Mostrando postagens com marcador 204. Mostrar todas as postagens

25 de agosto de 2013

[204] Episódio 6: Do lado de fora, do lado de dentro.

''The longer you look at an object, the more abstract it becomes, and, ironically, the more real.''
Lucian Freud

(Sem assunto)


Jorge,


eu estou preocupada com você, e isso não é novidade. Também não há de ser novidade o cinismo que espero receber de volta. Já passamos por isso um sem número de vezes: você vai pensar que quero controlar sua vida, vai fazer cara de vítima da Inquisição Espanhola porque busco respostas, porque quero ajudar, porque não suporto ficar de fora. Sim, eu sou aquela que sempre vai achar insuportável ficar do lado de fora mesmo sem jamais ter sido convidada a passar da porta. Mas se não consegui mudar meu jeito depois de tanto tempo, bem, daqui pra frente é ladeira abaixo.

Você não dá notícia há meses. Que não queira falar comigo eu até entendo – e perdoo, como já o fiz tantas outras vezes. (Como minha irmãzinha é boa, como é abnegada”- eu me lembro muito bem do roteiro das nossas brigas, quase não preciso de você para rearranjar nossos argumentos e continuar indefinidamente). Mas você parou de responder os telefonemas da Vivi, e isso é grave. Ela me contou que mais de uma vez bateu à porta e sabia que você estava lá dentro, e mesmo assim não a atendeu.

A única forma de saber que você não escorregou no banheiro e foi devorado pela fauna que habita as caixas de pizza da sua sala foi checar no mercado da esquina se as compras continuam a ser entregues na sua casa. E continuam. Meu principal informante sobre a sua vida nos últimos tempos é um moleque espinhento de 16 anos que parece não conseguir se decidir sobre qual de nós dois é o mais esquisito. Da última vez que me vi dando 10 reais para o guri me dizer que “tipo, ele tava magro a vera e caladão” percebi (antes tarde do que nunca) que isso não estava certo, não podia estar certo. Fomos ambos longe demais.

Somos só nós dois nesse mundo. Nós dois e a Vivi, mas fundamentalmente nós dois, desde que a mãe me levou para tomar sorvete no parque e me explicou que eu ganharia um irmão e que eu teria de ajudar a cuidar dele, porque ele seria pequeno e indefeso e precisaria de uma irmã forte e corajosa para protege-lo do mundo. É verdade que esse é o típico papo das mães para aumentar a autoestima dos filhos mais velhos que estão prestes a perder o monopólio das atenções familiares, mas eu acho que jamais consegui me desprender da gravidade do compromisso que eu havia assumido, ainda que com a cara lambuzada de doce. Desde aquela tarde em que sequer se notava a barriga da mamãe eu sempre pensei em você como meu irmãozinho pequeno. E é por jamais conseguir te enxergar de outra forma que talvez você me odeie – eu sei bem como você se sente em relação a qualquer tipo de autoridade, real ou fictícia, que tente legislar sobre você.

Seja como for, não nos afaste. Quer dizer, eu você não vai conseguir afastar mesmo, por mais que tente. Sou a Senhora Toda Poderosa Controladora Das Vidas Alheias, lembra? Eu sou aquela que vai ficar esperando, sim senhor. E bisbilhotando sua vida, e não deixando você se esquecer de que, ao contrário do que pensa, você não está sozinho nesse mundo. Mas a Vivi, não a afaste. Você a está magoando e eu não sinto apenas por ela, mas pelos dois. Estou aqui do lado de fora, sempre aqui, para sempre, seu merda. Se quiser sair e vir brincar qualquer hora é hora.
Heloísa.






RE: (Sem Assunto)

Helô,

eu sei que você vai ficar mais preocupada do que se eu não respondesse nada, ou respondesse com alguma alegoria obscura que eu sei e você sabe que ninguém mais entenderia, e que serviria apenas para me dar a palavra afinal sobre o assunto importantíssimo que é a minha vida e como eu a estou desperdiçando. Mas a verdade é: você está certa. Pronto, você tem a declaração por escrito, pode me mandar internar. Não era isso o que você queria?

Não, não era a minha intenção usar qualquer tipo de ironia, é apenas a força do hábito. Se você diz que não consegue mais se consertar, imagine eu. É que se não a ironia, então o quê? A história de como tenho traduzido o mínimo possível para pagar a conta de luz e a de internet, e como no resto do tempo eu fico olhando para o teto, sem a menor paciência para dormir ou qualquer vontade de me mexer? Ah, você quer mesmo saber que eu não troco de roupa há já não sei quantos dias? Que seja, que seja. Vou deixar a ironia atrás da porta, talvez isso a faça feliz. Não, isso também não é o que eu queria dizer. Tento de novo: talvez isso me faça feliz, ou um pouco menos apático. Foi uma dificuldade me decidir por responder seu e-mail, mas agora que comecei é como se entrasse de repente um pouco de ar fresco pelas janelas fechadas. Acho que eu preciso conversar, sim. Me desculpa.

