31 de julho de 2013

[403] Episódio 10: A Viagem



O dia amanhecera cinzento como de costume.

Era ainda muito cedo quando Mirella fechou a porta de seu apartamento e desceu as escadas do prédio carregando sua mala e toda sua expectativa, indo em direção a um passado indecifrado.

Precisaria pegar o metrô até a Rodoviária. Faria sua viagem de ônibus, já que perdera seu carro por conta das dívidas que fizera em seu último relacionamento. Luis era um homem muito persuasivo.

Naquela hora da manhã, as estações mais pareciam formigueiros. As pessoas se acotovelavam e empurravam em busca de espaço. Acostumara-se a este inferno matinal desde que passara a fazer seu percurso para o trabalho usando o metrô.

 A tempo, Mirella chegou à rodoviária.

O ônibus seguia em velocidade permanente.  Mirella observava pela janela o caminho que, feito tapete vermelho em grandes estreias, se desenrolava diante de seus olhos. A faixa amarela que dividia a estrada avançava a cada quilometragem hipnotizando-a. O pensamento não acompanhava aquela movimentação e era mais rápido que a sua vontade. Impossível fazer aquela viagem sem reviver lembranças do passado, reminiscências que ela sabia o quanto feriam-na por dentro.

Lágrimas irreprimíveis escorriam pela face de Mirella. Estava sozinha naquela empreitada.

Queria paralisar seus pensamentos. 

Nessas horas, valeriam aqueles cursos de meditação que tanto procrastinara  Lembrou-se então do Frei, um rapaz tão jovem e tão cheio de sabedoria, que morava em seu prédio, e daquele encontro casual onde velas e fósforos foram motivo para longos papos.  Ele lhe falara de sentimentos e experiências que tocaram profundamente suas mágoas. O que ficou guardado no inconsciente de Mirella, agora, diante daquela viagem com promessas catárticas, parecia querer revelar-se.

Precisava relaxar.

Era um longo percurso e ainda tinha muito chão para rodar.

Conseguiu ler um pouco durante o dia. O ônibus faria uma única parada para o almoço e depois seguiria viagem noite adentro. Seria uma noite interminável para ela!

Acabou por adormecer.

Acordou várias vezes durante a noite por causa dos pesadelos. A última vez que tentou dormir, o céu aclareava em cores douradas e alaranjadas no horizonte.

O ônibus adentrou a cidadezinha logo ao amanhecer.

As ruas secas e empoeiradas já não existiam mais. Para surpresa de Mirella, havia no lugar da enlameada rua principal, paralelepípedos, calçadas e uma pequena alameda com arvorezinhas recheadas de flores amarelas e postes de luz de cimento, e não mais os de madeira podre que ameaçavam cair a qualquer momento. Definitivamente aquela não era a cidade que Mirella cresceu e para qual deu as costas. É bem verdade que alguns comércios ainda estavam intactos. Mas percebia-se o progresso alcançado e bem chegado àquela população. 

Houve um pequeno sopro de contentamento. 

Quem sabe até de esperança.

O ar estava diferente. Mirella estava diferente. Tudo estava diferente

Ninguém a esperava na rodoviária. 

Preferiu não deixar marcada data de chegada.

Conseguiu um táxi para chegar ao sítio onde seus pais moravam. Um lugarzinho simples e bucólico, afastado do centro, onde criavam galinhas, patos e cultivavam uma pequena horta no fundo do quintal. Desceu do táxi e não precisou de muito tempo para que as lembranças da infância renascessem em sua memória; o cheiro de cocô dos patos e das galinhas era inconfundível e, para ela, insuportável.

Sentiu ânsia de vômito.

Passado o primeiro impacto, foi logo entrando pela porta da frente que vivia aberta. Percebeu que, apesar do progresso ocorrido na cidade, o mesmo não acontecera ali. Tudo estava exatamente igual desde a última vez que olhou para aquelas paredes. Uma casa de tijolos aparentes, caiada e, apesar de pobre, extremamente bem cuidada. O cheirinho do café feito no coador de pano parecia diferenciado. Foi absorvida e abduzida pelo mesmo. Deixou a mala na sala e foi direto para a cozinha, onde avistou uma senhorinha mediana muito franzina, com um coque preso no alto da cabeça, uma das mãos segurando uma chaleira de alumínio que jorrava água fervente no coador de café apoiado sobre a pia. A outra mão segurava a cintura, formando uma asa em conformidade com o bule.

Mirella ficou por alguns segundos observando a cena, só despertando do transe quando ouviu um grito. Sua mãe, ao se virar, assustou-se com a presença dela e acabou por deixar cair o bule no chão, derramando o café.

Os olhares se cruzaram por segundos e Dona Miriane, sem saber ao certo como reagir, enxugou algumas gotas de lágrimas que escaparam de seus olhos limpando-os com as costas das mãos, tentando disfarçar a emoção. Baixando a cabeça mais por humildade que vergonha, logo pôs-se a pegar um pano para limpar o descuido. Mirella segurou a mão de sua mãe e, sem precisar dizer qualquer palavra, abraçou-a carinhosamente. Não imaginava o quanto ela havia envelhecido e o quanto aquela vida a maltratara. Apiedou-se e, mais do que esquecer um passado de rancores e palavras duras, brotou em seu coração um amor incondicional que, ali mesmo, naquela cidade, um dia, matara por questões mesquinhas e infantis.

Há muitos silêncios naquelas vidas...













