pelo canto da boca cheia de prazer por apreciar o macio da polpa amarelo-esverdeada da fruta de vez tirada do pé. O abio! O jamelão! As mãos molhadas, tingindo de infância a roupa de algodão...

Quero ouvir o latido do cachorro Bob chamando pra brincar de correr pelo quintal... O cantarolar da velha Doralice, negra de pele brilhante, gorda, bonita e sestrosa, enquanto cozinha, na lenha, o doce de jenipapo... O grito da araponga... O falatório do papagaio... O som do passarinho que sai do relógio da sala de estar...

Quero ver o beija-flor parado me admirando a admirá-lo na janela do sobrado... Espiar os moços bonitos que passam na rua do mercado em frente à casa da vovó... A banda tocando marchinhas a caminho do caramanchão da praça todos os domingos... As crianças na rua... Os pregoeiros nos portões, oferecendo o que sempre falta na hora de preparar o jantar...

Quero o sossego das tardes de outono... O brincar na rede amarrada a duas árvores do quintal... Sentir o chão de terra batida nos pés descalços a percorrer o jardim nas tardes quentes de verão... O colo da mãe da mãe Eloah que tanto me falta... A atenção, mesmo desmiolada, de Paolo, aquele pai-padrasto sempre presente... O carinhoso abraço da Shak... Deixar-me sentir saudade daqueles que não se afastam dos meus pensamentos...

Quero o querer sempre até não poder querer mais... Quero sentir o coração acelerar e o pulsar ansioso do não pensar... Quero a espontaneidade do fazer... Quero a despreocupação do saber ter que ser... Quero poder fazer o que desejar... Quero a saudade nostálgica do que na memória está..


10 de agosto de 2013

[502] Episódio Três: Vazios do coração



As paredes pintadas, pouco a pouco, vão dando vida ao apartamento. Um colchonete, umas roupas de cama, alguns livros, meu notebook e minhas malas... os únicos objetos que tenho no momento. As mobílias virão um dia...


Há coisas minhas guardadas na casa de Eva...    

Largo o pincel, abandono por instantes as tintas, os rolos, a aguarrás... Penso nela. Penso em Eva Nigri, irmã do pai adotivo de minha mãe! Pessoa que muito nos ajudou, reconheço, mas, até hoje, através de seus comentários maliciosos a respeito da vida de Shak, me deixa com uma sensação de obrigação emocional doentia pelo que fizera. 

Eva era bem mais nova que meu vô Samuel. Casada, com uma família bem estruturada e financeiramente equilibrada, primeiro trouxe minha mãe e a ajudou muito.  Shak cursou a universidade de Belas Artes, se formou, mas trabalhou para a tia como forma de colaborar nos trabalhos domésticos e poder garantir sua sobrevivência, já que seus pais não podiam mantê-la aqui no Brasil.

Passado um tempo, Eva me trouxe, de certa forma me afastando da tristeza em que se tornou a chácara lá em Portugal depois das mortes subsequentes da vó Eloah e da minha mãe. Mas me separando também de Paolo, meu padrasto, irmão dela que, ao se casar, deixou certa amargura na família.

Volto aos pincéis... Não quero pensar nisso porque não me faz bem. Traz-me a lembrança do preconceito enfrentado pelos dois, o que vivenciei bem de perto aconchegada aos carinhos e encantos da minha vó quem eu considerava como minha mãe de verdade.


Envolvida em meus pensamentos não consigo pintar o rodapé. Ali, a lata de tinta branca. A mesma tinta respingada pelo chão, escorrida na porta, deixando aparente a minha inexperiência na arte de pintar paredes. O pano ressecado e endurecido, embebedado de removedor, uso para limpar toda aquela sujeira. Tudo para desprender-me daquele tempo que teima em não e deixar em paz.


Levanto e vou à janela. Lá vem a consciência novamente atentando meu juízo: “Há um ano resolveu sair da casa de Eva e ir morar sozinha, mas foi ela quem lhe deu a oportunidade de estar nessa cidade e refazer sua vida”. Olhei para a lua daquela noite calorenta...

Não poderia deixar de lado o que minha mente acirrava e acendia naquele instante. Não havia como continuar vivendo em um lugar em que os desentendimentos familiares iam se tornando mais frequentes e tanta amargura guardada, todo aquele disse me disse rancoroso, nada mais fazia sentido.

Cada um faz de sua vida o que considera bom para sua vida. Concorda? E quem sou eu para julgar se o que Shak e Paolo escolheram para eles teria sido bom ou ruim... Garanto que, mesmo distante, sabia que eles eram felizes.
Não procuro Eva que também não me procura. Mas tenho maior apreço pelo que fez e sei que preciso superar as barreiras da vaidade e do orgulho para rever esse sentimento que, às vezes, me corrói e me entristece, deixando-me ainda mais solitária do que já sou.

Prefiro, no momento, dizer-me só, assumindo a solidão íntima que me acompanha desde que nasci.

O apartamento... Ah! Está quase todo pintado, o chão eu limpo rapidinho... E é certo: nem muitas mobílias ocupam os vazios do coração.

8 de agosto de 2013

[502] Episódio Dois: CHEGANDO...