Eu nem sabia o quanto, mas tem sido muito difícil desde que a Cristina me pôs para fora de casa. E não é nem tanto pela Cristina-Cristina, sabe, acho que é a reação acumulada por todas as Cristinas que vieram antes, namoradas ou planos, tudo o que o mundo-Cristina das relações e dos compromissos – para além de tudo o que eu queria e que, de repente ou se esfarelava na minha mão ou não me importava mais. Achava que, com o apartamento novo, também seria fácil alugar uma nova vida. Mas não. A sensação foi a de ir desacelerando aos poucos, até parar completamente. No início eu achava que era apenas uma daquelas minhas fases mais melancólicas em que não sinto vontade de ler, de sair de casa ou de falar com ninguém. Todo mundo passa por isso, embora nem todos possam se dar ao luxo de, digamos, se isolar por um fim de semana inteiro. Morar sozinho, eu pensava orgulhoso desse meu novo status, tinha lá as suas compensações.

Mas o fim de semana virou duas semanas inteiras, e depois um mês e por fim dois. Deixei o celular descarregar e a conta vencer, já que faço os contatos com a editora via e-mail e as compras online. As únicas criaturas vivas com quem tinha breves contatos era o seu espiãozinho cheio de acne e a Cotoco, a lagartixa que divide o apartamento comigo e que nesse meio tempo até restaurou o rabo original que eu sem querer arranquei por descuido, assim como faço com todas as pessoas que me cercam, mas essa já é uma outra história e eu sinto que estou me perdendo.  

Quando o tempo parou de vez eu percebi que a Vivi estava batendo na porta e implorando para que eu abrisse, cantando músicas que eu considero particularmente irritantes, meio que adivinhando que só assim eu talvez tivesse forças para sair da cama e xingá-la por ser uma pirralha tão adoravelmente perversa que ela é. Acontece que ela é ainda uma criança e não merece ser exposta ao refugo de tio que deu o azar de ganhar na loteria genética. Tive vergonha do meu estado, da minha casa, do meu ânimo e do amor que eu não me lembrava que existia porque, é claro, estava como sempre com a cabeça enfiada dentro do meu umbigo exercitando aquela velha autocomiseração que você sempre criticou em mim. E adivinhe de novo: você está certa, sua vaca prepotente. Pelo menos eu consegui te surpreender, certo? Ao menos isso.

Você disse que é sempre a pessoa que está do lado de fora e que odeia isso, e eu também tenho que concordar. Nunca te deixei entrar, não de verdade, mas não pelas razões que você pensa. Não te odeio, sua maluca, muito pelo contrário. Sou incapaz de me ressentir com seu amor tirânico e potencialmente castrador que você sempre tentou me enfiar goela abaixo. Ok - talvez eu já tenha me ressentido, mas isso é passado. Hoje em dia gosto de atiçá-la do mesmo modo que fazia aos 5, aos 10, aos 15 para ver o quanto mudamos e como, apesar disso, certas coisas continuam aparentemente iguais.

Embora eu não possa ter memória da tarde em que você prometeu à mãe que cuidaria de mim, mas juro que posso quase vê-la com seus shorts curtos, sua franja grossa e os olhos escuros muito sérios, apesar de todo o grude do sorvete. E eu admiro que você tenha se comprometido tão fielmente com uma vida que mudaria completamente a sua e a qual você poderia simplesmente ignorar ou fazer birra, como qualquer criança ciumenta tem direito nesse mundo. Ter se tornado a pequena protetora de um serzinho que você até então não poderia conhecer ou amar é algo admirável, embora eu sempre tivesse dito justamente o contrário – que você era na verdade capacho da mãe, carente de atenção, a perfeição em forma de filha, mãe, irmã, esposa, mulher. Eu sou um merda mas você, convenhamos, é um pé no saco com seu verniz de infalibilidade. Como não me rebelar?

Talvez seja por isso que fui mais insuportável com você do que com todas as outras pessoas. Acho que eu queria saber até onde eu podia ir. Testar esse laço que nos prende até que você finalmente dissesse “Cansei dessa porra, vou cuidar da vida”, mas você nunca disse – não importando o quão escroto, estúpido, arrogante e cretino (meu novo insulto favorito, nem pergunte) eu fosse. E se eu não te deixei entrar por todos esses anos e mesmo pelos últimos meses é simplesmente porque não queria que você visse que desperdiçou esse tempo todo de vida lutando pelo tão pouco que eu sou.