"O tempo não só cura, mas também reconcilia.”(Mih Baldi)

25 de julho de 2013

[505] Episódio 7: Com quem fica o cachorro? (parte 2)

(Leia a parte 1 deste episódio aqui)

A felicidade de Monstro irradiava. Ele estava feliz, nós estávamos felizes. Os dias se passaram e Monstro ganhou todo nosso carinho. Estávamos adaptando nosso cotidiano ao nosso novo morador aos poucos: ele ganhou seu cantinho na casa; tinha sua caminha, ração e água. Fizemos uma escala para levá-lo para passear. Marina até se esqueceu de baladas e homens por um tempo. Mesmo em segredo, fiquei satisfeito.

Os problemas começaram cerca de um mês depois. Monstro fez xixi na porta de uma vizinha do andar debaixo. Dona Mirella não reagiu muito bem a isso, mesmo eu tendo voltado para limpar alguns instantes depois. Fiquei com medo de ouvir umas poucas e boas do síndico, mas isso não aconteceu.

Eu, enterrado num mar de provas da faculdade, ficava trancado em casa, estudando. Quase não via Marina, como era de costume, e Monstro era minha única companhia. Me afeiçoei demais àquela criaturinha feia. O chamamos de Monstro por ele ter uma deformidade no rosto. Acabamos por descobrir com a idealizadora da feira que seu rosto era daquele jeito devido a maus tratos e agressões de seu último dono. Aquilo me fez pensar: uma pessoa que faz isso com um pobre animal indefeso; o quanto será que ela é feia por dentro?

Até que aconteceu.

Um dia Marina chegou a casa, fazendo muito barulho. Monstro começou a latir. Eu acordei assustado. Encontrei-a ainda perto da porta, apoiada na parede. Estava visivelmente bêbada.

— Sai daqui! — ela gritava pra mim.

Tentei ajudá-la, mas ela me empurrava e me socava com o pouco de coordenação que o álcool não inebriou.

— Sai daqui! Você é um idiota! Eu te odeio!

— Marina, para com isso! O que houve? O que eu te fiz?

— Você não fez nada. Você nunca faz nada. Essa é a merda do problema!

Não tinha entendido muito bem, até que ela tentou me beijar. Afastei-a, enrubesci e vi lágrimas se formarem em seus olhos. Seu olhar fixou-se no meu por alguns instantes, até ela sair correndo, desajeitada pela casa, para vomitar no banheiro.

Me sentia o pior dos seres humanos por ter provocado o estado deplorável no qual encontrava seu coração. Me sentia insensível por nunca ter percebido. Teria mudado alguma coisa se eu tivesse percebido? Poderia eu corresponder se soubesse o que ela estava sentindo? Por que eu era tão frio?

Cuidei dela. Ajudei-a a entrar num banho gelado, lhe ofereci um café bem quente. Ela, sem coragem de proferir uma palavra sequer. Eu nem ao menos conseguia encará-la nos olhos. Acordei no dia seguinte sozinho na casa.

Ela havia ido embora, sem deixar rastros. Sem falar nada. Sem deixar ao menos um recado. Monstro também não estava lá. Ela foi embora e levou o cachorro. E eu estava sozinho naquela Cidade, pela primeira vez. O apartamento parecia maior e qualquer passo que eu dava ecoava pelas paredes. Não é fácil se acostumar com a solidão. Apesar de sempre ser solitário, tinha em minha mente a ideia de ter alguém por perto. Agora era só eu por mim mesmo.

Uma semana se passou. No meio da madrugada, ouço minha campainha tocar. Algo arranha minha porta. Quando abro, vejo Monstro olhando para mim. Pendurado em sua coleira, as chaves reserva do apartamento. Ao seu lado, no capacho, um envelope.

Abri. Uma simples mensagem numa bela caligrafia dizia:

"Não há ninguém melhor para ele do que você. Ele sente saudades."

Olhei ao redor mas já não havia mais ninguém.

(Anos depois descobri o amor. Apesar de meu medo, apesar de só ter conhecimento da parte teórica através dos livros e filmes perdidos neste apartamento, me joguei de cabeça, arrisquei, e fui correspondido. Lutei por Sara e afeiçoei-me a Daniel. Mas o destino me reserva grandes surpresas.)

22 de julho de 2013

[403] Episódio 9: A Filha Pródiga

"Ando cansada de muita coisa."

Pensava Mirella ao sentar-se em seu sofá, na sala, e deixar cair no chão uma carta. Acabara de desligar a TV onde os jornais anunciavam as confusões e vandalismos que vinham ocorrendo na Cidade.

Continuou em suas divagações.

"Quando me vi aqui, nesta Cidade, minha intenção sempre foi a de recomeçar.  Esquecer e recomeçar. Acreditava que depois de tantas andanças poderia esquecer meu passado e recuperar minha lucidez. Durante muito tempo vivi uma vida desgovernada. (Essa palavra vem bem a calhar neste momento). De que me adiantou essa constante preocupação em mudar de endereço se o passado, feito um parasita, me acompanha onde quer que esteja?

"Ando cansada do meu emprego, dos meus pensamentos, de mim mesma. Dessa forma de me governar; preciso protestar e gritar. Quem sabe fazer um quebra-quebra geral dos meus conceitos, regras, sei lá. 

"Que vida é essa que levo?

"Nada de amigos, de vida social. Vivo na tríade: Trabalho-casa-trabalho. Sempre imaginei que depois dos 40 anos estaria com minha vida estabilizada, um companheiro ao meu lado e usufruindo das facilidades que este tipo de vida proporcionaria. Quiçá um cartão de crédito pago!  E o que tenho? Dívidas, solidão, insônia e mais inquietações.

"Quem pode ser feliz assim? Pelo menos consegui me livrar do vício do cigarro.

"Caminhos bifurcados, escolhas erradas.

"Ando muito cansada de tudo."

Levantou-se e recuperou a carta que estava no chão. Fitou-a como se a lesse maquinalmente. 

Em plena era da informatização, Mirella recebia uma carta escrita à mão. Logo que a viu no escaninho das correspondências pode averiguar que se tratava de notícias de seu passado. 

