31 de janeiro de 2013

[505] Episódio 2: Ritual da Chuva Seca



E lá estava ela, sentada em minha frente, me contando sobre sua vida. "Descobri" que Sara tinha um filho - Daniel, de quatro anos - e que ele era a sua razão de viver. Nada que eu já não soubesse graças a uma breve visita ao seu perfil no facebook. A cada palavra proferida, eu tinha certeza que ela era uma mulher genial. Era bom ter alguém para conversar, alguém que realmente entendesse meu raciocínio rápido e que muitas vezes divagava em assuntos frívolos. Falávamos de violência urbana, Quentin Tarantino, escândalos políticos, J. K. Rowling e a novela das nove com a mesma seriedade. Compartilhávamos nossas teorias da conspiração sobre os mais diversos assuntos nas mais diversas áreas, sem julgamentos.
O que plantou a tempestade no nosso jantar foi um diálogo aparentemente simples:
─ E você, Mário? O que você faz no seu tempo livre?
Com um sorriso, respondi:
─ Não é meio óbvio? Eu leio, assisto filmes e ouço música.
─ Só?
─ Ah, e escrevo também.
─ Verdade, seu livro! Sobre o que é mesmo?
─ Sobre um detetive que investiga um serial killer...
─ Que mata as pessoas recriando cenas famosas do cinema, lembrei. E como vai o desenrolar da história?
─ Bom, até agora só consegui escrever o primeiro assassinato. Um Cão Andaluz.
─ Não brinca, com a gilete no...
─ Exatamente.
─ Ai, tenho pavor dessa cena! ─ exclamou ela, fazendo uma careta.
           Dei uma bela gargalhada com a reação dela.
─ É, bem marcante ela. Mas ultimamente ando com bloqueio criativo.
─ Não me admira - disse ela, séria, olhando nos meus olhos.
           Cheguei a me assustar.
─ Não se admira? Por quê? - indaguei.
─ Você vive uma vida nas sombras.
─ Vida nas sombras? Hein?
─ Tudo que você faz é ler esses livros, ouvir essas músicas, ver esses filmes. Sabe o Mito da Caverna?
─ Sei.
─ Então... Você tá fazendo basicamente aquilo. Assistindo sua vida através de sombras. Acha que pode viver a vida da cultura que absorve. Mas não se esqueça que a música, os livros e os filmes não refletem as pessoas de verdade:  são só o que os realizadores querem que elas sejam.
"O que os realizadores querem que elas sejam". Não tinha nenhum argumento para discutir. Ela tinha razão! Baseava a minha vida e todos os meus conhecimentos sobre a sociedade que me cercava, tudo que eu sabia daquelas pessoas que viviam oprimidas por um sistema capitalista e moravam em cubos monocromáticos como o meu em obras inventadas por outras pessoas, que podem ter tanto traquejo social e experiência prática em sociedade quanto eu. Só para confirmar, perguntei:
─ Então você quer dizer que eu devo sair daqui e me aventurar em todos os perigos da Cidade?
─ Basicamente. Mas no mundo das pessoas normais, isso se chama viver - retrucou ela, com um sorrisinho sarcástico no canto da boca.
Terminamos de comer e a convidei para sentar no sofá. Continuamos conversando, mas Sara preferiu observar cada componente de minha estante. Até que de repente nosso papo foi entrecortado por uma exclamação:
─ Adoro esse cd!
Ela o retirou da estante. Com o maior cuidado, abriu a caixa e o pôs no aparelho de som.
Eu fiquei em silêncio, observando seus movimentos graciosos e imaginando seus próximos passos. Usou os botões do aparelho para selecionar a faixa.
Faixa 10, indicava o display. Olhei para a capa em suas mãos: "Umbigobunker!?", do Jay Vaquer. Ela deu o play, se virou para mim, sorriu e me chamou, fazendo um gesto com as mãos.





"Quase não se contém
A ponto de comprometer
Custa encarar escadarias íngremes
Das relações
Fardo que lhe cai bem
Um alívio por também "sofrer"
Tenta enxergar infância
Nas crianças das recordações"

Assim que a música começou, ela começou a dançar, a rodopiar pela sala do meu apartamento. Nunca tinha entendido muito bem como a dança era uma forma de expressão tão forte até aquele momento. Junto com a música, com letra bem significativa, eu podia entendê-la. Eu a via transparente e cristalina feito água. Podia lê-la sob todos os borrões e cicatrizes do passado. Naquele momento ali, no meu apartamento, na minha sala de estar, ela só estava tentando ser ter a liberdade que seu tedioso cotidiano de vendedora e mãe trancafiou. Aqui, mesmo comigo, ela era livre.
Era tão forte que eu também não consegui resistir. Em um minuto e meio já me vi rodopiando pelo meu próprio apartamento, me sentindo livre das amarras que me prendiam. E a sensação de liberdade que percorria cada centímetro do meu corpo me fez perder o controle dos meus próprios movimentos. Eu só me movia como achava que tinha que me mover, era instintivo. Ali, eu entendi que eu poderia ser quem eu quisesse, poderia forjar uma vida em um livro como todos os outros autores daquela minha estante, sim. Só dependia de mim mesmo. Mas para que fingir?
Aproximei-me de Sara. Olhei em seus olhos e sorri. Ela sorriu de volta. A abracei pela cintura e recostei meu queixo sobre seu ombro, enquanto nossos pés continuavam a dança, agora sincronizados.
─ Sara... ─ chamei baixinho, com a boca quase em seu ouvido.
Ela fez que sim com a cabeça para mostrar que tinha escutado.

“Numa fome de santa ceia
Insetos presos na mesma teia
Dançam índios da mesma aldeia
Celebrando o ritual da chuva seca”

─ Me ensina a viver?

29 de janeiro de 2013

[106] Episódio 2 - Alice

Alice no País das Maravilhas – adaptação do romance de Lewis Carroll – Disney


O jornal sempre chega por volta das 6h, horário em que Lêda já acordou ou ainda não dormiu, dependendo da programação do dia anterior. Hoje, por exemplo, já estava de café tomado: três torradas, pão de fôrma com geleia de pimenta e queijo. Lavou a pilha de pratos. Tocaram a campanhia.

Abriu a porta de folha dupla. Esses serviçais não servem mais para nada, pensou. Era o segurança com o jornal. Sentou-se na chaise e folheou com calma até a coluna social. Sua foto estava no topo, à esquerda da página. Era a maior.

"Dona Lêda, como é conhecida na sociedade, tem importante influência nos sarais e nas mais novas private parties que tanto fazem sucesso. O high society da Cidade já esteve em seu apartamento nas mais diversas ocasiões em que Dona Lêda abriu suas portas.
Em comemoração ao seu último aniversário, a mais recente viúva brindou-nos com uma festa temática em seu pátio para cerca de 150 seletos convidados.
Deslumbrante como sempre, mesmo assumidamente tendo feito apenas três retoques no rosto ('as pálpebras, principalmente, sempre achei um pouquinho caídas'), a primeira Miss Cidade ganhadora do Miss Mundo sempre veste trajes da alta costura, valendo-se de modelos exclusivos.
Não obstante toda essa agenda de socialite, a matriarca do clã Alcântara arruma tempo para se dedicar à caridade, através da ONG fundada pelo seu falecido esposo, o empresário do ramo petrolífero Antenor de Barros Alcântara, denominada Fundação Lêda Alcântara, que se dedica a ajudar mães de crianças com câncer.
A festa coroou esta mulher à frente do seu tempo, que reorganizou o holding de empresas assumindo a presidência do grupo assim que a cadeira teve vacância pela ausência de seu esposo. As ações da empresa, antes em queda, subiram 123%. Hoje, desfruta da aposentadoria rodeada pelos seus três cachorros da raça Lulu da Pomerânia e seus sete criados”.
  