Mas você não vai desistir, né? Ao seu modo – e de um jeito muito mais funcional para o “mundo real”, devo dar o braço a torcer – você é tão perturbada quanto eu. Então é isso, desisto eu. Não tenho coragem para sair e brincar: mal consigo terminar esse e-mail, o gás de súbito acabou. Mas olha, vou destrancar as portas. A do apartamento e todas as outras. Se você quiser entrar, é só virar a maçaneta. Se era acesso ao lado de dentro que você queria, sinto muito, mas você acabou de conseguir. Desculpa, desculpa mil vezes, desculpa por tudo, vem, vem logo, por favor.

J.



16 de maio de 2013

[204] Episódio 5: Da Terra a Marte






- Não queremos arruinar Marte - disse o capitão. - É muito grande e belo.
- Acha que não? Nós, terrestres, temos um enorme talento para arruinar coisas grandes e belas. A única razão pela qual não instalamos barracas de cachorro-quente no templo egípcio de Karnak foi porque estava fora da estrada e não oferecia grande oportunidade comercial.

Ray Bradbury - As Crônicas Marcianas


Minha irmã disse que eu precisava de um plano de vida a longo prazo: pois então, acho que vou para Marte. Sim, eu sei que não é provavelmente o que ela tinha em mente, mas convenhamos que meu histórico não condiz com o tripé Emprego Estável - Casamento Feliz - Descendência Saudável. Se essa for a definição oficial de existência bem sucedida é bastante provável que eu seja apenas desperdício de matéria genética - tese com a qual minha irmã provavelmente concordaria. Procurando uma rota de escape, vi na internet que uma organização holandesa está recrutando voluntários para colonizar o planeta vermelho. Escuta só: nos próximos anos serão enviadas sondas e outras parafernalhas até que, finalmente, em 2023 a primeira exposição tripulada chegará ao seu destino.

Dez anos me parecem pouco para começar a fincar bandeirinhas em nosso sistema solar, mas não sou perito e, sim, eu prefiro acreditar que estamos a uma década do futuro sonhado por Ray Bradbury nos anos 50. Nem tivemos que esperar tanto tempo, se você for parar para pensar, e mesmo que todas as histórias sobre ir à cata de homenzinhos verdes no planeta vizinho pertençam não apenas ao século, mas ao milênio passado. Estamos no limiar de algo muito empolgante, Cotoco, e eu estou pensando em me candidatar. É sério, não me olhe desse jeito.

Claro, minhas expectativas de êxito são baixas, ao menos para as primeiras levas de colonos. Ao contrário do que você provavelmente está pensando, a demanda de inscrições ultrapassou qualquer expectativa. Há milhares de pessoas dispostas a deixar a Terra sem olhar para trás. Sim, porque a passagem é só de ida. Para além de enfrentarem uma viagem de 8 meses na qual perderão massa óssea e muscular, os colonos terão de se adequar à gravidade de Marte, bem mais fraca que a da Terra. A boa notícia é que não precisarei fazer aquele regime há tanto tempo adiado, já que pesarei bem menos. A péssima notícia é que não é possível uma readaptação à gravidade do nosso próprio planeta, e o custo de uma viagem de volta porque se ficou com saudade de casa é inviável - quem conseguir chegar à Marte terá como única certeza a de que morrerá nesse planeta, em quinze dias ou cinquenta anos.

A ideia me fascina por inúmeras razões, que passam pela simples curiosidade intelectual até a vaidade de "fazer história". Mas o principal motivo talvez tenha a ver com a empolgação infantil de ser astronauta: é muito sedutor o conceito de desbravar mundos desconhecidos. Seremos os novos Argonautas, daremos início à era das Grandes Navegações espaciais e, o que é melhor, vou ter tempo para aperfeiçoar minha imitação do monólogo do Capitão Kirk - "Space, the final frontier"

É claro que a realidade da colonização marciana não vai ser tão glamurosa quanto a vida na Enterprise retrô. Herbert Viana não cantou à toa que  "O céu de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu". Se o problema fosse só se preocupar em não passar muito perto do sol para não derreter a cera das asas o trabalho até seria simples. A energia virá de painéis solares, a água será extraída do solo e constantemente reciclada, os alimentos precisarão ser cultivados em estufas - e é para torcer que as estufas funcionem.