Andando pela casa, sem rumo certo, releu a sentença: “Mirella, seu pai está morrendo. Em seus delírios chama por seu nome. Está confuso. Consegui seu endereço com o Bentinho. Ele veio por aqui visitando a família. Por favor, tente esquecer o que passou e venha ver seu pai. Não sei quanto tempo ainda ele fica vivo. Sua mãe.”

Ao acabar de ler aquelas palavras escritas em um papel tão chinfrim e com uma letra trêmula de quem se aventurava a escrevê-las, percebeu que estava no banheiro, em frente ao espelho. Apoiou as mãos na pia e fixou o olhar apertando os olhos como se quisesse se reconhecer.

O tempo, implacável tempo!

Onde estavam aquelas sardas que a deixavam com cara de menina apimentada? E os seios minúsculos que teimavam em brotar por baixo da camiseta? Onde achar o brilho daqueles olhos cheios de inocência e sorrisos cheios de graça e alegria?

Ficaram nas recordações de uma infância tranquila que não premeditava uma adolescência conturbada.

Sempre fora uma criança agitada, travessa, esperta e cheia de questionamentos. Seus pais, pessoas muito simples e de pouco estudo viviam sem respostas para suas perguntas, o que aumentava sua angústia em querer descobrir o mundo. Essa ânsia de saber crescia paralelamente a sua beleza física. Na adolescência, quando seu raciocínio era mais lúcido, se assim se pode afirmar, tudo piorou. Percebia que aquelas pessoas de sua cidade não lhe entendiam e não acompanhavam seus pensamentos. Não como ela imaginava. Vivia às turras com seus pais. Era filha única, o que piorava a situação. Tivera um irmão mais velho que morreu ainda jovem. Mirella era muito criança quando isso aconteceu e por isso não se lembrava do irmão, a não ser pelas poucas fotografias que existiam na casa. A morte dele estava envolta em mistérios que ela nunca conseguiu descobrir. Parecia que havia um pacto de silêncio entre seus pais e aquela cidade. Eles decidiram enterrar o assunto junto ao túmulo do filho de forma que nunca mais se ouviu falar nada. Mas Mirella, em sonhos, muitas vezes via seu irmão. Terrível como só ela era, exagerava, e dizia vê-lo pela casa andando feito zumbi. Quando comentava tal feito com os pais, os mesmos ficavam apavorados e queriam levá-la para a igreja para que o padre a exorcizasse. Mirella fugia e se escondia até que passasse a ira deles. Nestas horas, ela contava sempre com Bentinho, seu melhor amigo, que lhe dava cobertura. 

Passou então a esconder muitas coisas. Cresceu rodeada de gente preconceituosa e ignorante.

Mirella passou a viver em mundo paralelo.

Ao atingir a maioridade, compreendeu que não pertencia àquele lugar. Foi quando houve o escândalo que a fez deixar a cidade e cair no mundo.

Maldita carta!

Por que voltar? Foi renegada por seus pais! Ela fazia questão de enterrá-los assim como os mesmos fizeram com a morte de seu irmão! Sequer lembrava mais deles. Na verdade, esforçava-se para esquecê-los. Se não fossem pelos sonhos - ou seriam pesadelos?! E agora esta carta que a chamava para uma volta ao passado...

Definitivamente: a vida é cíclica!

Muitas vezes se faz necessário dar um passo para trás para que se possa seguir em frente! Quem sabe indo de encontro ao seu passado ela poderá encontrar respostas para seu futuro?

Quem sabe?

De alguma forma será bom sair um pouco da balbúrdia em que sua vida e a vida da cidade se encontram nesse momento.

Encorajou-se e foi tirar a mala que estava na parte superior do armário.

Espanou a poeira e começou a se preparar para a viagem.

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A Parábola do Filho Pródigo  
"Disse Jesus: Um homem tinha dois filhos. O mais moço disse a seu pai: Meu pai, dá-me a parte do patrimônio que me toca. O pai então repartiu entre eles os haveres. Poucos dias depois ajuntando tudo o que lhe pertencia, partiu o filho mais moço para um país muito distante, e lá dissipou sua herança vivendo dissolutamente. Depois de ter esbanjado tudo, sobreveio àquela região uma grande fome: e ele começou a passar penúria. Foi pôr-se a serviço de um dos senhores daquela região, que o mandou para os seus campos guardar porcos. Desejava ele fartar-se das vagens que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. Entrando então em si e refletiu: “Quantos empregados há na casa de meu pai, que têm pão em abundância, e eu, aqui, a morrer de fome! Levantar-me-ei e irei a meu pai, e dir-lhe-ei: Meu pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como a um dos teus empregados”. Levantou-se, pois, e foi ter com seu pai. Estava ainda longe, quando seu pai o viu, e, movido pela misericórdia, correu-lhe ao encontro, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou. O filho lhe disse então: “Meu pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho”. Mas o pai disse aos servos: “Trazei-me depressa a melhor (primeira) veste e vesti-lha, e ponde-lhe um anel no dedo e calçado nos pés. Trazei também o bezerro cevado e matai-o; comamos e festejemos. Este meu filho estava morto, e reviveu; tinha-se perdido e foi achado”. E começaram a festa. O filho mais velho estava no campo. Ao voltar e aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças. Chamou um servo e perguntou-lhe o que havia. Ele lhe explicou: Voltou teu irmão. E teu pai mandou matar um novilho gordo, porque o reencontrou são e salvo. Encolerizou-se ele e não queria entrar; mas seu pai saiu e insistiu com ele. Ele, então, respondeu ao pai: há tantos anos que te sirvo, sem jamais transgredir ordem alguma tua, e nunca me deste um cabrito, para festejar com os meus amigos. E agora, que voltou este teu filho, que gastou os teus bens com as meretrizes, logo lhe mandas-te matar um novilho gordo! Explicou-lhe o pai: Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu; convinha, porém, fazermos festa, pois que este teu irmão estava morto e reviveu, tinha-se perdido e foi achado”. Lucas, 15:11 a 32