Lêda acorda. Respira. Tonta, acende a luminária. Olha o teto com gesso decorado-com-rococós. Ela ainda é ela e é isso.

Merda.

26 de janeiro de 2013

[403] Episódio 2: Tempus, Oris



(imagem: Quadro de Salvador Dali “Do Relógio”)

“O Tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem. o Tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem.” (Trava-línguas Popular)

Tempus, oris¹

De um sobressalto Mirella despertou. Peito arfando, agitado, gotas de suor escorriam pelo rosto. Sempre o mesmo tipo de sonho. Sentou-se entre os lençóis emaranhados, recompôs os cabelos e procurou pelo cigarro. Tateou a cabeceira da cama, as mesinhas que ficavam ao lado da mesma e só depois lembrou que havia deixado um maço para alguma emergência nas gavetas da sua mesa do escritório, no trabalho. Fazia tempo que não fumava. Havia prometido que naquele ano pararia. Promessa feita a Yemanjá na virada do ano. Estava conseguindo se não fossem os sonhos...

Fixou os olhos no despertador para ver as horas. Só uma brecha de luz entrava pela persiana pouco iluminando aquele ambiente. Acendeu a luminária que ficava na cabeceira da cama.

- Não é possível! 3h04 da madrugada!

Levantou-se e foi até a cozinha para ver se encontrava o sono, quem sabe ele havia fugido e se escondido por ali. Desejou ardentemente encontrá-lo naquela fatia de pudim de leite ou na compota de doce de banana. Bebeu um copo de água afinal pesaria menos em sua consciência. Que diabos! Acordaria com olheiras novamente e haja creme para disfarçar suas noites mal dormidas. Ouviria as mesmas piadinhas infames no escritório e disfarçaria com um sorrisinho debochado. Cambada de gente mal amada!

Acendeu um incenso, velas aromáticas e foi até a janela sentir um pouco do ar fresco que entrava prometendo mudança de tempo. Mudança de tempo para quem? Tudo que queria, naquele momento, era mudança de tempo. Tempo de agir. De parar de pensar. Esquecer. Viver mais e sonhar menos. Tempo de destemperar e gritar. Tempo atemporal para sentir o frescor que a idade madura lhe trazia.  Franziu a testa ao evocar este último pensamento tão clichê.

- Frescor? Idade madura? Como assim? Porra nenhuma! Tenho que encarar que estou envelhecendo e velhice anda ao par com enfermidades, rugas e mau humor. Aqui mesmo neste prédio velho e sem graça tenho exemplos disso!

Neste mesmo instante em que esbravejou e vomitou suas mágoas contra o tempo, colocou automaticamente a mão na boca para logo retirá-la e sorriu quando se deu conta que brigava consigo mesma em um tom mais alto e que seus vizinhos poderiam ouvi-la. Tinha a preocupação de não incomodá-los e sempre que podia lhes era gentil apesar de discordar da possibilidade de se possuir animais no prédio. Cachorros latem e uivam justamente à noite e gatos fedem. Mas não desgostava deles, apenas os suportava!

Estava se referindo aos vizinhos, claro!

Recostou-se na esquadria fria da janela e fitou o cintilar das luzes vermelha, verde e amarela do sinal luminoso à frente de sua vista e que piscavam alternadamente conduzindo os carros a uma dança frenética de vai e vem conforme sua coloração. Fixou tanto o olhar que elas se fundiram num verdadeiro espetáculo cromático.

Hipnotizada entregou-se aos seus devaneios.

Pensou em Luis que ainda não dera sinal de vida. Haveria ele desistido? Deveria ela entrar em contato novamente por e-mail? E Carlos? O que faria com ele? Ainda não tivera coragem de terminar tudo. Um vai e vem de romances mal resolvidos e inacabados revolviam em sua mente. Muitos homens, muitas experiências e nenhuma vida dividida com amizade, companheirismo, dedicação. Será que o futuro lhe reserva um encontro definitivo?

- Droga! Preciso dormir! Merda de insônia!

Esfregou os olhos, fechou a janela e foi até o banheiro.

Abriu a gaveta do armário que fica embaixo da pia. Por um instante vislumbrou a possibilidade de tomar uma droga e apagar. Detestava remédios e prezava pelos métodos mais naturais. Não entendia porque os guardava ainda. Parou por um instante, hesitante. Apoiando as duas mãos no mármore da pia abaixou a cabeça e depois a pendeu para trás pensativa. Ficou imóvel por alguns segundos até que acabou encarando o seu rosto pálido no espelho relembrando do tempo em que tantas vezes se drogara inutilmente. Desistiu.

Voltou para seu quarto. Preferiu pegar um livro.

Sentou-se novamente na cama, ajeitou seu almofadão nas costas, prendeu os cabelos em um coque no alto da cabeça, ajustou seus óculos e abriu o livro na página que havia parado na noite anterior retomando o capítulo que abordava sobre os arquétipos astrológicos.

Astrologia era uma de suas paixões.

Na verdade, tudo que se referia a esoterismo, ciências ocultas e simbolismos era alvo de sua atenção. Sempre que podia comprava livros e pesquisava artigos sobre o tema. Frequentou aulas, assistiu a seminários e até tentou finalizar um curso de formação em astrologia não sendo possível por falta de tempo para dedicar-se. Então acabou se tornando autodidata.

Levantou os olhos sobre os óculos deslizando-os com os dedos sobre a saliência do nariz e ao observar as horas no relógio percebeu que o tempo voara enquanto lia. O dia não tardaria a despertar. Um fiasco de sono lhe acariciava a cabeça e fazia que seus olhos sentissem o seu peso. Fechou o livro, jogou o almofadão no chão, puxou o lençol, desligou a luminária e tentou dormir.

Não fossem os latidos do cachorro do apartamento 505 com certeza teria adormecido antes do previsto. No entanto, pela janela de seu quarto, além dos cânticos caninos podia ouvir também sirenes, buzinas, vozes e passos apressados, lá embaixo, na calçada. Num gesto desesperador agarrou os travesseiros e colocou-os nos ouvidos tentando abafar os sons inoportunos.

Tarde demais.

O despertador esbravejou suas horas marcadas para o tempo que se julga ser o tempo mais importante da nossa vida: o tempo que se tem.



[1]  [F.: Do lat. tempus, oris. Ideia de ' tempo': cron(o)- (cronômetro); -cronia (sincronia); -crono (síncrono); -evo (longevo).]

23 de janeiro de 2013

[407] Episódio 2: Sorvete de Morango


Eu tenho memória gustativa. Será que isso existe? Dizem que tem gente que memoriza determinadas situações através do cheiro. Sabe quando você entra num ônibus e, dentre tantas cabeças suadas, tem uma, apenas uma, lavada com shampoo Darling de tampa roxa? Aí você sente o cheiro, lembra que usava Darling porque era o mais barato, numa época que pra comprar um Elseve você teria que sacrificar o lanche de uma semana, e vai divagando, divagando... você não entende nada do que eu estou falando? Bom, talvez só eu tenha dessas coisas estranhas. Memórias de cheiros e sabores.

Como sorvete. Cortaram a luz do apartamento esse mês de novo e eu tinha um monte de sorvete na geladeira. Tinha que comer tudo, mesmo que desse dor de barriga, porque o Buscopan é 3 e pouco, o pote da Kibon é 15. Saí da praça assim que o seu Lobato, cobrador dos infernos, desistiu de mim e foi embora. Entrei pela cozinha, fui à geladeira e peguei o pote, uma colherzona que ficou na pia do apartamento quando o último morador se mudou. Sentei no chão da sala e antes de continuar a contar minha saga, deixa eu falar da minha casa.