Li em algum lugar que um bambambã da NASA teria dito que os primeiros colonos precisavam ter o espírito dos colonizadores do Velho Oeste americano. Com a diferença que não vai dar para cansar da poeira, do sol e da vida frugal. Quer dizer, provavelmente quem se lançava num perrengue desse naipe estava desesperado o suficiente para não poder desistir, então nesse sentido o Velho Oeste também fosse tão exótico quanto Marte. Talvez estejamos sempre procurando formas de correr de nós mesmos e de nossos problemas, e é talvez justamente por isso que vamos sobreviver ao sucateamento do nosso planeta, e acabaremos nos espalhando como pragas ao redor de outras estrelas. Estou começando a falar como um moralista de romance pulp, eu sei, é melhor parar.

Vou mandar o formulário de inscrição para Marte. Juro que vou, Cotoco, você vai ver só. Depois do café. Vou beber o máximo de café enquanto ainda é tempo.

6 de abril de 2013

[204] Episódio 4: A hóspede


Ele ainda não sabe, mas está ficando careca. Uma clareira começa a se formar no topo da cabeça; queira ou não, vai acabar se parecendo com um franciscano. Talvez antes disso se renda e decida raspar os tufos de cabelo que ainda não abandonaram o posto. Se ele pedisse minha opinião, era o que eu o incentivaria a fazer: diria que o crânio dele tem um formato interessante, e apostaria que ele ficaria melhor sem a massa preta semelhante a um poodle de médio porte que hoje esconde seu rosto. Mas ele ainda não sabe de nada e, se soubesse, duvido que me consultaria sobre alternativas estéticas.

A clareira começou em um ponto de difícil acesso, praticamente impossível de detectar no espelho do banheiro. Alguém teria de avisá-lo, mas a verdade é que ele não tem saído muito: até mesmo as compras do supermercado são feitas pela internet, e os entregadores não perdem tempo com fregueses que não dão gorjetas. A garotinha que sempre o visita não apenas é bem mais baixa do que ele, mas está interessada demais em si para notar qualquer mudança em outro lugar que não seja o próprio corpo. Se estivesse nascendo um chifre reluzente de unicórnio a menina não veria, ou não daria a mínima. Já eu, a única que sei, sou muito tímida para dizer qualquer coisa que possa desagradar meu anfitrião.

Ou, ao menos, é o que penso agora: até ontem eu me esforçava para que ele sequer soubesse que estava me recebendo. Calada e invisível como sou, consegui permanecer no anonimato completo por quase um mês. Não estou aqui para me gabar, mas ser tímida tem lá suas vantagens - se não nos relacionamentos interpessoais, ao menos como estratégia evolutiva. E eu teria conseguido me esconder por ainda mais tempo, não fosse nosso encontro desastrado na noite passada. Ele estava distraído, eu fui pouco precavida: sim, uma confluência de fatores a que poderíamos chamar destino.

A madrugada estava sendo difícil: já passava das três da manhã e nós dois estávamos tendo problemas para dormir. Ele estava preocupado em cumprir o ultimato do “devorador de almas”; termo cunhado para insultar o homem que havia ligado quatro vezes mais cedo ao longo do dia, cobrando um trabalho que, aparentemente, já deveria estar pronto há mais de uma semana. Se não entregasse o prometido até segunda-feira, o adiantamento previsto seria cancelado, “os R$ 5,00 que esse puto me paga por página”. E a luz havia acabado pouco depois da meia-noite - um verdadeiro pesadelo para quem prefere trabalhar de madrugada. Irritado demais para dormir e impossibilitado de trabalhar às vésperas do prazo final, dedicava-se à minuciosa arte de arrancar cabelos da cabeça e queimá-los na vela acesa ao lado da cama. Se ele soubesse que está ficando careca provavelmente não procuraria outra coisa para fazer, mas a ignorância às vezes é um benção.

Quanto a mim, não conseguia dormir porque estava com fome. O dia havia sido difícil: meu estômago não tinha lembrança da última vez que algo passara por ele. Como choveu o dia inteiro, não havia oferta de mosquitos. E as baratas realmente sumiram após o veneno que ele espalhou nos ralos ao curso da última semana. Esse talvez seja o grande problema de morar clandestinamente na casa de alguém: a escassez de recursos. Não é como se eu estivesse esperando um convite para jantar, mas se o apartamento continuasse estéril do jeito que estava não levaria muito tempo até que ele voltasse a morar sozinho. O que seria uma pena, já que, modéstia a parte, sou uma excelente companhia. Calada, pouco espaçosa e, sobretudo, boa ouvinte.