4 de julho de 2013

[407] Episódio 6: Édipo-Rei

Uma moça chamada Clarice um dia encontrou um rapaz de lindos olhos azuis e farda militar. Eu não sei vocês, mas eu sempre achei farda um negócio muito bonito. Imagino pessoas disciplinadas e inteligentes, não de uma inteligência matemática ou de saber de cor todas as capitais da América Latina, mas uma inteligência estratégica, de jogo de xadrez, de saber o próximo passo, o próximo pensamento. Eu via homens de farda e sentia que eles me sabiam antes mesmo de eu abrir a minha boca pra falar. Clarice era como eu. E Clarice deu pro cara.
Casaram por causa de uma gravidez conturbada. O cara fugiu logo para outro batalhão quando soube da criança, mas o pai de Clarice era um senhor muito, muito rico, caçou o infeliz até os infernos. Achou. Casaram. Nasceu Danilo.
Cada dia que passava, eu sabia que Danilo era eu e eu era Danilo. Nossos pais filhos da puta, nossas tristes histórias, nossos choros de chão de banheiro, tudo era tão igual e me assustava tanto e doía tanto. Doía porque eu via um espelho nos olhos de Danilo e cada lágrima que rolava na minha cara tinha uma irmã gêmea escorrendo na cara de Danilo. A gente tinha uma merda de dor e uma merda de vida muito iguais. A diferença é que Danilo, como eu disse, era muito rico.
O pai de Danilo, claro, rejeitou aquela barriga desde o primeiro dia. Clarice teve uma vida bem ruim, um casamento ruim. O marido bebia e a criança chorava. A criança chorava e o marido batia. Clarice chorava. Chorou até o dia em que usou a arma do marido para estourar os miolos.
Danilo tem um ódio mortal da polícia.

Claro que eu não sabia disso, enquanto esperava Danilo na porta do Edifício Cinza. Sentada na calçada, pensando ainda na garotinha que juntou as minhas guimbas no chão, avistei o meu menino chegando. Mas tinha um ar estranho. E ia ficando cada vez mais estranho, a medida que se aproximava. Estava quase duas horas atrasado, tudo bem, quer dizer, tudo bem o cacete, mas vá lá, não é motivo pra chegar branco daquele jeito. Na minha frente, Danilo explicou.
E confesso que até agora não consegui acreditar.
Meu menino matou um homem.

Talvez não tenha mencionado, mas Danilo não mora perto. Vi na TV da padaria que a cidade andava meio que num clima de guerra, mas pra mim tanto faz, eu vivia em clima de guerra e nem por isso eu passava nas TVs das padarias. Eu não tinha um celular ou um telefone ou qualquer outra forma de contato, então era eu que ligava pra Danilo com meus cartões de 20 unidades. Geralmente, ele vinha às quintas-feiras. Era quinta-feira. Ele veio. Ensanguentado dos pés à cabeça.

Era a guerra, então. Tinha chegado, mas eu não sabia nem que lado eu ficava. Só sabia que mataria qualquer um que machucasse Danilo. Mas ele se adiantou.

Estou cansada agora e a luz aqui da cela é muito fraca, mas tudo o que eu posso adiantar é que, pelo que eu entendi, por causa de 0,20 centavos, Danilo matou um homem.

Danilo vingou Clarice.

26 de junho de 2013

[101] Episódio 4: A janela do velho

Ele não estava acreditando. 
Era verdade?
Como poderia ser possível?
Faz tanto tempo?
De onde surgiu?
Como começou?
Qual o objetivo? 

Eram muitas perguntas que o velho Célio se fazia naquele momento; ele acabara de chegar do hospital, e de repente volta pra um mundo novo, totalmente diferente. 


- Quanto tempo eu fiquei dormindo naquele maldito hospital? Pelo visto muito tempo mesmo. 

Com muita pressa ele arrasta as pernas doloridas de volta para o quarto. Ele começa a procurar. 

Abre a porta do armário, mas não há nada lá.

Abre a porta de cima, mas não enconta. 

- Sempre estão disponíveis, agora que preciso de ao menos um não encontro. 

Puxa uma gaveta apressadamente, nada. 

Puxa a segunda gaveta, desta vez com tanta força que a gaveta vem junto e cai no chão, o velho espalha uma centena de objetos pelo chão: medalhas, fotos, bilhetes etc. 

- Agora me vem tudo, todas as lembranças, memórias, e tudo mais que poderia não vir nunca, só não consigo achar o que preciso. 

Eis que que ele se lembrou! Só poderia estar na parte de cima do maleiro. Ele se arrastou mais um pouco e chegou ao grande maleiro, que guardava uma centena de objetos e roupas de cama. Ele se esticou, para tentar alcançar, e já nas ponta dos pés puxou uma enorme caixa de cor vinho. Por causa da pressa a caixa tombou por cima dele e tudo que havia lá se espalhou pelo chão novamente; depois disso a casa ficou uma bagunça. Apressadamente ele se abaixou, tentou com calma ficar em boa posição para revirar o chão em busca do que precisava, suas mãos tremulas reviravam o chão. 

- Azul, não.
- Preto, não mesmo. 
- Amarelo, não.
- Azul, novamente azul, nunca gostei dos azuis. 
- Branco, achei finalmente! 