É deprimente. Olho minha sala talvez tão desolada quanto Brizola olharia os CIEPs hoje em dia. Cresci numa casa grande, de fazenda, laranjeiras e jabuticabeiras e plantações de beringela embora eu não goste de beringela e nem sei dizer se é com G ou com J. Isso aqui está para a casa da minha infância assim como salário de professor está para salário de deputado. Num canto, uma mesinha com um velho telefone fora do gancho, que o antigo morador também não quis levar. A mesinha ficou, o aparelho ficou, e às vezes eu me pergunto se eu deveria mesmo fazer o favor de pagar o aluguel dum apê entregue nestas condições... mas se não fosse a mesinha, não haveria mais nada na sala. Só eu, jogada igual criança no chão, comendo todo o resto do sorvete. O lindo jogo de sofá de vime que meu pai prometia me dar quando eu casasse jamais caberia ali.

No quarto, um colchão no chão, sem lençóis. As únicas coisas que consegui comprar foram justamente a geladeira e o fogão, uns pratos, uns copos e um cachorrinho, que dei o nome de Napoleão, mas morreu depois de dois dias aqui. O espaço era pouco pra mim, um cachorrinho, a geladeira e a goteira no quarto. Estranha, já que moro no quarto andar e tem mais um andar acima do meu. Pensando bem, Waterloo devia ser melhor que este lugar. Napoleão fez bem em morrer.

Sentada na minha sala, eu tinha memórias gustativas aflorando, como comentei no início. A casa onde cresci pertencia à família de minha mãe. Dela, vinha todo o dinheiro que nos sustentava. Aquele pai que eu tanto venerava era sedutor por profissão. Jogava, flertava com as esposas dos prefeitos, apostava, a vida de mamãe não foi legal. Um dia, eu estava sentada na varanda, uma tigela enorme de sorvete nas mãos, e vi quando ela saiu de casa gritando com um cara. Eu já era bem mocinha e ninguém me poupou da verdade: papai tinha vendido a casa e sequer avisou que teríamos que desocupá-la. Fomos pegas de surpresa quando o oficial chegou. Mamãe gritava tanto que a polícia veio buscá-la. E eu, atônita, o rosa do sorvete devia contrastar com o branco pálido da minha cara. Papai ferrou bonito com a vida da gente, ferrou com meus estudos (eu tinha acabado de ser admitida na melhor escola particular da cidade), ferrou com o meu cabelo, foi a partir daí que comecei a usar o Darling. “Você precisa ser bonita o bastante para conquistar um homem rico e legal, Ártemis, mas não o bastante para fazê-lo ser ciumento. Os homens não gostarão de você se você não for bonita, querida, e as mulheres não gostarão se você for.“ Malditas memórias gustativas, olfativas, malditas memórias. A gente podia desligar memórias, né? Selecionar as lembranças. Ter uma chave geral, como a luz cortada do meu apê.

Está ficando escuro demais e não consigo mais escrever. Amanhã talvez eu peça uma vela no vizinho e acabo de contar essa história do “papai querido“.

E parece que beringela é com J.

22 de janeiro de 2013

[204] O Cretino




As últimas palavras de Cristina antes de fechar a porta. Eu teria preferido um “se cuida”, “boa sorte” ou ainda um “quem sabe um dia a gente pode sair para um café, para conversarmos sobre trivialidades, sabe como é, a vida é tão curta para guardarmos tantas mágoas...”. Em um cenário ideal o que eu gostaria mesmo de ouvir seria uma declaração da impossibilidade do nosso amor abafada pelas lágrimas, um “vou sentir saudades”, mesmo que não fosse verdade (e não era) - mas faria bem à minha auto-estima de qualquer forma. Eu me declaro culpado do crime de cultivo, posse e tráfico de melodrama - me processem.


Naquela noite Cristina estava rouca, mas já havia parado de chorar há muito. Olhou para trás uma última vez - decerto para se certificar de que eu havia me cristalizado para sempre no formato “Ex-Namorado Ruim que Vai Me Ensinar Lições Preciosas Sobre Como Não Proceder em Meus Próximos Relacionamentos” e sentenciou: Cretino - e o pior é que eu sabia desde o início. Você é um cretino.

Meus primeiros momentos de solidão foram gastos na experimentação da sonoridade do par que fomos por quase dois anos e meio, agora desfeito: Cristina e Cretino, Cretino e Cristina. Soava bem, seria uma piada naquelas festas da escola dela que eu tanto odiava. Depois que me dei conta de que jamais seria convidado para outra confraternização com aqueles professores anestesiados, sabia que precisava me livrar ou justificar o epíteto com algo a mais do que a cota de pequenas maldades que adubam um relacionamento: recorri ao dicionário para ver se conseguia extrair algum sentido que me salvasse. O resultado da minha averiguação não foi muito promissor:

Cretino: adj. e s.m. Que ou aquele que, por deficiência mental ou orgânica, padece de incapacidade mental ou moral; retardado ou débil mental. Fig. Pessoa estúpida, imbecil, idiota; debiloide.

Não me dei por satisfeito, precisava ir além. Talvez a coisa toda não estivesse tão feia quanto parecia. O problema com os dicionários é o espírito pragmático que impede a elucubração: não há palavra simples o suficiente em qualquer língua conhecida para poder ser representada plenamente em uma descrição de três linhas, acredite em mim. Usei a primeira madrugada sem Cristina para aprofundar meus conhecimentos a respeito do termo. Descobri que há uma doença conhecida como cretinismo: uma debilidade mental atribuída a uma disfunção da tireoide, que não produz um hormônio chamado tiroxina, responsável pelo amadurecimento cerebral do feto no útero. Estou aqui escrevendo essas notas, correto? Não sou um problema médico, querida, embora você tenha marcado uma consulta para mim com aquele seu amigo psiquiatra que se achava Dono e Senhor da Razão.

Tampouco sou um problema religioso. Uma abordagem morfológica me mostrou que o termo cretino provém de um termo do dialeto franco-provençal “chretién”, que significava cristão. O sentido que damos hoje à palavra deriva do costume de usar a expressão “pobre cristão” significando louco, inocente com relação aos débeis mentais. Parei de ir à Igreja pouco depois da minha primeira comunhão. Abracei o zen durante a adolescência e até que a faculdade terminasse. Hoje me considero apenas um agnóstico com inclinações científicas e tendências místicas - descrição que Cristina considerava absurda, e para a qual costumava emendar a advertência de que eu precisaria encontrar outro uso para a Navalha de Occan que não fosse desenhar meu próprio cavanhaque.

O dia nasceu antes quando eu já estava me dando por vencido. Apenas ao me arrastar até a cama - a cama que jamais partilharíamos novamente - e fechar os olhos - menos para dormir do que para sentir melhor o cheiro dela - foi que a resposta veio, gloriosa. Como Eu não havia pensado nisso oito horas antes? Cretino poderia, afinal, ser um gentílico. Está certo que Cristina poderia ter utilizado a forma mais comum mas, dentre todos os motivos que fizeram com que eu me apaixonasse por ela, sem dúvida o mais importante de todos é o fato de que Cristina poderia ser qualquer coisa, não era óbvia. Ela simplesmente substituiu o sufixo -ense por -ino e fez de mim um cidadão de Creta.
Peguei o telefone para enviar, sonolento, a última mensagem de texto que ela receberia de mim - não que eu tencionasse cortar a comunicação, mas acabei descobrindo pouco depois que ela mudou de número e que não, eu não estava incluído no pacote de dados da operadora nova - palavras do pai dela, não minhas. Naquela manhã, no entanto, o número ainda era o mesmo, e digitei:

Tem toda razão. Eu sou mesmo um cretino. Um beijo.

Dormi até hora do almoço - que consistiu, na verdade, no conteúdo de nosso último jantar, intocado em um Tupperware, já que começamos a brigar antes que pudéssemos colocar a torta no microondas. Resolvi naquela tarde me dedicar à interpretação de antigos historiadores e topografias de labirintos. Eu precisava descobrir, afinal, que tipo de cretino eu era; homem ou quimera, rei, herói ou monstro.