Unidos pela insônia, nossos caminhos se cruzaram no escuro da sala. Ele havia estabelecido uma rota até a próxima cerveja na geladeira antes de queimar o resto da franja, eu estava perseguindo o primeiro inseto que via em dois dias, uma espécie de besouro marrom. Insosso, mas melhor do que nada, já que me restituiria as forças. Ele notou algo frio entre os dedos do pé, eu entrei em desespero: iria ser esmagada por aquela desavisada coluna de carne. Quando ele levantou o pé para checar o que quer que fosse que lhe havia feito cócegas entre os dedos eu já estava atrás da mesa, tremendo como nunca. Mas naquele encontro trágico ele ficou com uma parte de mim. Quer dizer, literalmente. Na hora do susto acabei deixando parte da minha cauda para trás, contorcendo-se no chão.

Quando a luz voltou e ele finalmente descobriu o “presente” que eu havia deixado, começou a sentir-se culpado. “Não dói”, eu quis dizer, “a culpa também foi minha”, “eu sou ansiosa por natureza, são meus genes pré-históricos”, e eu sentia que o conseguiria consolá-lo com o papo sobre o destino, mas de nada adianta fazer planos quando se é tão tímida quanto eu. Ele finalmente sabia que tinha companhia, e tentou me achar em todos os cantos da sala. Mas a verdade é que meu sistema nervoso não está acostumado às atitudes amigáveis: esconder-me é um impulso mais forte do que qualquer política de boa vizinhança que eu decida seguir.

Foi apenas no dia seguinte, no banheiro, que consegui juntar forças para cruzar a parede enquanto ele escovava os dentes. Ele sorriu para mim, uma montanha de espuma branca escorrendo pelo queixo. “Bom dia, Cotoco. E desculpa por ontem, não vi que você estava no caminho.” Naquele momento eu percebi que havia sido batizada, e que ter um nome era o meu equivalente a ter a chave para o apartamento daquele edifício cinza. Sequer pensei em discutir: Cotoco estava ótimo. Cotoco, a hóspede. Deixe as janelas abertas, por favor: as manhãs me dão fome. Daqui do alto poderei acompanhar a calvície dele, exceto se o processo for muito lento: a coisa toda pode exceder minha expectativa de vida, mas é o tipo de risco que terei de correr. Bem, que sera sera. Inclusive uma cauda nova, daqui a umas três semanas. É sempre bom mudar o visual.