Célio pega o branco, e corre com sua bengala de volta para a sala; o velho já se sentia extremamente emocionado, muito feliz com tudo aquilo, agora iria de vez fazer parte de algo que ele sempre imaginou que nunca aconteceria. Ele saltitou os últimos passos antes da janela, chegando em frente ele ainda deu uma última respirada profunda para tentar conter a emoção. Afastou com pressa as pesadas cortinas, destravou a janela, empurrou as folhas para dentro com toda força que lhe restava; levantou a parte de vidro como uma folha de papel; por fim, dobrou de qualquer forma para ficar o meno possível, e lançou, lançou com toda sua vontade e amor o lençol branco pela janela. O lençol dançou pelas ares com a leve brisa que vinha do lado de fora, e foi aos poucos se aproximando do concreto fio do prédio, diante da imagem do lençol branco de apoio sendo lançado pela janela, a multidão do lado fora gritou, e gritou muito, pois se sentiu mais um aliado que se manifestava pela janela. 

- Vem, vem, vem pra rua vem! A multidão que aplaudia e chama todos os moradores do prédio. 

Célio emocionado diante de tanta rua gritando pelas ruas, decidiu descer, ele deixou o lençol esticado na janela. 

Célio pediu licença à suas dores e desceu para rua, ele volta logo, só vai ajudar um pouco a mudar o país!  

17 de junho de 2013

[505] Episódio 6: Com quem fica o cachorro? (parte 1)


Antes que deixemos nossas malas
Pela rua e fechemos as cortinas
Se você se vai e eu também vou
Isso já é sério
Se você vai e eu também vou
Com quem fica o cachorro?”
(Tradução livre da canção “¿Com Quién Se Queda El Perro?”, da dupla Jesse & Joy)

Não me lembro de ter contado a origem da minha falta de arquejo social. Como eu disse, nunca fui muito fã de pessoas. Bullying quando criança (sim, as crianças do campo também sabiam praticar bullying muito bem, mas lá isso não tinha nome) e eu sempre preferia a companhia dos livros a conviver com aquelas crianças que sabiam ser bem mais malvadas que os vilões da ficção. Meus pais sempre me apoiaram. Não que eles pudessem fazer muita coisa, mas meu pai sempre voltava das suas idas semanais à Cidade com uma dúzia de gibis de um sebo.
Quando os dois morreram naquele terrível acidente de carro, soube que eu precisava mudar minha vida radicalmente. Peguei minhas malas, o dinheiro que eles me deixaram e vim para a selva de pedra. Confesso que sofri muito no início. Foi uma adaptação dura, brusca e quase fui atropelado várias vezes. Contei com a ajuda da única pessoa que eu conhecia nesse pequeno mundo de cimento e paralelepípedos: Marina.
Ela era a única pessoa que realmente me fazia sentir bem na época de escola. A mais moleca de todas, que subia nos pés de frutas com os meninos e não ligava pelo fato de eu ser o menino franzino, estranho, de óculos enormes e que lia gibis do Chico Bento. Ela sempre me chamava pra brincar, dividia suas frutas e até tentava se enturmar com o meu “mundo de papel”, como ela chamava.
Ela se mudara para a Cidade dois anos antes de mim, para estudar e “ser alguém na vida”, como todos os moradores do campo desejavam para aquelas crianças que corriam entre as plantações, riachos e estradas de areia. Já tinha ido à Cidade várias vezes, mas fixar moradia num local desconhecido é algo completamente diferente. Liguei para ela do meu celular-que-só-faz-chamadas e ela foi muito simpática ao me mostrar tudo que eu precisava conhecer.
— E onde você vai morar? – perguntou enquanto tomávamos milk-shake num shopping e depois de eu ter observado e absorvido cada detalhe daquele lugar que, pra mim, era impressionante.
— Minha tia arrumou um apartamento pra mim. Com dois quartos, bem confortável. Comprei com a herança que o velho me deixou. Ainda dá pra eu me sustentar um tempinho. Começo a faculdade semana que vem e espero arranjar um emprego logo.
— Nossa, então você veio pra ficar mesmo, né? — ela sorriu. Depois tomou mais um gole do milk-shake antes de continuar. — Você disse que seu apartamento tem dois quartos, não é?
— É, por quê? Você quer ir morar comigo? Achei que você vivia bem na tal república.
— Viver eu vivo bem, mas, sabe como é, aguentar várias mulheres de TPM ao mesmo tempo... aliás, tenho privacidade zero. Eu te ajudo a pagar as contas... fechado?
— Fechado!
Adentramos o Edifício com toda aquela sensação de curiosidade, como duas crianças desbravando um novo mundo. Eu não tinha visitado o apartamento antes. Aliás, surpreendeu a nós dois o fato de o apartamento estar amplamente ricamente mobiliado e decorado. Minha tia só havia me contado que o antigo dono havia morrido há poucas semanas e a família resolveu vendê-lo com tudo que tinha dentro para saldar dívidas deixadas pelo falecido... Pelo preço que me fora cobrado, os parentes do morto não tinham noção do valor inestimável daquele lugar.
Além de ser uma pechincha para um apartamento no coração da Cidade, ele era bem amplo. Cheio de móveis antigos feitos com madeira de lei. Livros, muitos livros! Ele era perfeito para mim. Passaria muito tempo lendo os clássicos da estante da sala de estar.
Marina não gostou tanto assim da “velharia”. Não posso culpá-la: seu espírito moderno e independente era bem diferente do meu. Não gostávamos das mesmas coisas. Na realidade, éramos completamente diferentes. Mas essa experiência de morarmos juntos iria render bastante. Estava preparado para o novo.
As semanas passaram. A cada dia, descobria detalhes e histórias escondidas nos móveis antigos. Marina saía logo pela manhã e só voltava à noite. Eu tentava me acostumar àquele lugar. Saía pra faculdade e observava tudo em volta com cuidado. Estudar computação faz com que você não precise interagir com muita gente. O pessoal geralmente é mais calado. Perfeito pra quem tinha medo da socialização como eu.
Mas, no fundo, eu me sentia sozinho. Marina também. Só conseguíamos nos encontrar no fim de semana, quando ríamos e assistíamos aos filmes de ação idiotas que ela adorava. Ela supria toda minha necessidade de socialização. Mas eu não preenchia todas as dela.
Foi quando Marina começou a trazer homens para dentro de casa. Nada contra eles, mas era estranho tentar dormir com sua colega de quarto transando no quarto ao lado. Não que eu me importasse muito com sexo — desde que descobri em minha adolescência que poderia me resolver sozinho, nunca me preocupei com isso —, mas era incômodo ver desconhecidos sentados comigo na mesa de café da manhã.
Num fim de semana, uns dois meses depois do início disso tudo, houve uma feira de adoção de animais perto de casa. E lá fomos nós, dar uma olhada naqueles animais que, por um motivo ou outro, foram abandonados. Passeando entre cães e gatos, chegamos ao último. Jogado num canto, acuado, lá estava aquele pequeno cachorro, cujos dentes saltavam da boca. Suas grandes orelhas destacavam-se. Seus olhos suplicavam por carinho. E eu não tinha como não levá-lo para casa. E, pela primeira vez em muito tempo, eu e Marina concordamos em algo: Monstro era nosso.