Estabeleci um método de trabalho para empreender minhas pesquisas em vez de começar a embalar minha coleção de canecas e meus DVDs do Hitchcock. Teria dado certo, não fosse a insistência para que eu achasse um novo lugar para morar, que interrompeu o curso natural dos meus pensamentos. Um mês e três dias depois, após minha definitiva mudança de apartamento, retomo oficialmente o fio da pesquisa., ainda que precise admitir que, até o presente momento, os resultados ainda são inconclusivos.

Então, por hora, basta dizer que sou um cretino. A noite é longa, o resto se vê depois.  

19 de janeiro de 2013

[505] Episódio Piloto: A Coragem


             Essa pequena caixa sem cor que alguns ousam chamar de lar. Empilhada ordenadamente em cima de outras caixas iguais em tamanho, mas diferentes em conteúdo, que recortam o horizonte da Cidade. Aquele contraste entre o colorido e a liberdade do céu com o cinza e a clausura dos edifícios sempre foi o que mais me chamou a atenção no ambiente a minha volta. Gostava de observar o ponto exato onde o topo dos prédios e as nuvens se encontravam sem se encostar.
             Tirei a areia dos olhos, respirei fundo e me levantei da cama. Olhei-me no espelho: a barba sempre por fazer, aquelas olheiras enormes e uma barriga que denunciava falta de exercícios físicos. Peguei meus óculos na mesa de cabeceira. Sua armação grossa de cor preta marcava meu rosto, transformando-me na verdadeira idealização física do conceito de nerd.
            Acordei com a disposição de fazer algo que eu desejava há semanas. Semanas? Semanas não, meses. Talvez um ano ou mais. Quem sabe desde que eu me mudei para essa pequena caixa-quarto-sala-cozinha-banheiro.
            Tentei dar um jeito no ninho de corvo que algum dia tive coragem de chamar de cabelo. Escovei bem os dentes. Ao invés de vestir meu usual traje desleixado dos sábados de manhã, procurei algo no meu guarda-roupa que não soasse desesperado por atenção, carinho e afeto, mas passasse a impressão de que eu era uma pessoa socialmente aceitável. Acabei usando minha camisa d'O Justiceiro, junto com meu jeans surrado e meu par de Converse favorito.
Dei um bom dia a Monstro, meu cachorro de estimação. O nome dele foi eu mesmo quem escolhi, pelo fato de ele ser o cãozinho mais feio do canil. Foi amor a primeira vista. Me vejo muito nele. Sabe quando dizem que os cães se parecem com seus donos? Pois bem: nenhuma criança em sã consciência e/ou sem problemas de visão o escolheria no meio de tantos vira-latinhas adoráveis. Mas isso não queria dizer que ele não tinha amor para dar, pelo contrário. Monstro é o cão mais atencioso dentre os três dos quais eu já fui dono nesses meus vinte e dois anos de vida.
Peguei as chaves e saí de casa. Sabia do desafio que era descer cinco andares de escada a pé, mas eu realmente precisava de exercícios, além do elevador do prédio ser muito lento e macabro. Daqueles com grade, sabe? Acho que minhas relações com elevadores nunca mais foram as mesmas depois que assisti Demônio, do Shyamalan. Segui na calçada e tentei olhá-la discretamente quando passei em frente a livraria. Lá estava ela, como eu imaginava que estivesse: com aqueles cabelos ondulados e ruivos que chegavam ao meio das costas. Ela enrolava uma mecha, tentava fazer um cacho com o dedo indicador direito. Ela sempre fazia isso. Era um tique.
Virei-me a tempo de desviar do poste que estava bem na minha frente. Andei mais uns cem metros e cheguei ao mercado, que ficava na esquina do quarteirão. Nesse ponto, morar nessa minha caixa cinza era extremamente prazeroso: tudo que me era vital ficava relativamente perto e eu não precisava enfrentar essa experiência terrível que os habitantes da Cidade chamam de transporte coletivo. A herança deixada pelo meu pai permitiu que eu estudasse o suficiente para poder trabalhar sem sair da frente do computador. Sou programador, e ganho muito dinheiro para transformar ideias estúpidas em realidade na rede mundial de computadores. Se eu me sinto feliz com isso? Sim e não. Sim porque graças a isso tenho tempo e disposição para colocar meus projetos literários em andamento, e não porque eu odiava meu trabalho.
Quando me dei conta, minha cesta do mercado já estava cheia. Conferi a lista de compras que havia feito na noite anterior quando arquitetei todo o plano. Havia comprado tudo. Dirigi-me até o caixa, onde a funcionária me cumprimentou com a típica falsidade do “muito obrigado por me fazer trabalhar num sábado enquanto você está aí fazendo compras”. Retribuí o sorriso, passei o cartão de débito, peguei minhas sacolas e saí dali.
Comecei a refazer meu caminho de volta, com meu coração saltando cada vez mais rápido dentro do meu peito. Tive que me lembrar várias vezes de que respirar era vital, e usei de muita energia para tentar controlar o tremor dos meus pés e das minhas mãos. Enfim cheguei em frente à livraria novamente. Ainda dava tempo de correr para casa, me trancar com a chave e jogá-la privada abaixo para me livrar de cometer alguma estupidez. Mas algo dentro de mim me dizia para fazer isso. Eu admirava essa mulher há muito tempo. Era a única mulher com quem eu conversava, na verdade. Minha única amiga (tirando Monstro, é claro). Era ela a minha inspiração. E além do mais, não morreria por perguntar uma coisa. Pelo menos, acho que não.
Entrei.
─ Bom dia, Mário!
─ Bom dia, Sara. Tudo bem? ─ respondi, e já sentia minha garganta secando. Não sabia se essa intimidade que tínhamos por comprar em sua livraria a alguns anos era o limite. Queria cruzá-lo, transcendê-lo. E eu estava disposto a tentar, embora meu corpo e mente relutassem um pouco.
─ Tudo ótimo. O que te traz aqui hoje?
Droga. As... palavras... têm... que... sair...
─ Bom... É... Na verdade...
Ai, droga. Aqueles olhos cor de mel piscando para mim... Aquelas sardas... Quase uma versão mais sóbria da Lindsay Lohan.
─ O que você vai... fazer hoje à noite?
Ufa!
─ Hoje à noite? ─ repetiu ela. E começou a pensar.
Enquanto externamente eu esperava tranquilamente uma resposta, meu estômago fazia movimentos que deixariam uma ginasta olímpica com inveja.
─ Bom, não tenho nenhum compromisso. Por quê?
Tudo correndo como eu imaginei! Como assim? Será que vai dar tudo certo? Não, impossível. Isso aí está muito fácil.

─ Bom, é que me deu vontade de assistir Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol e, bem... sei que você gosta dos filmes e... sabe, seria bom uma companhia.
Finalmente tomei coragem e olhei diretamente nos olhos dela ao dizer as últimas palavras da sentença. Vi o sorriso branco se alastrar pelo seu rosto, aquele sorriso capaz de cegar momentaneamente algum desavisado.
─ Eu adoraria. Mas não posso te dar uma certeza. Tenho uma coisa para... Digamos, resolver antes de poder sair de casa. Fica num talvez, ok?
Talvez? Talvez... T-A-L-V-E-Z. Eu cheguei tão longe para ouvir um “talvez”. Ótimo. Se ela não for a comida que eu acabei de comprar no mercado vai me alimentar por uma semana inteira. Mas tudo bem, manterei minha compostura. Afinal, cheguei aqui esperando um “não”. Um talvez já me torna quase um vencedor. Sei agora exatamente como Rubens Barrichello se sente.