14 de fevereiro de 2013

[204] Episódio 3: Terça-feira Gorda



- Desde sexta o cenário não muda: uma plantação de cabeças agitadas pelo vento.
 - Mas não tá ventando.
- Não estrague o meu barato. Eu levei tempo para encontrar padrões entre essa gente aí embaixo e as ondulações de campos de trigo.
 - Quê?
  - Você sabe, o efeito visual que o vento exerce sobre a imensidão dourada. Pegue o leite na geladeira.
 - Cê está fazendo de novo.
 - O quê?
- Sendo cafona. “Imensidão dourada” é o tipo de coisa que minha professora de português diria. Ela tem uns 300 anos e um bigode maior que o seu. E onde é que você já viu plantação de trigo?
 - Ao vivo eu não vi em lugar nenhum, mas isso não faz a menor diferença. Na verdade eu tinha em mente as descrições dos trigais de Arles que Vincent fazia para o Theo.
 - Van Gogh?
 - Sim senhora. E isso significa que você estava ouvindo. Você não estava dormindo de verdade naquele dia em que assistimos o Kurosawa.
 - Claro que estava, filme chato pra burro. E que mania irritante essa de você achar que eu aprendo tudo com você. Agora não posso mais nem saber quem é Van Gogh?
 - Olha, você tem que reconhecer que eu me esforço para colocar um pouco de cultura nessa sua cabecinha dura, mesmo que nem sempre tenho êxito. Vou precisar de 4 ovos.
- Em compensação você nunca viu um campo de trigo na vida e acha que pode tirar uma com a minha cara.
 - Que os deuses que regulam os hormônios de todas as criaturas vivas me protejam da arrogância pré-adolescente! Eu não preciso partir numa expedição para o Trigal Desconhecido para criar uma metáfora. Além disso, plantações de trigo não são peixes abissais: não precisam ser mostradas em documentários da Discovery porque fazem parte do imaginário popular.
 - Mas não fazem mesmo. Tenho certeza de que só você fica pensando nessas coisas. Tô perdendo meu tempo: eu podia estar assistindo a final de America’s Next Top Model em vez de estar tendo essa conversa sobre trigo.
- Se te consola o episódio que você está perdendo não tem nada de mais. Aquela ruivinha que você gostava não tinha a menor chance – só chegou tão longe porque tinha uma história triste de família pra contar.
 - CARA, VOCÊ ACABOU COM A GRAÇA. POR QUE SEMPRE FAZ QUESTÃO DE CONTAR TODOS OS SPOILERS?
- A vitória da assimétrica do Kentucky não é um spoiler. Ou melhor, até chegou a ser um spoiler há mais de um ano, já que você estava acompanhando uma reprise.
 - E DAÍ?
 - E daí que spoilers têm data de validade. Porque estou sendo benevolente, posso conceder que um spoiler pode ser chamado dessa forma até, digamos, 15 dias após a exibição do programa ou filme em questão.
 - E depois?
 - Depois o problema é todo seu por ser lerda.
 - PUTA MERDA.
- Não sou sua mãe para controlar sua boca, mas, por favor, não deixe que ela pense que você está aprendendo a falar assim comigo. Não é como se ela pudesse arranjar espaço na agenda para aumentar a carga horária de sermões que ela faz.
- Você consegue ser bem mais chato que a minha mãe quando quer, sabia? Não sei por que eu ainda venho te visitar.
- Porque não há outra pessoa no mundo que cozinhe pra você no Dia da Panqueca.
 - Tá certo. O dia da panqueca é a melhor de todas as suas maluquices.
 - Vou ignorar o tom reprobatório para corrigir sua ignorância: o Dia da Panqueca é verdadeiramente uma instituição em alguns países de língua inglesa, principalmente na Inglaterra. Como você sabe ou deveria saber, o último dia de carnaval é chamado de Terça-feira Gorda, já que a Quarta-Feira de Cinzas marca o início da Quaresma, um período que para os cristãos significa ou deveria significar 40 dias de privações, penitências, jejum e purificação para a Páscoa. A panqueca entra nessa história porque é feita com açúcar, gordura e ovos: essencialmente bombas calóricas cujo consumo deveria evitado durante o período.
 - Às vezes acho que meu pai está certo e que você realmente engoliu a Wikipedia.
- Sinto muito mas “seu pai” e “certo” são duas coisas que não cabem na mesma frase sem que o universo entre em colapso. Ele jamais saberia a diferença entre a pesquisa apaixonada e o ritual bárbaro de cortar e colar da Wikipedia que se pratica por aí. Mas, de todo jeito, aprendi sobre o calendário religioso quando tinha mais ou menos a sua idade e minha mãe me obrigou a fazer catequese.
- Também aprendeu sobre panquecas na igreja?
- Quem me dera. Quem me contou sobre a parte das panquecas foi uma amiga da faculdade que gostava muito de cozinhar. Essa receita é dela, inclusive. Mais uma xícara de trigo, por favor.
 - Aí, você tinha mesmo que se mudar para o centro da cidade? Não vou conseguir dormir com essa gente cantando no meu ouvido. Posso raspar a vasilha?
 - Se você lavar a colher antes de colocar na massa pode. É o que eu estou tentando dizer esse tempo todo, Vivi. Desde sexta o cenário não muda: uma plantação de cabeças agitadas pelo vento.
 - Já disse que não tá ventando.
 - Sério que você quer começar tudo de novo?
- Minha mãe disse que puxei a você na facilidade para irritá-la.
 - Você até tem algum talento, mas vai ter que comer muita panqueca pra me alcançar. Quer assistir o quê  enquanto almoçamos?
- Qualquer coisa que não seja um filme do Kurosawa.
- Se você não gosta do meu jeito de passar o carnaval ano que vem podemos fazer diferente: podemos fundar o “Grêmio Recreativo Imensidão Dourada”. Imagina só! Posso pedir para a sua professora de português criar uma marchinha, saímos nesse sol para competir com o bloco lá embaixo e nos misturamos à plantação de cabeças que se agitam sem vento, como você faz questão de assinalar.
- Não abusa da sorte, tio Jorge, e me passa o leite condensado.
- Tudo bem, madame, a senhora é quem manda.


22 de janeiro de 2013

[204] O Cretino




As últimas palavras de Cristina antes de fechar a porta. Eu teria preferido um “se cuida”, “boa sorte” ou ainda um “quem sabe um dia a gente pode sair para um café, para conversarmos sobre trivialidades, sabe como é, a vida é tão curta para guardarmos tantas mágoas...”. Em um cenário ideal o que eu gostaria mesmo de ouvir seria uma declaração da impossibilidade do nosso amor abafada pelas lágrimas, um “vou sentir saudades”, mesmo que não fosse verdade (e não era) - mas faria bem à minha auto-estima de qualquer forma. Eu me declaro culpado do crime de cultivo, posse e tráfico de melodrama - me processem.


Naquela noite Cristina estava rouca, mas já havia parado de chorar há muito. Olhou para trás uma última vez - decerto para se certificar de que eu havia me cristalizado para sempre no formato “Ex-Namorado Ruim que Vai Me Ensinar Lições Preciosas Sobre Como Não Proceder em Meus Próximos Relacionamentos” e sentenciou: Cretino - e o pior é que eu sabia desde o início. Você é um cretino.