31 de maio de 2013

[403] Episódio 8: Virando páginas...

Aquela noite em breu total serviu pelo menos para uma coisa: Mirella fez um novo conhecimento no Edifício. 

Talvez ela já possa até considerar o Frei (sim, nada de Padre, ele é Frei) um “amigo” apesar dessa palavra ter um significado muito forte em seu vocabulário sentimental.

Mas com certeza foi uma ótima experiência que prometo compartilhar mais para frente.

Tanta coisa aconteceu depois daquela noite à luz de velas que nem sei por onde começar...



Mirella recuperou seu contato com o Bentinho - aquele passado que ela não queria trazer para o presente.  

Após algumas conversas pelo MSN marcaram um encontro.

Criar expectativas sobre a possibilidade desse encontro foi desesperador para Mirella. E se ele a achasse velha, gorda, feia?! E se ele tentasse algo?! E se... lá vinha ela novamente com seus achismos. Baita ansiedade! Não teve jeito: já tinha marcado o encontro, agora era relaxar e encarar.

Foi desconcertantemente que Mirella cumprimentou Bentinho. Não podia acreditar no que aquele jovem havia se transformado. Bentinho era forte, alto, tinha músculos definidos nos lugares em que hoje percebia gorduras excessivas. A aparência jovial e máscula deu lugar a um homem com aspecto sujo e desbotado. Estava ali, à sua frente uma figura grotesca. Mirella deu graças a Deus por ter sido desprezada por alguém que, definitivamente, não a merecia.

Conversa vai, conversa vem e Bentinho não despregava os olhos dela. Sentindo um certo incômodo, não via a hora de acabar logo com aquele encontro. Bem que ele tentou arranjar desculpas pelo que fez no passado, articulando mil argumentações que hoje não convencem mais. Se estava pensando que este seria um reencontro, perdeu sua viagem. Ela cortou toda e qualquer tentativa de intimidade.

No final da conversa, após alguns copos de cerveja, despediram-se com palavras de porvir às quais Mirella jamais cumpriria.

Mais um capítulo de sua vida encerrado.

Saiu daquele lugar respirando aliviada:

- Até que valeu a pena! Sinto uma leveza quase cósmica! 

Diante daquele homem a quem deu uma parte de sua vida por amor e por quem fora rejeitada, sentiu-se, de certa forma, vingada! Não precisou articular sequer ofensas, a sua presença o fez por ela: uma mulher linda, madura, segura e totalmente refeita! E, aposto, mil vezes melhor do que o que ele tem em casa. 

Ai, fui cruel eu sei, não resisti!

Naquela tarde Mirella estava tão bem que nada lhe tiraria o bom humor. 

Aproveitou que estava num shopping perto do Edifício e presenteou -se com alguns mimos. Voltou para seu apartamento tão feliz que nem ligou para o fato de que mais uma vez aquele maldito elevador estava emperrado.

Subiu as escadas como quem sobe ao paraíso.

16 de maio de 2013

[204] Episódio 5: Da Terra a Marte






- Não queremos arruinar Marte - disse o capitão. - É muito grande e belo.
- Acha que não? Nós, terrestres, temos um enorme talento para arruinar coisas grandes e belas. A única razão pela qual não instalamos barracas de cachorro-quente no templo egípcio de Karnak foi porque estava fora da estrada e não oferecia grande oportunidade comercial.

Ray Bradbury - As Crônicas Marcianas


Minha irmã disse que eu precisava de um plano de vida a longo prazo: pois então, acho que vou para Marte. Sim, eu sei que não é provavelmente o que ela tinha em mente, mas convenhamos que meu histórico não condiz com o tripé Emprego Estável - Casamento Feliz - Descendência Saudável. Se essa for a definição oficial de existência bem sucedida é bastante provável que eu seja apenas desperdício de matéria genética - tese com a qual minha irmã provavelmente concordaria. Procurando uma rota de escape, vi na internet que uma organização holandesa está recrutando voluntários para colonizar o planeta vermelho. Escuta só: nos próximos anos serão enviadas sondas e outras parafernalhas até que, finalmente, em 2023 a primeira exposição tripulada chegará ao seu destino.