─ Tudo bem. Se você resolver e conseguir ir, bem... Te espero às oito.
Ela acena com a cabeça.
─ Mais alguma coisa? ─ completa ela com aquele discurso introjetado de proletária do varejo.
─ Ah, tenho... Será que teria como você conseguir um livro para mim?
─ Claro! Esse é o meu trabalho, minha especialidade! ─ respondeu ela, inflando o peito, exaltando seu trabalho. E eu só conseguia pensar em como ela era linda até detrás de um balcão.

─ Bom, eu queria O Certo É O Contrário, do Ivan Jaf. É um livro que eu li quando criança que marcou muito a minha vida. Adoraria tê-lo de volta na minha coleção.
Enquanto me ouvia, ela tamborilava os dedos no balcão. Outro tique.
─ Hmmm... O Certo É O Contrário, não é? Vou procurar.
Assenti. Peguei minhas sacolas que tinha colocado no chão e, ao me retirar, disse, tentando forçar um pouquinho de drama:
─ Ok. Muito obrigado. Te vejo à noite, talvez.


O peso das minhas bolsas não me deixou subir os cinco andares de escada. Resolvi encarar o elevador mesmo. Chamei-o, e em um minuto ele chegou ao chão, emitindo ruídos que ecoavam no corredor vazio. A grade se abriu, e, ao abrir a grossa porta de madeira que separa a entrada do elevador do salão, vejo uma senhora de meia idade saindo daquela caixinha minúscula. Se eu não me engano, ela mora no 304. Me olhou bem, de cima a baixo, e depois seguiu caminho. Acho que ela não gostou muito que viu.
Assim que cheguei ao 505, não perdi um minuto sequer: comecei a faxina, com Monstro me seguindo pela casa. Banheiro, quarto (nunca se sabe, né?) e por último a sala, meu maior desafio. Como limpar uma estante de três metros de altura por outros três de largura cheia de CDs, DVDs e livros? Fui espanando um por um, e tendo insights ora nostálgicos, ora dramáticos sobre cada um deles.
Cheguei à cozinha lá pelas cinco e comecei a preparar a comida. Nada de muito inventivo. Só um espaguete com almôndegas e um vinhozinho de qualidade mediana. Não sei se essa refeição lembra vocês de algum filme de romance muito peculiar...
Tudo parecia deliciosamente certo às sete e meia. Limpei a sujeira que tinha feito na cozinha, tomei um banho, fiz minha barba e escolhi uma roupa legal: uma camisa de botões xadrez, uma calça jeans skinny e meu par de Converse que parecia fazer parte dos meus pés. Não sei se isso era ansiedade ou medo de rejeição, mas precisava me olhar no espelho com frequência. Talvez para buscar reafirmação de minha aparência ou apenas para verificar se tudo estava no mesmo lugar onde eu havia colocado. Nenhum fio de cabelo se mexeu.
Oito. Sentei no sofá e fiquei encarando a estante. E os mais de cinquenta livros. E a inúmera quantidade de CDs e DVDs. Não tive coragem de ligar o som ou a TV, com medo de não ouvir o interfone. Fiquei encarando todos aqueles objetos inanimados na minha frente, e me dei conta de quão isolado e conectado ao mundo eu sou ao mesmo tempo. Os livros, as músicas os filmes ─ eles me fizeram viajar, imaginar, me sentir confortável, me consolaram e me aconselharam, mas me privaram de uma coisa que eu nunca havia sentido falta ou saudade: calor humano.
Desde que meus pais morreram, no dia do meu aniversário de dezoito anos, resolvi que iria seguir minha vida sozinho. Não precisa de parentes crentes me atentando: nada contra a religião, mas tudo contra o cabresto imposto e o furto com permissão do proprietário. Não queria ser alienado como eles, então resolvi mudar radicalmente: vim para a Cidade, comprei essa caixa para mim e cá estou eu, vivendo essa minha medíocre vida.
Nesses quatro anos, raras foram as vezes que eu tive contato com pessoas de verdade (fora os locais onde o contato era inevitável, como na faculdade, com funcionários do comércio em geral e com a Sara). Tudo que eu podia eu comprava na internet. Evitava sair de casa (apesar de ser obrigado a, pelo menos uma vez por dia, levar Monstro para passear e fazer suas necessidades). Os moradores do prédio deveriam ter teorias fantásticas sobre mim. Adoraria escutá-las.
Oito e meia e nada. Nenhum barulho. Nenhum toque no interfone. Estou pensando seriamente em assistir aos dois filmes comendo todo o macarrão, diretamente da panela.Vou até a estante e os retiro de lá. Sento ao sofá novamente e fico lendo as sinopses, imaginando como vai ser Antes da Meia Noite, a continuação que ainda vai ser lançada. Se Sara aparecer hoje, quem sabe eu a convide para ir ao cinema comigo assistir?
Oito e quarenta e cinco. Não, ela não vai mais aparecer. Preparo um prato de macarrão para mim. Bem caprichado, claro, para enfrentar a derrota do dia. Encho a minha taça de vinho. Coloco uma toalha de prato no pescoço, como se fosse um babador, já que apesar de ter mais de duas décadas de idade ainda não prendi a comer macarrão sem me sujar. Ao colocar a primeira garfada na boca (sem querer me gabar, meu macarrão está mesmo delicioso!), ouço um ruído. Um som incômodo, que não me lembro de ter ouvido antes.
E mais uma vez, outra vez, e outra. Era o interfone. Saio correndo e mastigando o macarrão ao mesmo tempo. Tiro o fone do gancho.
─ Oi, Mário?
─ Sara! Vem, pode subir.
Apertei o botão.
─ A porta aí... abriu?
─ Abriu sim, tô subindo!
Fosse ela subir as escadas ou vir de elevador, isso me dava menos de dois minutos para dar os últimos retoques. Joguei a toalha do pescoço longe, servi um prato para ela num lugar a mesa bem na minha frente, enchi sua taça de vinho. Só espero que ela aprecie a refeição. Só espero que dê tudo certo...
Alguém bate a porta. Abro. Ela me olha com aqueles olhos que sempre parecem tentar me decifrar e sorri. Eu me detenho um instante para poder olhá-la e gravar aquele momento: assim como a inacreditável beleza da heterogeneidade entre o céu e os edifícios, que parecem se tocar no infinito, mas nunca alcançam um ao outro, vejo meu mundo e o de Sara em uma breve colisão. Espero não haver erros no cálculo da rota.

18 de janeiro de 2013

[407] Episódio Piloto - A Flor do Asfalto

Uma vez mais estou eu aqui, sentada no banco da praça às cinco da tarde. Distraidamente disputando espaço na sombra com meninos do tráfico, velhinhos e prostitutas. Porque toda praça de cidade grande é cinza e é cheia de gente cinza, suas vidas cinzas como o chão que pisam. Nem sei de onde tirei a ideia besta de não lutar pelo verde-mato que viu nascer. Eu queria palcos e shows de luzes, eu vim para estudar poesia, mas ainda na rodoviária pude ver a fumaça industrial gritando que ali não era o meu lugar. Mas eu não poderia voltar. Me sentia cuspida.

Pode parecer uma simples metáfora de “oh, como a garotinha do interior se sente presa na vida urbana“, mas a verdade é que estou aqui fugindo do aluguel. Nada romântico confessar isso, mas só neste mês é a terceira vez que o síndico aparece por lá. Que eu vou dizer? Abrir meu melhor sorriso e pedir que me dê mais uma semana, como fiz nas outras duas vezes? Oferecer uma caipirinha e falar sobre como o tempo está cinza nesse lugar de merda, que meu perfume de flores faz um favor a esta fedentina industrial? É olhar a cara condescendente daquele barbudo e lembrar a do meu pai. “Você ainda vai se ferrar e muito.“ Hello, papai, seu emprego de Nostradamus da vida da Ártemis está garantido, viu? Pago com caipirinhas, o senhor vai adorar.