Quando o coração se aquieta,    
A alma tranquila se sente em paz.
Seus domínios voltam ao seu poder de ação,
Suas ações se tornam mais coerentes,
Terminam os transtornos mentais.
Inicia-se uma nova jornada.

Agora mais forte o espírito enfrenta,
O corpo aguenta,
A mente rapidamente se refaz.
E os tormentos deixam de ser dor,
Passam a novas aprendizagens
E os sonhos renascem.

Instalei-me em um albergue - triste, frio, sujo, sem identidade – logo que desembarquei aqui nessa cidade. Ali permaneci até encontrar um canto onde eu pudesse estar tranquila e sem medo...  Medo do perdido, da carência, do inesperado, do novo, do tudo.
Pássaros formam ninhos para aconchegar filhotes e protegê-los... Eu, em minha nova casa, busco uma referência física e emocional, vínculo indispensável a uma vida simples; quem sabe, entretanto, cheia de alegrias futuras. Sem traumas, sem exageros, sem lembranças nostálgicas nesse momento em que o importante é reaprender a ser.
Vida! Restaurá-la, traçar caminhos diversos, carregados de cotidiano, rotinas comuns, dessas que fazem a gente perceber que, por perto, está a felicidade, mas dela não nos damos conta por ser tão natural... Ela quando só se torna perceptível no instante vazio da perda, da ausência, da falta...
Dentre tantos desejos incrustados no coração, um particularmente arde, e com ele muito me importo: a procura de meu pai Daniel Posteur - ainda jovem jornalista, apaixonou-se por minha mãe e, por circunstâncias adversas às suas vontades se separaram.
Conheci o Edifício Cinza por intermédio de uma moradora, Mirella. Encontrei-a rapidamente em uma fila de metrô e, com esse meu jeito falante de puxar conversa, comentei sobre a minha urgência em encontrar um lugar pra morar.
Procurei o edifício, como me aconselhou a moça, mas, quando lá estive, não havia ninguém que pudesse me dar qualquer tipo de informação. Deixei um recado sob a caixa de correio. Um escrito, quase “crônico” – Crônico, genial! - Quem sabe Mirella ou outra pessoa qualquer o lesse e entrasse em contato.
Foi o que aconteceu. Recebi um e-mail: 
"Olá, Íris. Sou corretor de imóveis e encontrei seu recado à porta do Edifício Cinza. Fico feliz em lhe dizer que temos um apartamento vago no 5º andar, o 502. O espaço é pequeno, mas bem distribuído em quarto, sala, cozinha, banheiro e uma pequena área. Caso ainda tenha o interesse, envie-me uma resposta." 
Sobressaltada, tomada por uma alegria que há muito não sentia, soube de imediato: aquele seria meu canto, meu recanto recôndito, esconderijo do vento inesperado, das tempestades assombrosas e malqueridas... Meu ninho, meu aconchego cinza em paredes esburacadas, chão sofrido, mas nada que uma boa limpeza e ligeira pintura não resolvam.
E cá estou...

Agora com endereço certo posso receber cartas e amigos. Cartas sim! Amo as palavras escritas, marcadas em versos ou em prosas, mas com identidade própria, registros que serão guardados e poderão ser lidas e relidas... Papéis e palavras, grandes companheiros meus.


Sobrevivo à ideia de ter-me como companhia e a companhia dos meus sonhos - dos mais inocentes aos mais profanos. Sonhos que permeiam vidas pretéritas e as de agora. Sonhos que me embalam e me assustam. Sonhos que me impulsionam ou me deixam em apatia extrema... 
Mas sonhos, sempre sonhos!

6 de agosto de 2013

[502] Episódio Piloto: Sou Íris, apenas Íris.


ÍRIS

Eu, Íris Sinah, não tenho família nem amigos aqui. Passei em um concurso público e vim lecionar literatura para o ensino médio em uma escola estadual. Descendente de ciganos, meus bisavós viveram muito tempo da Índia, terra dos meus tataravós. Nômades, sem rumo certo, outras gerações chegaram à Polônia e terminaram na Alemanha. Terminaram mesmo, porque a maior parte da minha gente morreu na guerra, nas câmeras de gás nazistas.
Shakira Sinah, ainda bebê, fora entregue a uma senhorinha judia no momento de seu embarque clandestino para Portugal. Shak, como era chamada carinhosamente por todos, minha mãe. Morreu faz dois anos e, ainda em seu leito no hospital, contava às enfermeiras e aos médicos sua vida com Eloah kraiser, minha avó, quem a adotou e a criou como filha querida.


Falo com o meu silêncio rouco o que os meus olhos e o meu sorriso não conseguem exprimir.
Faltam-me, mais uma vez, as palavras - companheiras de alegrias loucas e mentiras tolas, em imagens transcendentes que brilham no escuro do quarto, quando a insônia teima em não me deixar dormir.
Cresce-me a alma, enquanto o surdo momento, pouco, se mantém constante dentro de mim; uma ausência que me faz embebedar-me de sonhos, entorpecer-me de lembranças mortas decompostas em fatos e fotos daquele álbum velho esquecido na estante do quarto de vestir.
Surge, assim, a vontade louca de gritar a vida... Toda vida que me resta... Desvendar o segredo, caro, raro, de saber desejar-me inteira para entregar-me ao prazer de ser e encontrar a paz nos fatos e nas fotos que estão por vir.