Dez anos me parecem pouco para começar a fincar bandeirinhas em nosso sistema solar, mas não sou perito e, sim, eu prefiro acreditar que estamos a uma década do futuro sonhado por Ray Bradbury nos anos 50. Nem tivemos que esperar tanto tempo, se você for parar para pensar, e mesmo que todas as histórias sobre ir à cata de homenzinhos verdes no planeta vizinho pertençam não apenas ao século, mas ao milênio passado. Estamos no limiar de algo muito empolgante, Cotoco, e eu estou pensando em me candidatar. É sério, não me olhe desse jeito.

Claro, minhas expectativas de êxito são baixas, ao menos para as primeiras levas de colonos. Ao contrário do que você provavelmente está pensando, a demanda de inscrições ultrapassou qualquer expectativa. Há milhares de pessoas dispostas a deixar a Terra sem olhar para trás. Sim, porque a passagem é só de ida. Para além de enfrentarem uma viagem de 8 meses na qual perderão massa óssea e muscular, os colonos terão de se adequar à gravidade de Marte, bem mais fraca que a da Terra. A boa notícia é que não precisarei fazer aquele regime há tanto tempo adiado, já que pesarei bem menos. A péssima notícia é que não é possível uma readaptação à gravidade do nosso próprio planeta, e o custo de uma viagem de volta porque se ficou com saudade de casa é inviável - quem conseguir chegar à Marte terá como única certeza a de que morrerá nesse planeta, em quinze dias ou cinquenta anos.

A ideia me fascina por inúmeras razões, que passam pela simples curiosidade intelectual até a vaidade de "fazer história". Mas o principal motivo talvez tenha a ver com a empolgação infantil de ser astronauta: é muito sedutor o conceito de desbravar mundos desconhecidos. Seremos os novos Argonautas, daremos início à era das Grandes Navegações espaciais e, o que é melhor, vou ter tempo para aperfeiçoar minha imitação do monólogo do Capitão Kirk - "Space, the final frontier"

É claro que a realidade da colonização marciana não vai ser tão glamurosa quanto a vida na Enterprise retrô. Herbert Viana não cantou à toa que  "O céu de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu". Se o problema fosse só se preocupar em não passar muito perto do sol para não derreter a cera das asas o trabalho até seria simples. A energia virá de painéis solares, a água será extraída do solo e constantemente reciclada, os alimentos precisarão ser cultivados em estufas - e é para torcer que as estufas funcionem.

Li em algum lugar que um bambambã da NASA teria dito que os primeiros colonos precisavam ter o espírito dos colonizadores do Velho Oeste americano. Com a diferença que não vai dar para cansar da poeira, do sol e da vida frugal. Quer dizer, provavelmente quem se lançava num perrengue desse naipe estava desesperado o suficiente para não poder desistir, então nesse sentido o Velho Oeste também fosse tão exótico quanto Marte. Talvez estejamos sempre procurando formas de correr de nós mesmos e de nossos problemas, e é talvez justamente por isso que vamos sobreviver ao sucateamento do nosso planeta, e acabaremos nos espalhando como pragas ao redor de outras estrelas. Estou começando a falar como um moralista de romance pulp, eu sei, é melhor parar.

Vou mandar o formulário de inscrição para Marte. Juro que vou, Cotoco, você vai ver só. Depois do café. Vou beber o máximo de café enquanto ainda é tempo.

6 de maio de 2013

[305] Episódio 3 - Sem mais delonga...





Vivo num quadrado isolado no qual minha única companhia é minha própria sombra, pois nem eu mesmo estou mais comigo. Desconfio que a solidão me persegue. Solidão? Talvez isto aqui seja um pedido de socorro sem resultados, ou um lamento que ainda hoje irá acabar. Assim serenamente eu imagino que a solidão é apenas uma companheira teimosa e obstinada que insiste em caminhar ao meu lado.

Inevitavelmente, eu a solicito.

Ou ela me é imposta.

Cruel ou bondosa.

E quando me invade, não é nada mais nada menos do que o meu próprio eu querendo se conhecer verdadeiramente. Não tem onde se refugiar, essa é que é a verdade. Ela sempre dá um jeitinho de me visitar, e assim tornou-se inquilina da minha alma. Será que aqui, ela consegue viver sem ser esmagada pelas minhas frustrações? No entanto, o seu jeito obscuro pode provocar estranheza no meu ser, será ela expulsa de mim, transportada para outra pessoa? Talvez.

Eu me pregunto se há alguma diferença entre existir e viver. Será que há? Eu não sei dizer – aliás, não sei se vivo, tampouco se existo – que necessidade há de nutrir um cotidiano que em todos os dias parece ser domingo? Domingo que é tédio todo descrito e desenhado, ampliado para toda a minha vida.

Agora, aqui estou eu presa em minha própria culpa e angústia. Sem saber como devo prosseguir com essa vida que eu mesma amaldiçoei; como andar com a cabeça erguida sem lembrar os pecados cometidos contra outros... Andarei com um peso insuportável sobre o meu ser enquanto me lembrar das coisas que cometi ou enquanto eu não conseguir dar um jeito de excluir esses pensamentos da minha memória. Quem me dera se minha mente fosse que nem uma memória de computador que desse para formatar e esquecer todo o meu passado...
E ainda tem o sumiço do Edgar para me importunar mais, por onde será que anda aquela criatura? Até ele cansou das minhas lamúrias. Espero que nada de ruim tenha acontecido com ele, e quando eu terminar de beber essa garrafa de uísque eu saio para procurá-lo nessa grande Cidade movimentada de vidas transeuntes.

Mas devo antes imprimir meu grito e meu desespero que estão presos na minha alma. Que faço, Martin? Onde você está?