Ele poderia ter me chamado de Maria, Juliana, Géssica, Ana, Alice, Samara, Ivete, até Bianca ou Carolina, mas me chamou de Ártemis. “A deusa da caça, meu amor.“ Ok, então por que não Diana? Tem noção da chatice que é explicar esse nome de merda pras pessoas? “Nome de flor, querida?“ “Não, nome de deusa. Deusa da caça e da vida selvagem. É que meu pai era Nostradamus e previu que eu iria vir morar nessa selvageria de Cidade, e em algum momento ia esperar ônibus justo com a senhora“. Mamãe dizia que se ele tivesse colocado Diana, eu choraria por não ter um nome tão legal como Ártemis. Talvez ela tivesse alguma razão. A verdade é que não suporto a ideia de que carrego pra sempre um carimbo que ele tenha escolhido. Velho escroto.

Quando eu era criança, achava o máximo aquele cara. Uma vez minha mãe cortou meu cabelo por causa de piolho e eu entrei numa depressão medonha, não queria nem ir à escola. Ele me mostrou uma foto da princesa Diana e olha que legal: ela tinha os cabelos curtos! E o nome parecido com o meu. “Seria uma coincidência, Ártemis? Quer apostar que na próxima semana todas as meninas estarão com os cabelos curtos, para ficarem iguaizinhas à minha princesa Ártemis?“. Velho desgraçado. Elas estavam mesmo, todas com o cabelo curtinho. Todas piolhentas também. E eu achando que tava lançando moda. 

Eu sempre fui magrelinha e branquela, meio doente. Não tinha aqueles lindos olhos da princesa, nem seus cabelos dourados, mas o nariz horroroso era igualzinho. Eu andava e me portava como uma princesa, cabelos pretos como Branca de Neve, olhos enormes de Pocahontas e filha de um Ali Babá que por si só já valia os quarenta ladrões. Todos me viam quando eu passava. Eu só não sabia que os comentários gerais eram “olha, não é a filha daquele cara?“. Como eu acreditava que era admirada, evitava os olhares, aprendi a fugir. Estou botando em prática agora, o maldito barbudo foi embora. Mas ele, como os outros, não me admira nenhum pouco. A diferença é que agora eu não tenho mais as mesmas ilusões.

Preciso voltar pro prédio, comer todo aquele sorvete antes que derreta e chorar até de manhã, pra ver se descubro como pagar a luz e o aluguel do mês, antes que o barbudo volte. A deusa vai caçar o que, pra alimentar quem?

Sou feia, mas sou uma flor. Furei o asfalto, o tédio, o nojo, o ódio e até fugi da emboscada do barbudo, mas até quando? Preciso dar um jeito, não posso fugir pra sempre. E vaguear a praça com os velhinhos e prostitutas não é o final feliz que pretende a princesa Ártemis.

17 de janeiro de 2013

[403] Episódio piloto: Cotidiano




"O que me mata é o cotidiano. Eu queria só exceções." (Clarice Lispector)



O relógio a despertou às 6h45. Com o corpo ainda amassado da noite mal dormida rolou na cama por alguns segundos.Tentou voltar a dormir. A consciência sussurrava ao seu ouvido palavras de responsabilidade chamando-a aos deveres daquele dia.Só mais alguns segundinhos, pensou. O sol da manhã entrava pelas frestas da persiana, que propositadamente ficavam entreabertas. Gostava de sentir aquele calorzinho em sua pele. A cama ficava posicionada de tal forma que captava toda energia solar e isso a fazia sentir que tinha luz naquele ambiente triste. Novamente o som irritadiço do despertador, máquina infernal, avisando que já era tempo de parar de sonhar. O que fazer então senão sair daquele abraço aconchegante de seus lençóis e encarar mais um dia!

Levantou-se cambaleante, a camisola desfeita deixava cair uma de suas alças, desnudando seus seios, e, ao olhar-se no espelho, viu-se mulher. Uma mulher bonita, simples, madura! Lembrou-se de sua adolescência e de tempos perdidos em choros e lamentações por causa de gordurinhas a mais que só existiam na ficção e na sua mente doentia em busca de um corpo perfeito. Sorriu! Quanta futilidade, pensou. Consolou-se com a ideia de que adolescer é isso também! Suspirou aliviada ao reconhecer naquela imagem uma mulher refeita, recompensada e reeditada. Passou ilesa daquela fase, apesar de ainda sentir que perde tempo demais com gordurinhas imaginárias. Sorriu novamente. Abriu o chuveiro e deixou que a água morna massageasse seu corpo, trazendo-lhe um sentimento de prazer reconfortante. Hoje seria mais um dia e que dia!


Enquanto se banhava, sua mente parecia um filme em alta rotação; vinham pensamentos confusos e inquietantes que a atormentavam! Queria relaxar, mas seria impossível naquele instante! Por que os erros que cometemos são tão significativos ao ponto de transformarem palavras e quebrarem silêncios escondidos?! Como gostaria de poder rebobinar o filme da minha vida e consertar certos episódios, editando-os, como se fossem fitas. Simples rolos de fitas os quais podemos recortar e recompor a nosso bel prazer! No instante que fazia essas reflexões recuperava seu bom humor ao perceber que esses pensamentos eram tão comuns ao ser humano, afinal quem não gostaria de ter essa chance? Sacudiu o cabelo, enrolou-se na toalha, limpou com sua mão o espelho embaçado e ficou ali, paralisada por alguns instantes, vendo seu rosto refletido, no qual algumas ruguinhas começavam a aparecer! Num gesto caricato sacudiu novamente a cabeça como se quisesse afastar tais pensamentos e quem sabe, de quebra, as ditas ruguinhas! Fitou-se novamente e percebeu que as benditas ainda estavam lá. Sorriu mais uma vez. Sorrir era uma marca em sua personalidade, como que, por magia, o sorriso a fizesse mudar por instantes alguma situação desagradável! Suspirou! Penteando os longos cabelos, voltou a se absorver em seus pensamentos. Agora não via mais sua imagem refletida, era como se tudo ficasse embaçado novamente e seus pensamentos ganhassem voz. Será que estou arrependida de algo que fiz? Acho que não! Há não ser daquilo que possa ter sido motivo de mágoa para alguém! Talvez me arrependa de ter dito tantos "sins" quando na verdade, queria ter dito "Não" e, com isso, ter poupado tantos momentos indigestos. Esse deve ser o motivo de suas azias.

O telefone tocou!

Despertou de seus devaneios e correu para atender a chamada.


O caminho entre o banheiro e o telefone parecia eterno. Muitas sensações a acometeram e pensamentos dos mais variados relampejaram pela sua cabeça. Apenas uma razão a fazia correr para atender aquela chamada: Luis. Conheceu-o através da internet de uma forma inesperada. Estava acostumada a sites de relacionamentos e já havia até saído com alguns homens que conhecera através deles. Nada diferente e acabou se distanciando um pouco dos mesmos. Só que dessa vez foi incomum; recebeu um e-mail que lhe despertou curiosidade e o respondeu. Não tinha por hábito ler e-mails de desconhecidos, mas aquele era diferente, algo lhe chamou a atenção e resolveu responder para conhecer seu portador. Era uma mensagem particular e ela achou que deveria reencaminhá-la. Foi o suficiente para que as conversas dessem continuidade pelo msn. Fazia tempo que as coisas andavam mornas para seu lado, nada acontecia, seu relacionamento atual andava sem graça. Quando Luis surgiu vislumbrou uma imensa sensação de liberdade! Porém, aqueles encontros tão esperados não aconteceram. Por algum motivo que ainda desconhece, não teve mais notícias de Luis. Eles mantinham contato só no virtual, apesar de morarem na mesma cidade! Na última vez que se falaram, Luis insistiu que lhe desse o número de seu telefone, e, apesar dela relutar muito, acabou cedendo. Desde então passou a guardar enorme ansiedade quando ouvia o tilintar daquele aparelhinho!Eis a única e ansiosa razão que a levou a sair de seus devaneios matinais e correr para o telefone!