Meus primeiros momentos de solidão foram gastos na experimentação da sonoridade do par que fomos por quase dois anos e meio, agora desfeito: Cristina e Cretino, Cretino e Cristina. Soava bem, seria uma piada naquelas festas da escola dela que eu tanto odiava. Depois que me dei conta de que jamais seria convidado para outra confraternização com aqueles professores anestesiados, sabia que precisava me livrar ou justificar o epíteto com algo a mais do que a cota de pequenas maldades que adubam um relacionamento: recorri ao dicionário para ver se conseguia extrair algum sentido que me salvasse. O resultado da minha averiguação não foi muito promissor:

Cretino: adj. e s.m. Que ou aquele que, por deficiência mental ou orgânica, padece de incapacidade mental ou moral; retardado ou débil mental. Fig. Pessoa estúpida, imbecil, idiota; debiloide.

Não me dei por satisfeito, precisava ir além. Talvez a coisa toda não estivesse tão feia quanto parecia. O problema com os dicionários é o espírito pragmático que impede a elucubração: não há palavra simples o suficiente em qualquer língua conhecida para poder ser representada plenamente em uma descrição de três linhas, acredite em mim. Usei a primeira madrugada sem Cristina para aprofundar meus conhecimentos a respeito do termo. Descobri que há uma doença conhecida como cretinismo: uma debilidade mental atribuída a uma disfunção da tireoide, que não produz um hormônio chamado tiroxina, responsável pelo amadurecimento cerebral do feto no útero. Estou aqui escrevendo essas notas, correto? Não sou um problema médico, querida, embora você tenha marcado uma consulta para mim com aquele seu amigo psiquiatra que se achava Dono e Senhor da Razão.

Tampouco sou um problema religioso. Uma abordagem morfológica me mostrou que o termo cretino provém de um termo do dialeto franco-provençal “chretién”, que significava cristão. O sentido que damos hoje à palavra deriva do costume de usar a expressão “pobre cristão” significando louco, inocente com relação aos débeis mentais. Parei de ir à Igreja pouco depois da minha primeira comunhão. Abracei o zen durante a adolescência e até que a faculdade terminasse. Hoje me considero apenas um agnóstico com inclinações científicas e tendências místicas - descrição que Cristina considerava absurda, e para a qual costumava emendar a advertência de que eu precisaria encontrar outro uso para a Navalha de Occan que não fosse desenhar meu próprio cavanhaque.

O dia nasceu antes quando eu já estava me dando por vencido. Apenas ao me arrastar até a cama - a cama que jamais partilharíamos novamente - e fechar os olhos - menos para dormir do que para sentir melhor o cheiro dela - foi que a resposta veio, gloriosa. Como Eu não havia pensado nisso oito horas antes? Cretino poderia, afinal, ser um gentílico. Está certo que Cristina poderia ter utilizado a forma mais comum mas, dentre todos os motivos que fizeram com que eu me apaixonasse por ela, sem dúvida o mais importante de todos é o fato de que Cristina poderia ser qualquer coisa, não era óbvia. Ela simplesmente substituiu o sufixo -ense por -ino e fez de mim um cidadão de Creta.
Peguei o telefone para enviar, sonolento, a última mensagem de texto que ela receberia de mim - não que eu tencionasse cortar a comunicação, mas acabei descobrindo pouco depois que ela mudou de número e que não, eu não estava incluído no pacote de dados da operadora nova - palavras do pai dela, não minhas. Naquela manhã, no entanto, o número ainda era o mesmo, e digitei:

Tem toda razão. Eu sou mesmo um cretino. Um beijo.

Dormi até hora do almoço - que consistiu, na verdade, no conteúdo de nosso último jantar, intocado em um Tupperware, já que começamos a brigar antes que pudéssemos colocar a torta no microondas. Resolvi naquela tarde me dedicar à interpretação de antigos historiadores e topografias de labirintos. Eu precisava descobrir, afinal, que tipo de cretino eu era; homem ou quimera, rei, herói ou monstro.

Estabeleci um método de trabalho para empreender minhas pesquisas em vez de começar a embalar minha coleção de canecas e meus DVDs do Hitchcock. Teria dado certo, não fosse a insistência para que eu achasse um novo lugar para morar, que interrompeu o curso natural dos meus pensamentos. Um mês e três dias depois, após minha definitiva mudança de apartamento, retomo oficialmente o fio da pesquisa., ainda que precise admitir que, até o presente momento, os resultados ainda são inconclusivos.