Sinto uma enorme perda dentro de mim, uma vontade de me abandonar. Mesmo quando tudo está bem, as lágrimas me afogam os olhos e deixo que eles fiquem inundados. Não sei por qual motivo permito que isso aconteça, mas sinto que as águas que brotam são do meu íntimo mais perturbador e que se eu não as fizer chover para fora de mim, sinto que morrerei embargada com minha própria dor. E de onde vem essa dor? Sinto-me como se não houvesse tempo bom, haverá sempre essa tempestade dentro de mim destruindo tudo que toco e todos que conheço. Através dessa conclusão, tomei uma decisão polêmica para alguns – vou planejar minha morte já que ela não vem. Quero logo de antemão pedir perdão a Deus, pois quando eu tirar minha vida sei que estarei furtando um pouco da vida dele que reside em mim.

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Imagem:
The Scream, de Edvard Munch

1 de maio de 2013

[403] Episódio 7: Luz e Velas



A trovoada foi tão forte que fez Mirella engolir a vontade de fumar!

As vidraças estremeceram e um vento forte assobiou sinistro. Não demorou e as luzes começaram a piscar. Todos esses efeitos desviaram a atenção dela do computador. Levantou-se e foi até a área pegar umas velas e fósforos. Mal chegou ao seu destino e as luzes apagaram. Ficou no breu total. Parecia ter sido geral.

Tateando as gavetas do armário se deu conta de que não estavam ali. Então lembrou  haver se desfeito dos fósforos desde que comprara seu fogão com acendimento automático. Privilégios da modernidade que naquele momento de nada serviam.  

Mas e as velas?

Vasculhou um pouco mais as gavetas e nada. Os olhos já começavam a acostumar-se com a escuridão. Ainda assim precisou seguir na procura esbarrando nos móveis para chegar até a sala e verificar se restavam algumas velas por lá.

Se existiam medos em Mirella, insetos voadores e tempestades magnéticas eram dois deles. Pavor de trovoadas e seus rompantes. Quando estrondeavam, pegavam-na sempre de surpresa.

Finalmente encontrou umas velas inteiras e alguns toquinhos. Mas e daí? Como iria acendê-las?

Ah, que bom seria se todos os dilemas da vida fossem simples velas a serem acesas...

Decidiu que procuraria ajuda com seus vizinhos.

Primeira opção seria a menina esquisitinha que mora em frente ao seu apartamento.
Ela não tem  cara de quem tem velas ou sequer fósforos. Na verdade ela tem todo jeito de quem não tem nada.

Descartou.

Pensou então pedir ao morador do andar de cima, pelo menos só subiria um lance de escadas. Lembrou que o mesmo tem um cachorro que late irritantemente e que carrega como alcunha Monstro. Quem diabos denomina um cão com esse nome? O animal deve ser um monstro no sentido literal da palavra. Não iria se arriscar, desistiu.

Começou a ficar inquieta. Se os dois foram eliminados de sua lista, restava-lhe quem? Descer até o primeiro andar nem pensar! Não naquela escuridão! E além do mais, Sr Célio estava internado e a outra moradora lhe parecia meio caduca.

Bom, tem o cara que gosta de fuxicar o lixo dos outros. Mirella, certa vez, ouviu um barulho suspeito vindo do corredor e, quando olhou pelo olho mágico da porta, avistou um homem fuxicando a lixeira. Como a porta da mesma estava entreaberta, pode observá-lo em ação. Achou aquilo estranhíssimo. Ficou sabendo, mais tarde, que seu vizinho tinha cismas de sustentabilidade. Morava sozinho e até que era jeitosinho. Não, nada disso, sem segundas intenções! Melhor nem se aproximar! Vai parecer que está criando motivos para uma aproximação. Risca esse.

Seu pensamento foi tão categórico que percebeu-se repetindo a última frase em voz alta:

- Próximo!

O rapazinho do terceiro andar. Um menino com aparência frágil, triste. Muito discreto. Ele tem um namorado. Talvez seja melhor não incomodá-lo. Seria constrangedor interromper qualquer coisa. 

Lembrou de uma vez que esbarrou com o casal na porta do edifício. Não se falaram, foi rápido. Enquanto ela chegava, eles saíam. Estavam falantes e pareciam muito apaixonados. Bateu uma pontinha de inveja nela, afinal, era um casal. Um casal gay e eu aqui, sozinha. Todo mundo tem alguém, nem que seja um cão chamado monstro. Será que deveria ser mais condescendente com os animais e adotar um gatinho? Riu. A ideia não é má mas preferiu pensar num gatinho que beija, abraça e fala no lugar de miar.

E por falar em gatinho, lembrou-se da nova inquilina que chegou ao edifício recentemente e trouxe, a tiracolo, justamente, um felino muito inconveniente. Não. Não vou me apresentar pedindo fósforos.

Deu- se conta então que descartara quase todo mundo.

Quase...

Porque no segundo andar mora um Padre com cara de bonzinho e Padres, em geral, devem ter velas em casa e, se tem velas, obviamente devem ter também fósforos.

Bingo!

Apesar de ter que descer quase quatro lances de escadas, não pensou muito, poderia desistir. Pegou seus cotocos de velas, colocou-os num saco e começou a descer as escadas tateando pelo corrimão frio.

Naquela hora, diante daquela escuridão, o edifício parecia mais velho e sombrio do que normalmente. As correntes velhas do elevador rangiam desafinadas quando tocadas pelo vento que entrava pelas frestas dos basculantes e o silêncio dos apartamentos a fazia escutar vozes inexistentes dos moradores como se fossem burburinhos.  Já começava a se arrepender de ter tido a ideia de pegar os fósforos.

Chegou à porta do Padre e hesitou. 

E se ele não fosse bonzinho? E se fosse daqueles padres chatos que puxam longas conversas e querem saber da vida alheia? E se fosse um moralista? E se... parou. Não era hora para achismos.  

Naquele momento, para ter alguma luz, dependeria da boa vontade daquele servo de Deus.

Suspirou e bateu à porta.