- Alô! ouviu o silêncio... um breve espaço de tempo para ouvir a resposta que mais parecia uma eternidade!


- Oi... silêncio reticente. Uma voz já conhecida e nada animadora respondeu do outro lado. Toda energia se dissipou. O céu voltou a ficar cinza, o espelho do banheiro voltou a embaçar e sua resposta foi apenas cordial. Trocaram algumas informações necessárias, do tipo tá tudo bem sim, e fim. Ponto. Nada mais. Triste, pensou. O que faz com que uma mulher fique empurrando um relacionamento, quando este já está a beira do naufrágio?! O que a leva a ficar nesse banho maria, nessa mesmice, se enterrando e escondendo quando a vida lá fora pulsa?! Sei lá, respondeu para si mesma. Provavelmente um pouco de medo, insegurança, acomodação... suspirou! Tudo poderia mudar se a voz ao telefone fosse outra! Ajeitou os cabelos, bebericou um café, comeu uma torrada, voltou ao espelho, agora desembaçado, escovou os dentes, salpicou um batom, pegou a bolsa e as chaves do carro e se despediu daquele dia. Foi ao encontro de sua rotina tentando esquecer suas divagações.


15 de janeiro de 2013

[204] episódio piloto: Por uma psicologia das latas de lixo


É de conhecimento geral que é possível descobrir muitas coisas ao vasculhar o lixo de alguém. No entanto, talvez poucos saibam que todas as informações apuradas são consequência direta de um ponto de partida específico: a identificação do proprietário do lixo em em três categorias principais, a saber: 1) pessoas que separam materiais recicláveis; 2) pessoas que não separam e 3) pessoas que separam apenas de vez em quando. Se um dia eu tiver que ensinar alguém a garimpar informações no lixo essa será minha primeira lição.


Engana-se quem pensa que tal classificação serve para tecer hipóteses sobre uma pessoa a partir de seu comprometimento com a coleta seletiva. Na verdade, a disposição (ou ausência dela) para separar plásticos, e metais tem muito mais a ver com um certos estados de espírito e formas de encarar a vida do que com o nível de consciência ecológica de cada um. Ou, ao menos, o nível de consciência ecológica que cada um alega possuir. Um estudo de caso clássico que apresentaria nesse curso é Cristina. Vegetariana, com 12 horas semanais dedicadas a um trabalho voluntário numa ONG de adoção de cachorrinhos. Mas, ah, ela escondia um segredo sórdido dos coleguinhas protetores dos animais: Cristina era um Tipo 3.

Nos Dias Bons tinha paciência para dividir o lixo em dois sacos, mas os Dias Bons ocorriam apenas duas vezes por semana, coincidentemente quando não precisava dar aulas. Cansei de encontrar restos do jantar misturados com frascos vazios de shampoo. Nos sábados e domingos o responsável por levar o lixo para fora era eu, e eu, se ainda não está óbvio, sou um Tipo 1 - mesmo que durante um tempo, há alguns meses, eu tenha enviado sinais confusos para o latão do andar.

Se posso me defender, digo que fiz isso apenas porque estava desconfiado do vizinho do 302; outro Tipo 1 tão óbvio quanto a meia careca que deve ter adquirido antes dos 25 anos. Quem não possui instintos apurados - eu diria intuição, mesmo sob o risco de parecer pouco científico - não vai longe nesse negócio: algo me dizia que ele andava espiando nosso lixo. Pouco tempo depois, pelo tom áspero do “boa noite” que trocamos quando nos encontramos no elevador, percebi que não apenas minhas suspeitas não eram injustificadas, mas também que meus subterfúgios não o haviam enganado. Ao menos ele ficou sabendo que não estava lidando com nenhum amador, o que fez com que todo o trabalho que tive (para além de haver transgredido a muito custo minha natureza organizada e criteriosa) não parecesse inútil.


Mas, no fim das conta foi inútil, devo admitir. De nada adiantou estabelecer um subtexto que nortearia as bases da minha convivência com o vizinho do 302, porque não chegamos a aproveitá-lo. Menos de um mês depois do incidente do elevador Cristina avisou que eu precisaria encontrar outro lugar para morar. Não me pegou de surpresa: sou um bom analista de sinais e o lixo é apenas um dos meus muitos informantes.


Para além de ter sido um mês sem Dias Bons, consegui entrever - após ter reconstruído os pedaços de uma conta de celular - diversas ligações após a meia-noite para a melhor amiga dela. Talvez eu não precisasse ter ido tão longe, uma vez que tivemos brigas imensas em que Cristina, gritando, me acusava de loucura, paranoia e de assediar o vizinho do 302 no elevador com o que ela chamava de “minhas teorias da conspiração”. Mas o que posso fazer? Sou um Tipo 1 até o fim, mesmo que isso signifique que todas as minhas relações tenham como destino certo o latão de matéria orgânica.


Dos apartamentos que circulei na página dos classificados (que não jogarei fora: não darei o gosto da vitória ao vizinho do 302) o meu preferido situa-se em um edifício cinza, no centro da cidade. As taxas são baratas e a localização, perfeita - vista para a rua e latas de lixo amplas a cada andar. Não consegui despistar a mocinha da corretora para saber mais sobre meus vizinhos, mas não pude me dar ao luxo de esperar por informações adicionais para me decidir: Cristina foi passar uns dias com a mãe e avisou que me queria fora de casa durante esse intervalo. Terei de contar com a sorte, com a intuição e com meu ex-sogro que se ofereceu para fiar o aluguel, desde que eu mantivesse a maior distância possível da vida - e dos lixos, como ele fez questão de salientar - daquela família. Preciso mencionar que o pai de Cristina era um típico 2? Acho que não.


14 de janeiro de 2013

[106] Episódio piloto: Causa mortis


Foi só um momento. Como todas as pequenas coisas que acontecem e depois percebemos que de pequenas não tinham nada. Foi sempre só um pequeno momento. O momento em que o conheci, o momento em que disse sim, o momento em que me entreguei e o momento no qual eu estava naquele quarto do hospital tendo que entender que agora seria eu por eu e por mim mesma. Quarenta e cinco anos começam em um momento. Quarenta e cinco anos acabam em um momento.

O que se sucede entre os momentos nos quais acontecem pequenas coisas que, na verdade, não são pequenas, chama-se abismo, sem fim. Os doze anos seguintes àquele duram uma eternidade. Não existem mais pequenos nem grandes nem nenhum tipo de momento neste apartamento suburbano de dois quartos mobiliado do mesmo jeito desde a década de setenta, quando me mudei para cá.

Criei meus filhos aqui. Agora, meus filhos perderam a mãe. Eu, a vida. Dizem que, quando um cachorro sabe que vai morrer, ele some para que o possa fazer sozinho, isolado, em paz. Mesmo eu não sendo uma cadela, decidi que era minha hora de fazer o mesmo. E, veja bem, não tentei suicídio. Morri à francesa, sem causar escândalo. Morri sem velório e sem enterro. Sem caixão, sem corpo, sem vela. Continuei pensando, comendo, cagando, falando, comprando, morando e todas essas coisas que fazem a sociedade e o doutor definir quem ainda está vivo. O rim funciona até hoje. Perfeitinho. Sou como quando se apaga a luz. Tudo está ali, no escuro, ou não está mais, já se foi e não se viu?

Essas paredes coloridas já viram muita alegria. Hoje, ouvem a alegria dos vizinhos com o mesmo pesar que eu. Meu azar é ter a cabeça boa e não esquecer nunca dos remédios, é o que sempre digo. É o que sempre digo para as paredes. Mas será que elas já não estão cansadas de me ouvir?

13 de janeiro de 2013

[101] Episódio piloto: O pó, o velho.