Então, por hora, basta dizer que sou um cretino. A noite é longa, o resto se vê depois.  

15 de janeiro de 2013

[204] episódio piloto: Por uma psicologia das latas de lixo


É de conhecimento geral que é possível descobrir muitas coisas ao vasculhar o lixo de alguém. No entanto, talvez poucos saibam que todas as informações apuradas são consequência direta de um ponto de partida específico: a identificação do proprietário do lixo em em três categorias principais, a saber: 1) pessoas que separam materiais recicláveis; 2) pessoas que não separam e 3) pessoas que separam apenas de vez em quando. Se um dia eu tiver que ensinar alguém a garimpar informações no lixo essa será minha primeira lição.


Engana-se quem pensa que tal classificação serve para tecer hipóteses sobre uma pessoa a partir de seu comprometimento com a coleta seletiva. Na verdade, a disposição (ou ausência dela) para separar plásticos, e metais tem muito mais a ver com um certos estados de espírito e formas de encarar a vida do que com o nível de consciência ecológica de cada um. Ou, ao menos, o nível de consciência ecológica que cada um alega possuir. Um estudo de caso clássico que apresentaria nesse curso é Cristina. Vegetariana, com 12 horas semanais dedicadas a um trabalho voluntário numa ONG de adoção de cachorrinhos. Mas, ah, ela escondia um segredo sórdido dos coleguinhas protetores dos animais: Cristina era um Tipo 3.

Nos Dias Bons tinha paciência para dividir o lixo em dois sacos, mas os Dias Bons ocorriam apenas duas vezes por semana, coincidentemente quando não precisava dar aulas. Cansei de encontrar restos do jantar misturados com frascos vazios de shampoo. Nos sábados e domingos o responsável por levar o lixo para fora era eu, e eu, se ainda não está óbvio, sou um Tipo 1 - mesmo que durante um tempo, há alguns meses, eu tenha enviado sinais confusos para o latão do andar.

Se posso me defender, digo que fiz isso apenas porque estava desconfiado do vizinho do 302; outro Tipo 1 tão óbvio quanto a meia careca que deve ter adquirido antes dos 25 anos. Quem não possui instintos apurados - eu diria intuição, mesmo sob o risco de parecer pouco científico - não vai longe nesse negócio: algo me dizia que ele andava espiando nosso lixo. Pouco tempo depois, pelo tom áspero do “boa noite” que trocamos quando nos encontramos no elevador, percebi que não apenas minhas suspeitas não eram injustificadas, mas também que meus subterfúgios não o haviam enganado. Ao menos ele ficou sabendo que não estava lidando com nenhum amador, o que fez com que todo o trabalho que tive (para além de haver transgredido a muito custo minha natureza organizada e criteriosa) não parecesse inútil.


Mas, no fim das conta foi inútil, devo admitir. De nada adiantou estabelecer um subtexto que nortearia as bases da minha convivência com o vizinho do 302, porque não chegamos a aproveitá-lo. Menos de um mês depois do incidente do elevador Cristina avisou que eu precisaria encontrar outro lugar para morar. Não me pegou de surpresa: sou um bom analista de sinais e o lixo é apenas um dos meus muitos informantes.


Para além de ter sido um mês sem Dias Bons, consegui entrever - após ter reconstruído os pedaços de uma conta de celular - diversas ligações após a meia-noite para a melhor amiga dela. Talvez eu não precisasse ter ido tão longe, uma vez que tivemos brigas imensas em que Cristina, gritando, me acusava de loucura, paranoia e de assediar o vizinho do 302 no elevador com o que ela chamava de “minhas teorias da conspiração”. Mas o que posso fazer? Sou um Tipo 1 até o fim, mesmo que isso signifique que todas as minhas relações tenham como destino certo o latão de matéria orgânica.


Dos apartamentos que circulei na página dos classificados (que não jogarei fora: não darei o gosto da vitória ao vizinho do 302) o meu preferido situa-se em um edifício cinza, no centro da cidade. As taxas são baratas e a localização, perfeita - vista para a rua e latas de lixo amplas a cada andar. Não consegui despistar a mocinha da corretora para saber mais sobre meus vizinhos, mas não pude me dar ao luxo de esperar por informações adicionais para me decidir: Cristina foi passar uns dias com a mãe e avisou que me queria fora de casa durante esse intervalo. Terei de contar com a sorte, com a intuição e com meu ex-sogro que se ofereceu para fiar o aluguel, desde que eu mantivesse a maior distância possível da vida - e dos lixos, como ele fez questão de salientar - daquela família. Preciso mencionar que o pai de Cristina era um típico 2? Acho que não.