O céu cinza, a estrada cheia de pó, os canhões cheios de cinzas, as cinzas dos corpos espalhados, o pó da alma humana. Tiros. Gritos. Os clarões que vêm do céu aqui não são das estrelas. Os gritos aqui não são das crianças brincando nas ruas. As bolas daqui não são de vidro. A correria não é das brincadeiras. O amor aqui não existe.
- Acorda soldado! Grita o chefe do pelotão da força expedicionária brasileira para o soldado Öcsi.
O olhar do soldado percorre o morro, os clarões das granadas, os gritos dos soldados atravessados por tiros, o sangue que escorria do uniforme e sujava de vermelho a terra escura do campo de batalha.
- Cuidado soldado! O tiro, o som, a bala penetrando a carne do companheiro, o corpo caindo sobre os braços do soldado. O fôlego se perdendo, a respiração dificultada pelo ar rarefeito da altitude do morro. O olhar assustado. A mão que levanta e vê o vermelho do sangue na mão preta de graxa.
- Matheu, aguente firme, não nos deixe.
- Não consigo, Célio, meu corpo dói, minha alma dói, é meu fim, diga que lutei.
- Não, Matheu, aguente, vou chamar o médico do pelotão, calma amigo.
- Diga, somente diga, lutei, e foi por amor. Adeus amigo.
- Não, não amigo! Desespera-se o soldado Öcsi.
- Médico, por favor, doutor corra! Médico, médico, socorro.
- Não!
Os olhos se fecham, os suspiros cessam, o corpo morre, a alma se vai. Célio sacode o corpo do amigo e grita em vão.
- Amigo, não! Volte, amigo, estamos aqui. Célio começa a chorar, e desesperado grita o amigo.
- Matheu! Não, não!

Célio, deitado em sua cama, abre os olhos, as pupilas se dilatam com o sol forte que transpassa a cortina do quarto. Seu olho percorre o quarto. As cortinas brancas pesadas, levemente se movem com a suave brisa do vento, o vento empurra o pó das cortinas, o pó das cortinas se mistura com os feixes de luz branca que atravessam o quarto; o quarto iluminado pelo feixe de luz e pó, o quarto com suas paredes cor de oliva, cuidadosamente pintadas por Célio e por sua esposa Elizabeth; as paredes do quarto que seguravam os quadros, pendurados por Célio sua esposa e seus filhos, quadros onde se viam lembranças, memórias, família, luz e pó. Memórias da guerra, de seus pais, de seus filhos, de seu casamento, de seus amigos; uma vida, diversas imagens.

Célio se levanta. Com a dificuldade de quem já tem mais idade, se arrasta, vai até o banheiro, lava o rosto, se olha no espelho, escova os dentes, se olha no espelho, toma seus remédios para pressão alta, se olha no espelho; se olha no espelho e não se vê. Volta para o quarto, abre o guarda-roupa, de tom marrom bem escuro, que sua mulher escolhera a mais de 20 anos atrás. Abre a porta e olha seus ternos velhos, cheios de pó, e luz, a que seus olhos produzem toda vez que as lembranças dos momentos que os ternos foram usados cuidadosamente se pintam em sua memória:
“A vida é cíclica” pensa o velho guerreiro. “A vida é cíclica pra quem vive, e pra quem já morreu?” pergunta o velho a seus ternos. Célio arrasta-se sem muita dificuldade, dá as costas ao armário, anda até a sala, com dificuldade agarra um disco de vinil, coloca na vitrola: “Cíclico e infinito, só Ravel” com esse pensamento Célio coloca para tocar...


Flauta:
Ele retorna ao seu armário coloca um terno Italiano verde, bem alinhado, feito no ano passado para as comemorações do exército brasileiro, para suas ações na segunda guerra mundial; mais uma vez ele seria homenageado. “Cansam-me tantas comemorações do passado, o que será do futuro, o que será quando morrermos todos, o que será da memória, o que terão de orgulho, o que farão para orgulhar-se? Chorarão sobre minha lapide e não mais terão motivos de orgulho vivo para comemorarem nesta terra, chorarão a morte do orgulho?”

Clarinete em Si bemol:
Após vestir-se, Célio desce com dificuldade as escadas. “mais uma vez quebrado o maldito elevador, já me relocaram por causa desta porcaria, arrumar não arrumam?” Ele enfim alcança o hall social do edifício, sai do prédio, não diz bom dia, olha para o alto do prédio. “Cinza, ranzinza cinzas, do velho cinza do prédio, tédio, meu tédio cinza, paredes cinza que guardam minhas cinzas, velhas cinzas cinza, tão triste o prédio, tão sozinho o velho” Célio dá as costas ao prédio e, de repente, sem pestanejar, cospe no chão: “Verdammt, diese teufel gebäude

Fagote:
Célio, o velho, chega à padaria: “Um sanduíche de mortadela”.
“Um sanduíche de mortandela senhor Zélio”
"Ahahaha". Célio Ri com gosto do atendente da padaria, que nunca consegue acerta-lhe o nome, nem do embutido, nem o seu.
“Quantas vezes, jovem, terei de dizer que non é Zélio, o certo é Célio”. “ja” Célio “ja”.
“Um dia acertarei de primeira senhor, acredite, um dia acertarei de primeira”
“Aguardo ansioso por este dia meu jovem” completa o velho.
“Chegará, bom, aqui está seu sanduíche de mortandela”
“Chegará “ja”, mas pelo vista demorará non” termina o velho antes de começar a comer o seu sanduíche de mortadela.
Come e também toma o seu café, como ele fazia religiosamente ao acordar.

Oboé d’amore
Célio caminha em direção a praça próxima ao edifício. Ele costuma ir todos os dias para sentar e conversar com alguns senhores que gastam os dias relembrando
momentos, e jogando xadrez nos bancos da praça. Esta era uma de suas poucas e boas atividades do dia, e sem dúvida a que ele gostava mais: “Xadrez é jogo de Inteligência, Genaro, jogo de inteligência “ja” comenta com um de seus parceiros de jogo, “que seja que seja, jogue logo, não aguento mais esse jogo horroroso, quando morrer, vou perguntar a São Pedro: tem xadrez no céu?” diz o velho “Se ele disser que sim, eu desço para o inferno” Os senhores ao redor dos dois riem com o comentário de Genaro, um dos senhores mais velhos do grupo. “Non, logo saberemos se tem ou não xadrez no céu Genaro, você está pela hora da morte mesmo”. Todos riem ainda mais.

Trompete e flauta:
Após algumas jogadas, e muito tempo sentado na praça, ele retorna para casa a passos lentos. Sobe o lance de escadas. Abre a porta de casa. Vai até a cozinha e vê se há algo na geladeira para comer. Ao abrir a geladeira vê um grande e branco pote de sorvete napolitano: “Frio, tão frio como o velho que vai comê-lo” Célio pega uma taça, coloca três bolas do sorvete, cobre com uma grossa camada de cobertura de chocolate, vira-se, vai até o armário, pega uma lata de leite condensado: “Olá querida”. Abre a lata esparrama o leite condensado na lata, lambe o resto de leite condensado que ficou em seu dedo. Guarda o pote e a lata na geladeira. Caminha até a sala, olha para sua poltrona preferida: grande, velha, bege clara, limpa, aconchegante, com rebites de madeira marrom claro, um cobertor leve de seda pendurado em um dos braços da poltrona, pó há pó na poltrona, virada para a direção da janela. Antes de sentar ele dá alguns passos até a janela e abre as cortinas; seus olhos ardem com os raios de sol, os leves raios de sol que antecedem a penumbra. Mais alguns passos e a vitrola volta a tocar a melodia do início da manhã. Célio se senta: “Santa Diabete, rogai por nós, amém”. Come. Come. Olha pela janela. Termina. Célio cai no sono.